O que esperar de ‘Mulherzinhas’?

Tenho pouquíssimo conhecimento da literatura escrita por mulheres entre os séculos 18 e 19. Minha impressão leiga era (ainda é um pouco) de que este período foi profícuo em livros que fizeram coro ao senso comum sobre a existência de uma suposta literatura feminina, como se textos escritos por mulheres tivessem características inatas e incontornáveis, resultando em obras consideradas menores por princípio (menores do que as escritas pelos homens, claro).

A produção de mulheres nesse período é, da fato, profícua em histórias românticas. Não raro, as maiores aspirações das personagens eram em um bom casamento e a felicidade familiar. Porém os 1800’s também nos deram Frankenstein, de Mary Shelley, a pirralha capaz de criar o gênero ficção científica aos 19 anos, com uma das obras mais icônicas da literatura mundial até hoje. E o que dizer de toda a produção de Virginia Woolf nos 1900’s?

img_20170207_101649864Confesso que li um único livro de Jane Austen e não gostei (Razão e Sensibilidade), justamente por excesso de romantismo. Então foi com desconfiança que encarei Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, do qual nunca tinha ouvido falar antes de ler a Série Napolitana, de Elena Ferrante. As personagens Lila e Lenu, ainda crianças, lêem Mulherzinhas e sonham em escrever uma obra de sucesso como aquela, na esperança de ficarem ricas como escritoras (ha ha ha!).

Mas não foi só a citação de Ferrante que me empurrou para este livro. A leitura foi proposta em janeiro pelo clube Leia Mulheres de São Paulo. Infelizmente, o debate aconteceu bem no dia da nossa mudança, o que me impediu de ir. De qualquer forma, compartilho aqui minhas impressões sobre o romance, para dar uma ideia geral do que esperar do livro.

1. Esse título???
Eu jamais escolheria um livro chamado Mulherzinhas de livre e espontânea vontade. Porém, o tom de depreciação feminina que a tradução para o Português indica não corresponde à intenção do original em inglês (Little Women). A trama acompanha a vida de quatro irmãs adolescentes/crianças que precisam se virar junto com a mãe enquanto o pai luta na Guerra Civil Americana. Mesmo tão jovens, elas já precisam exibir maturidade para lidar com as dificuldades de um período de recessão em geral e de particular decadência em sua família. Por isso, mesmo com tão pouca idade, o pai já as considera suas pequenas mulheres – no sentido de que precisam ser fortes o suficiente para aguentar o tranco.

2. Tem romance, mas tem outras coisas também
Embora apareça como um desejo latente e o resultado natural da pressão social, o peso sobre o casamento é ligeiramente aliviado em Mulherzinhas. Bem ligeiramente. Com isso, quero dizer que as personagens ao menos vislumbram outras possibilidades de vida, sob os valores defendidos por sua mãe – dignidade, honra, autonomia. Assim, as quatro irmãs até sonham em encontrar seus príncipes encantados, mas já não se espera que sejam ricos, nem que venham montados num cavalo branco. O que buscam principalmente é uma relação com respeito mútuo, embora aqui e ali se incomodem com a própria pobreza e se sintam tentadas por possibilidades de riqueza. Pelo menos duas delas também nutrem fortes aspirações profissionais – uma quer se escritora, a outra artista plástica.

3. Jo ❤
Mulherzinhas foi inspirado na família da própria escritora, que também tinha três irmãs. Vários dados biográficos da família se fazem presentes no romance. E tudo indica que a personagem Jo – a segunda mais velha das irmãs – é um alter-ego da própria Louisa May Alcott. Jo almeja ser escritora e é em tudo um tomboy – uma menina que estaria mais à vontade se fosse um menino. Não gosta de roupas femininas, se entende melhor com os amigos homens, odeia as tarefas domésticas, está sempre em busca de aventuras. O romance não chega ao ponto de indicar o interesse afetivo ou sexual de Jo por outras meninas (como aliás, acontecia com autora), mas ela verbaliza seu desagrado claramente:

It’s bad enough to be a girl, anyway, when I like boy’s games and work and manners! I can’t get over my disappointment in not being a boy. And it’s worse than ever now, for I’m dying to go and fight with Papa. And I can only stay home and knit, like a poky old woman!

[É ruim o suficiente ser  uma menina, de todo modo, quando eu gosto dos jogos, dos trabalhos e das maneiras dos meninos! Não consigo superar minha decepção por não ser um menino. E é pior do que nunca agora, porque estou morrendo de vontade de ir lutar ao lado de papai. E só posso ficar aqui e tricotar, como uma velhota!] Tradução minha

Embora no decorrer da história o caráter de Jo vá amaciando aos poucos, ela mantém uma postura aventureira e empreendedora até o fim da história, o que pode ser um reflexo tanto da vontade da autora em colocar a afirmação feminina em seu livro, mas também, mais genericamente, de vender um american way of life que já valorizava o trabalho e a inovação naqueles anos 1900’s.

4. É feminista ou não é?
Pergunta capciosa. Mesmo com a personagem Jo quebrando os estereótipos, Mulherzinhas parece defender um espaço delimitado para mulheres, em que as tarefas domésticas, se não apreciadas, precisam ser vistas como uma obrigação necessária para o bom funcionamento da família e da sociedade. Talvez o romance tenha a medida do feminismo possível naquele contexto, na medida em que as mulheres ao menos têm o poder de fazer escolhas sobre suas próprias vidas e, estimuladas pela mãe, o fazem segundo valores humanos universais.

5, É um livro bem grande
Mulherzinhas está dividido em duas partes enormes. Os capítulos são longos e bastante detalhados, meio um novelão. Não que isso seja um problema, mas se você gosta de ler em trânsito, como eu, recomendo a edição para Kindle ou qualquer outro e-reader. A versão digital em inglês sai de graça no site de Amazon. Reza a lenda que a edição impressa em português tem 276 páginas – mas, acreditem, parecem muitas mais.

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Um comentário sobre “O que esperar de ‘Mulherzinhas’?

  1. Adoro Adoro Adoro Little Women. Li muito jovem, li mais velha e li de novo. Jô realmente é uma das “minhas” personagens. Também vi o filme, que assume o nome de Adoráveis Mulheres, e gostei da performance da Winona Ryder com Jô e de Christian Bale como Laurie.
    Ah! Adoro Orgulho e Preconceito da Jane Austen…

    Curtido por 1 pessoa

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