Sem importância coletiva

IMG_4729Li em algum lugar que Sem importância coletiva, de Daniela Lima, é inspirado no período imediatamente posterior ao acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, quando soldados foram enviados ao local para o trabalho de descontaminação emergencial. Apelidados de biorobôs, eles entraram na missão sabendo que iriam morrer da pior maneira possível, sozinhos e em uma cidade arrasada, de um inimigo invisível que lhes corroeria por dentro.

Mas só soube  dessa referência depois de terminar o texto, e é impressionante como o sugestionamento (ou a falta dele) pode influenciar a interpretação de uma obra. Pois o trabalho de Daniela Lima não faz nenhuma menção direta a Chernobyl, e a minha apreensão da leitura passou bem longe da icônica tragédia dos anos 1980. Pelo contrário, o livro me marcou como uma alegoria distópica sobre cidades do futuro.

Ops.

Pensando bem, o abandono de uma cidade por causa de um acidente nuclear e um eventual futuro distópico têm uma relação em potencial até bem evidente. Chernobyl antecipou o que a humanidade achava ser um porvir distante, jogando na cara do presente as consequências dramáticas de um desenvolvimento técnico e científico adotado como panaceia sem uma avaliação acurada dos riscos reais.

Nesse sentido, Sem importância coletiva pode até beber nessa referência histórica, mas seu grande trunfo é projetar um ambiente social futurístico que tem tudo a ver com uma discussão muito atual sobre a forma como as sociedades e cidades contemporâneas vêm se desenvolvendo. Baseadas muitas vezes na segregação social, exclusivismos e a normatização de um certo padrão de consumo, elas se tornam, numa avaliação mais pessimista, espaços de achatamento de individualidades e até de desumanização.

Publicado pela E-Galáxia, o livro é curto e certeiro, como aponta a apresentação de Ricardo Lísias. Não há exatamente uma história ou uma narrativa; talvez, antes, um clima. Na trama – se é que se pode usar esse termo – um homem sem importância coletiva vive isolado numa antiga cidade modelo, transformada em uma zona de isolamento para onde pessoas do mundo exterior afluem por curiosidade, não sem antes se submeter a longos procedimentos de admissão. A cidade modelo “carrega alguma estranheza por conta daquilo que não está lá” – era, portanto, um lugar de ausências, provocadas pela exclusão de coisas e pessoas que não ornavam com a política que buscava implantar um sistema perfeito.

homem sem importância coletiva inicia o livro desempenhando o heroico trabalho de recolher escombros no alto de uma laje. Ele substitui uma máquina que, por uma falha de programação, despencou lá de cima. Esse artefato no qual diversas nações haviam investido milhões era um robô com importância coletiva. De saída, o texto estabelece uma crítica à panaceia do desenvolvimento tecnológico que confere mais importância a máquinas eletrônicas do que a seres humanos. Reforçando essa visão, em outro momento do livro, fichas com informações médicas recebem mais atenção do que os pacientes em si (oops).

O homem sem importância coletiva é o oposto de um indivíduo; não tem sentimentos e não atribui significado a nada. É apenas um corpo saudável, que segue até o dia que não seguirá mais. Essa ausência de individualidade é ainda mais exacerbada quando entra em cena a segunda personagem do livro, a jornalista com importância coletiva. Ela vai à zona de exclusão aparentemente para escrever uma matéria e usa o homem sem importância coletiva como guia. Porém, logo é absorvida pela ausência de tudo. Como aponta Ricardo Lísias na apresentação, “desumanizar-se é viver um pesadelo sem nenhuma importância”.

Dedicando seu texto “a todos aqueles que não vão ler esse livro”, Daniela não deixa também de sugerir uma reflexão sobre o papel da própria literatura, especialmente num País em que quase ninguém lê. Um livro incrível, que não pode ser medido pela sua quantidade de páginas.

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