Viagens a Portugal

2017-03-09 08.03.43No canto de uma prateleira da livraria Bertrand, em Lisboa, apareceu o pequeno volume de Portugal, relato de viagem escrito por Miguel Torga, publicado originalmente em 1950. Comprei. São 97 páginas em formato de bolso, que você devora em poucas horas de uma leitura que exige atenção aos detalhes, tão densa e erudita que é. Mas não inacessível.

Impossível não lembrar de Viagem a Portugal, de José Saramago, publicado pela primeira vez em 1981. São mais de 380 páginas, não menos eruditas e não menos densas e detalhadas.

Trinta e um anos separam as obras de Torga e Saramago. Nos anos 1950, Portugal vivia sob a pesada mão da ditadura de Salazar. Em 1981, vivia ainda o frescor da primavera de abril, a redemocratização e o reencontro de seu lugar no mundo. A sombra do terror de Estado, das torturas  e perseguições e os ecos da resistência ainda pairavam sobre as cabeças dos lusitanos. Mas o futuro lhes sorria.

Estamos aqui para falar de relatos de viagens a Portugal. E cabe um alerta. Se você quer dicas de restaurantes, bons hotéis, relatos detalhados das principais atrações turísticas, não leia Torga. E não leia Saramago. Vá a uma livraria e compre um bom guia de viagens. Por que os livros de que falamos tratam de outro tipo de viagem e viajante. A melhor definição é dizer que não são livros para turistas. São relatos de dois autores que olham seu país a partir de uma ótica profundamente humanista.

Saramago e Torga também parecem fazer uma busca dos traços da identidade portuguesa, em cada detalhe de um povoado, ou nas observações a respeito dos tipos humanos que encontram pelo caminho. Talvez tenham chegado a conclusões parecidas. Não existem um Portugal. Existe um país formado historicamente por confluências de povos. Celtas, mouros, judeus, africanos, que vão dando à pequena faixa de terra espremida entre o mar e o território espanhol um jeito, uma cara, uma alma.

Portugal é um país pelo qual é possível viajar de ponta a ponta em poucas semanas. É o que fazem nossos autores. Em 1950, Torga faz seu percurso, começando por sua Trás-os-Montes natal, no nordeste português. E termina o périplo no sul cálido das praias do Algarve. Em 1981, Saramago repete o mesmo trajeto, entrando em Portugal por Miranda do Douro, e saindo pela extremidade sul. Não encontrei referências de que Saramago, de alguma forma, tenha refeito os caminhos do trasmontano. Mas é clara a sobreposição. Um dia ainda vou riscar no mapa as viagens de ambos, para tentar entender se uma viagem foi em homenagem à outra.

O que salta aos olhos nas duas obras é a forma como os autores olham para os lugares que formam seu pequeno país. Torga, premido pelas duras circunstâncias da ditadura que calava Portugal, busca os sinais de grandeza do passado, apagados pela decadência e obscuridade do seu tempo. De forma sistemática, o tema da liberdade aparece em seus relatos sobre monumentos, igrejas e locais onde fatos históricos da vida portuguesa aconteceram. Saramago, por sua vez, carrega na ironia, traço que lhe é peculiar, para falar de um país e de uma gente que tenta voltar a andar na carroça da história.

Torga nos traz um relato sisudo, por vezes empolado. Um arguto observador, que consegue enxertar referências históricas, faz correlações constantes com a mitologia greco-romana, mostra um país essencialmente rural, com algumas poucas cidades grandes despontando aqui e ali. Porto, Coimbra, Lisboa e muitas aldeias compõem o relato. Por vezes é lírico, como no belo retrato que faz da encantadora cidade de Évora, que para ele deveria ser visitada obrigatoriamente na calada da madrugada. O retrato português de Miguel Torga não se atém a descrições de monumentos e museus. Pelo contrário. Ele, de uma certa forma, os coloca em segundo plano. A paisagem natural lhe é mais cara. Assim como a paisagem humana. São poucas páginas, muita concisão. E um belo retrato do país sombrio em que Torga vivia quando escreveu Portugal.

Em Saramago, a obra é mais extensa. Igualmente, a Saramago interessam os tipos humanos. E também marca deixada pelas gerações passadas em cada localidade pela qual passa. Ateu, não deixa de reconhecer e descrever a beleza de igrejas e mosteiros. Por menor que seja uma vila, vai em busca de seu museu histórico. Por mais difícil que seja o acesso, chega a lugares para simplesmente olhar um quadro. O Nobel de Literatura também fala de comida, vinhos, licores. Quer experimentar os cheiros e gostos de cada região. Mais do que em Torga, Viagem a Portugal tem também a ambição de guiar viajantes. Não turistas. Não aqueles a quem basta uma foto e um souvenir para dizer que ali estiveram. E sim aqueles que minimamente dialogam com a paisagem e a história dos locais que visitam.

Um poema de Torga. E o parágrafo final de Saramago, com os quais terminamos esta resenha, dão a clara noção de que um buscava um sentido de pátria que ainda não conhecia, e que um dia pudesse estar livre do julgo da ditadura, representada pela palmatória. E o outro, refazia seus passos em um novo contexto, no qual a viagem é também sinônimo de liberdade. Saramago refaz os passos de Torga. Torga refaz os passos de Garret, Unamuno, Camões. Portugal é um país de viajantes.

Pátria

Soube a definição na minha infância.

Mas o tempo apagou

As linhas que no mapa da memória

A mestra palmatória

Desenhou.

Hoje

Sei apenas gostar

Duma nesga de terra

Debruada de mar.

 

“O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”

 

Miguel Torga é um poderoso contista. O Lombada recomenda a leitura de Contos da Montanha, ótima introdução para quem ainda não conhece sua obra. Não é fácil achar no Brasil, mas pela Amazon ou em sebos da para ir atrás de Portugal, publicada pela editora Leya. Paguei módicos 5 Euros pela minha edição. Já  Viagem a Portugal, que tenho na edição portuguesa da Caminho, pode ser achado nas livrarias brasileiras em edições da Companhia das Letras. E dá para achar uma belíssima (e cara) edição ilustrada com fotos.

Lembrando a todos que quem compra por nossos links no site da Amazon ajuda a manter o Lombada Quadrada. 😉

Aqui os links diretos:
Portugal, de Miguel Torga.
Viagem a Portugal, de José Saramago.

2 comentários sobre “Viagens a Portugal

    1. Olá, Vinícius. Obrigado pela leitura e comentário.
      Não temos resenha sobre livros de viagem que tenham a Espanha como tema. E não conhecemos livros como esses de Saramago e Torga escritos por espanhois. De qualquer forma, tem muita literatura espanhola no Lombada. Navegando pelo blog você vai achar resenhas de Cervantes, Vila-Matas, Ginés Cuttillas e outros.
      Abraços,
      Carlos

      Curtir

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