O romance da liberdade de Virginia Woolf

Quando Leonard e Virginia Woolf compraram a editora Hogarth Press, no começo da década de 1920, estavam também comprando a liberdade criativa da escritora. Até então, ela havia publicado dois romances pela editora de seu meio-irmão. Obrigada a seguir os cânones literários dominantes na Inglaterra pós Vitoriana, Woolf não produziu nada de notável. Foi com O quarto de Jacob, lançado em 1922, que tudo começou a mudar. E mudou radicalmente.

O quarto de Jacob

Considerado pela crítica como um romance “futurista”, O quarto foi um vendaval de renovação da prosa britânica. E deixou ecos em toda a efervescente produção daqueles tempos em que o modernismo já dava suas caras em diversos países. Lançou as bases do que viria a ser a literatura de Virginia, prenunciando Mrs. Dalloway – que foi resenhado por Renata aqui – e mostrando com força os experimentalismos formais e uma linguagem que marcaria sua obra daí em diante, com os fluxos de pensamento voando entre os personagens, como se fosse dado ao leitor penetrar aleatoriamente pelas divagações de inúmeras pessoas, compondo assim um mosaico de impressões que, encaixadas, dão sentido a uma história que prima pelo rompimento com a linearidade do romanção britânico daqueles tempos.

E é assim que O quarto de Jacob é composto, com um toque de ousadia e de genialidade. Porque, no romance, não acompanhamos diretamente o personagem principal. Em momento algum temos contato com o pensamento e as impressões pessoais de Jacob Flanders. Começamos a conhecer o menino pelo olhar de Betty, sua mãe. E a história de vida desse garoto vai sendo composta pelas pessoas que o circundam. Muitas vezes, por meio da visão de passantes eventuais, sem importância alguma na biografia do jovem Flanders. Encontros casuais em uma rua movimentada de Londres, olhares trocados em um café ou uma festa.

E assim vamos conhecendo esse menino que cresce tímido e curioso. Da cidade litorânea onde nasceu, sabemos da história de viuvez e as dificuldades enfrentadas por sua mãe. As relações naquela comunidade da Cornualha marcadas pela forte presença do moralismo religioso dão o tom nessa primeira parte do romance. Propostas de casamento recusadas por Betty, que se empenha fortemente em cuidar da educação do pequeno Jacob. Quando este finalmente chega à cobiçada Cambridge, acompanhamos brevemente seu sucesso acadêmico pelas amizades, primeiros amores, uma forte relação de amizade com um dos colegas, muitas vezes carregada de um afeto que sugere homoafetividade.

Daí é um passo para a vida em Londres. A figura de Jacob se dilui na polifonia da grande cidade. Aumentam as vozes e o leitor é obrigado a ficar atento para não perder o rastro do personagem, que enfim é a razão de ser do livro. É incrível como Virginia mostra nos silêncios e ausências de Flanders a sua forte presença. Cobiçado por Clara, uma jovem de origem aristocrática, Jacob acaba por se envolver com uma garota da plebe. E logo se cansa de uma relação que naquela Londres do começo do século XX ainda é marcada fortemente pela estratificação social.

Então, o jovem e promissor advogado faz uma longa viagem para Itália e Grécia. Realiza o sonho de conhecer os cenários dos filósofos clássicos que tanto o inspiram. É um momento de muita iluminação no romance. Estamos no pré-guerra, há uma forte tensão no ar. Mas essa viagem idílica parece ser também uma fuga. Da poluição e do clima carregado de Londres, dos conflitos que se avizinham e pairam sobre Paris, Jacob chega a uma Grécia parada no tempo, visitada por centenas de turistas ricos, especialmente britânicos, saudosos de um tempo que não conheceram. É nesse ponto que o rapaz de aproxima de um casal inglês. Uma bela mulher, balzaquiana, com seu marido, mais velho e milionário. O começo dessa história é narrado por esta bela e precisa frase:

Sandra Wentworth Williams, explorando o mundo antes do café da manhã em busca de aventura ou de um ponto de vista.

Que linda maneira de descrever um sentimento de curiosidade, a busca de novas sensações, de outro corpo, de outras ideias. E ela encontra a “cabeça de Jacob Flanders”, ali, no café da manhã no hotel. Entra em cena uma forte dose de um erotismo velado. O marido, gordo e beberrão, acompanha os flertes e encontros furtivos do jovem casal de amantes com um misto de ciúmes e resignação. Jacob não é o primeiro amante da bela esposa, e, talvez, não será o último. É uma relação curta, de verão, que terá ecos no retorno à Londres, com um moço apaixonado, pela primeira vez cativo de uma mulher. Uma relação intensa, mediada pela literatura, pelas longas conversas e afinidades. Até que a realidade cai como uma bomba sobre as vidas das pessoas que circundam a vida de Jacob Flanders. É quando Virgínia faz uma quebra sensacional da narrativa, ampliando o silêncio de seu personagem. E mais não posso dizer, porque seria um bruta spoiler.

Depois da leitura de O quarto de Jacob fica difícil eleger uma preferência entre os romances que de Woolf que já li. Fica empatado com Mrs. Dalloway e As ondas. Não consigo escolher só um.

Há muito mais para escrever sobre esse livro. Dos saltos temporais, regressões e as digressões dos personagens. Cenas da vida cotidiana, compondo o cenário. Futebol, corridas de cavalos, jogos de cartas. Uma incrível passagem de Jacob pela Biblioteca Britânica, onde aparece uma reflexão que certamente é embrião dos pensamentos de Virginia sobre o lugar da mulher na literatura, debatido por ela na conferência Um teto todo seu, publicada em livro e que já foi resenhada aqui pelo Lombada Quadrada.

Li a edição da Grua Livros, publicada em 2017. Faz parte da coleção A arte da novela. Tem projeto gráfico editorial da Melville House Publishing, dos EUA. E a tradução brasileira, muito boa, é de Lilian Jenkino.

Mergulhe em Virginia e venha aqui nos contar.

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