Harry Potter contra o preconceito literário

Meu primeiro pensamento ao ver as notícias sobre o aniversário de 20 anos de Harry Potter foi “putz, tô ficando velha”. O segundo foi dirigido à injustiça de algumas reações na minha timeline. Teve quem classificasse a série de porcaria literária, enquanto outros se vangloriavam de não ter lido uma linha sequer. Muitos, quando confrontados, se defenderam aludindo ao que consideram problemas nos filmes. Críticas são necessárias (e como!), mas até para serem efetivas, elas precisam ser honestas, ou vão cheirar a preconceito.

Hoje eu posso achar os livros de Paulo Coelho uma grande balela, pois li uns três ou quatro na minha adolescência antes de passar a Machado de Assis. Posso questionar a qualidade literária de Cinquenta tons de cinza porque as primeiras páginas são tão sofríveis que fica evidente, de saída, que não há muito ali o que aproveitar. Pra falar mal de algo, a gente precisa pelo menos tentar conhecê-lo, ainda que seja tentador ligar a metralhadora só de irritação pelo bombardeio da mídia. Mas, ainda bem, nem tudo que faz sucesso é necessariamente uma tragédia.

De qualquer ângulo pelo qual eu tente enxergar a questão, continuo achando mais desejável que as pessoas leiam O alquimista, O Código Da Vinci e as peripécias do Sr. Grey do que simplesmente não leiam nada. Ninguém nasce um exímio leitor. Nos tornamos leitores a partir da bagagem que vamos montando ao longo do tempo e que, inevitavelmente, inclui obras de qualidade duvidosa ou meramente recreativa. E posso assegurar que o trabalho de J. K. Rowling não se encaixa na primeira hipótese. Sobre a segunda, é até possível debater.

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Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado no Reino Unido quando eu já tinha 17 anos. Nem sei quando foi a primeira publicação no Brasil, mas lembro que, quando o li por indicação de uma amiga fotógrafa, já tinha uns 25 ou 26. Me tornara adulta dentro de uma redação de jornal, tinha voltado à faculdade para estudar História e acabara de sair da casa da mãe porque, além das razões clássicas, precisava de mais espaço para meus livros. Portanto, não é da posição de criança saudosista que defendo se tratar de uma excelente obra literária. Veja algumas razões:

1. J. K. Rowling escreve bem.
Obviamente, ela não é nenhum James Joyce. Mas é exato nesse tipo de comparação que começa uma crítica injusta. Rowling se propôs a escrever um livro de fantasia infantojuvenil – se alguém esperava que saísse um Ulisses disso, houve um sério problema com expectativas mal-direcionadas. O certo é que ela tem uma prosa clara, atraente e muito bem-humorada. É bastante evidente o cuidado que teve na construção do seu texto, fazendo-o funcionar em conjunto com a narrativa para cativar o leitor. Exemplo desse cuidado é que Rowling criou um léxico próprio, baseado em grande parte no latim, para nomear criaturas e feitiços, impondo também desafios às traduções.

2. É uma história universal.
Harry Potter é um romance de formação e, como tal, fala tanto para o público que tem idade semelhante à do personagem quanto aos adultos, que sempre podem rememorar essa fase de suas vidas. Quando a história começa, o órfão Harry tem 11 anos e descobre ser um mago. Cada livro da série corresponde a um ano de estudo na escola de magia de Hogwarts – ou seja, acompanhamos os personagens principais da infância à adolescência, com todos os perrengues próprios dessa fase: baixa estima, necessidade de aceitação, problemas na família, bullying, preconceito, desafio à autoridade, busca por afeto, descoberta da sexualidade, etc. No amplo universo de alunos e professores de Hogwarts, é impossível não se identificar com algum deles.

3. É fantasia medieval e contemporânea – ao mesmo tempo.
Histórias de fantasia em geral são ambientadas em um mundo ou em um tempo distantes, como Senhor dos Anéis, o que dá aos autores a possibilidade de criar universos inteiramente novos, com lógica próprias – o que é ótimo. Mas um dos diferenciais de Harry Potter foi colocar o mundo contemporâneo existindo em paralelo com o mundo da magia, com pontos de contato que funcionam como ganchos para situações engraçadas ou mesmo para críticas à atualidade. Essa coexistência acabou criando uma mística em torno dos lugares reais que aparecem na série, como a plataforma da estação de trem Kings Cross, em Londres, onde os bruxinhos embarcam no Expresso Hogwarts a cada início de ano escolar.

4. Os personagens são contraditórios.
A série acerta ao apresentar personagens multifacetados. Harry Potter, o herói, está longe de ser perfeito – é carente, inseguro e péssimo aluno. Severus Snape, o professor que ele odeia e primeiro candidato a vilão, aos poucos vai se tornando mais e mais complexo, até se tornar um dos personagens mais interessantes da série. Mesmo Voldemort, aquele-que-não-se-deve-nomear, tem seu quinhão de humanidade no passado, o que vamos descobrindo à medida em que detalhes sobre seu surgimento vão sendo revelados. Enfim, ninguém é 100% mocinho nem 100% bandido nessa história, o que é salutar nesses tempos de extremismos.

5. É divertido!
Um dos grandes baratos da série Harry Potter é a quantidade de personagens e informações que vão sendo reunidas aos poucos, até que o sentido das coisas é totalmente revelado no livro final, sem nenhuma ponta solta. É fascinante ir avançando na narrativa e rememorando detalhes aparentemente descartáveis dos livros passados, que de repente ganham uma razão de ser quando a história avança. Além disso, a série não abandona seu humor e inocência juvenis mesmo quando a narrativa vai ficando mais densa, livro a livro.

6. Ajudou a formar milhões de leitores pelo mundo.
Há 20 anos, J. K. Rowling vem sendo o primeiro contato com a leitura de milhões de pessoas. Um fenômeno como esse possibilita a crianças e jovens que não têm o exemplo da leitura em casa ou na escola recebam esse impulso de forma mais horizontal, por meio dos amigos, ainda que nisso haja também uma grande influência da mídia. Como ser contra algo assim?

7. Até Umberto Eco concorda comigo.
Quando religiosos extremistas pregaram o boicote à Harry Potter alegando se tratar de um livro demoníaco, Umberto Eco saiu em defesa da série, chegando a comparar o trabalho de Rowling aos clássicos Oliver Twist, de Charles Dickens, e Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár. “Se o clima é este, creio que devo entrar em campo a favor de Harry Potter. As histórias são, é claro, histórias de magos e feiticeiros e é óbvio que teriam sucesso, pois as crianças sempre gostaram de fadas, anões, dragões e bruxos e ninguém nunca pensou que a Branca de Neve fosse criação de um complô de Satanás, e se tiveram e ainda têm sucesso é porque sua autora (não sei se por cultíssimo cálculo ou prodigioso instinto) soube colocar em cena situações narrativas verdadeiramente arquetípicas”. O trecho é do livro Pape Satàn Aleppe, lançado recentemente no Brasil (veja matéria completa sobre o livro de Eco no blog Página Cinco).

 

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