Como Monteiro Lobato explica Donald Trump

Antes de tudo:
– esse título não é uma pegadinha (achei melhor esclarecer).
– esse post contém spoilers (mas é de um livro com quase 100 anos).

Donald Trump todo mundo sabe, acaba de ganhar as últimas eleições americanas com uma plataforma que não foi apenas ultraconservadora, mas francamente bizarra. Mas… e Monteiro Lobato, o pai da literatura infantil brasileira, como raios foi parar na mesma frase com o dono do topete mais feio da pós-modernidade? Calma, chegaremos lá.

A maior parte dos brasileiros só conhece a obra de Lobato mediada pela TV Globo, nos seriados do Sítio do Pica-Pau-Amarelo. Mas o criador de Emília foi também uma figura extremamente controversa, abertamente racista e patrocinador (financeiro, inclusive) das teorias eugenistas, que defendiam a melhoria genética dos brasileiros por meio de medidas para promover o branqueamento da população. Não raro, esse seu pensamento extravasava para os livros infantis do Sítio, em trechos tenebrosos cuja vítima principal era a personagem Tia Anastácia, felizmente cortados nos roteiros globais.

IMG_5147Lobato escreveu um único romance adulto, chamado O Presidente Negro ou o choque das raças, publicado originalmente em 1926. Tentando lançar mão dos artifícios da ficção científica, ele destilou todas as suas ideias eugenistas numa história que projetava os Estados Unidos do ano 2228. Por meio de uma máquina chamada porviroscópio, um cientista maluco, sua filha e o narrador da história têm o poder de ver o futuro, e usam essa traquitana para assistir o momento da história americana em que uma tensão entre raças e gêneros se reflete nas eleições para presidência.

Nesse futuro imaginado por Lobato, republicanos e democratas se uniram no Partido Masculino, enquanto as mulheres vão para a oposição no Partido Feminino. As mulheres, aliás, não são apenas outro gênero da raça humana, mas outra espécie inteiramente diferente, o que explica de forma marota as diferenças de comportamento em comparação com os homens. Os negros, por outro lado, respondem por 1/3 da população americana, mas não têm organização política própria. A cada eleição, o líder dos negros decide se eles devem votar no Partido Masculino ou no Partido Feminino, de acordo com as conveniências políticas do momento. Em 2228, esse líder surpreende a todos lançando candidatura própria, e com reais possibilidades de ganhar.

Li este livro em 2008, quando Obama disputava com Hilary Clinton a indicação democrata às eleições. O candidato republicano de então era o branquíssimo John McCain, com sua vice igualmente alva Sarah Palin. A coincidência na tríade de concorrentes principais me pareceu fantástica para aquele momento, e escrevi  na época para o Suplemento Pernambuco. Com a vitória de Donald Trump e seu discurso WASP numa campanha contra uma candidata mulher que tinha  Obama como fiador, foi impossível não revisitar o romance. Especialmente porque, desta vez, a realidade fez jus ao futuro imaginado por Monteiro Lobato – “um dia a humanidade se assombrará diante das previsões dos escritos”, diz o livro.

A trama de O Presidente Negro foi tecida por Lobato para lhe permitir discutir as diferenças nas soluções brasileira e americana para o problema dos negros. Assim, o romance condena nossa miscigenação por sua lentidão no processo de embranquecimento da população brasileira, enquanto elogia a total segregação realizada pelos americanos. Naquele ano de 2228, os Estados Unidos haviam conseguido implantar processos tecnológicos que despigmentavam a pele dos negros para que parecessem mais claros, mas isso não resolvia as diferenças socioculturais, o que, para o autor, reduzia os valores humanos da nação. A ascensão do candidato negro, portanto, é vista como a máxima ameaça às conquistas americanas.

Vai nesta mesma toada a visão de Lobato a respeito da situação das mulheres. Ao considerá-las como uma espécie inteiramente diferente, as sabinas (ou “as mamíferas rebeldes”), Lobato literalmente desumaniza todo o gênero e naturaliza da forma mais radical os estereótipos femininos de fundo machista como ardilosidade, inconstância, futilidade. No decorrer da trama, o que parecia ser uma possível aliança entre o candidato negro e o Partido Feminino cai por terra quando a líder das sabinas descumpre seu acordo. Não só muda de lado como se casa com o candidato branco, aceitando alegremente submeter-se ao posto de primeira-dama.

O candidato negro, no entanto, ganha as eleições. Mas é assassinado às vésperas da posse pelo presidente branco, que então revela ter esterilizado toda a população negra de uma só vez por meio de radiação, num plano mirabolante que envolvia atrair os afroamericanos aos postos de contaminação, disfarçados pelo governo como um programa para desencarapinhamento dos cabelos crespos. Sim, o fofo Monteiro Lobato do Visconde de Sabugosa saiu-se mesmo com essa, acreditando com todas as forças que extinguir a população negra significava uma melhoria social: “o choque das raças fora prevenido, o que valeu por nova vitória da eugenia”.

Trump, não preciso entrar em detalhes, foi eleito apesar (ou por causa) de suas atitudes misóginas e de sua postura abertamente racista e xenófoba. Seus discursos machistas, que tentam restringir mulheres a um espaço decorativo e utilitário, assim como a defesa xenofobia como política de Estado, não são muito diferentes, nos princípios, das soluções mirabolantes pensadas por Monteiro Lobato para resolver sua trama futurista.

Lobato, no entanto, não era um homem de seu tempo, como alguns tentam defender. Ele propagava estas ideias poucas décadas após a abolição da escravatura, defendida por seus pares intelectuais; na mesma época em que Gilberto Freyre festejava a miscigenação brasileira e o Movimento Modernista alçava o mulato a símbolo nacional. Ainda que estabanadamente, o Brasil trabalhava para tentar integrar o negro à identidade nacional, mas Lobato nadava contra a maré.

Este não parece ser o caso de Trump. Reverberando uma era de extremo retrocesso de pensamento, ele sobe junto com a onda conservadora, alçando a um dos postos mais importantes do mundo um pensamento do passado, que se projeta para o futuro próximo – infelizmente – com todas as forças.

PS: A imagem em destaque é um detalhe da obra Pão nosso de cada dia, do artista português Yonamine, em cartaz no Museu Afro Brasil na mostra Portugal, Portugueses.

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