Pedro Páramo é a literatura

2017-06-18 19.26.30-2Pedro Páramo, de Juan Rulfo, é mais do que um ótimo livro. É mais do que uma história bem contada. E vai além de uma obra-prima que usa das melhores técnicas literárias para fisgar o leitor. Pedro Páramo se insere no restrito grupo de livros que são a própria literatura. Adianto que não faço aqui uma análise com pretensão de crítica literária. É a opinião de um leitor comum, que tem uma certa rodagem como leitor. E que somente aos 50 anos idade tomou conhecimento da obra e seguiu referências para comprar o romance do escritor mexicano. E que referências foram essas? No intervalo de alguns poucos dias, uma citação marcante no ensaio A vida descalço, de Alan Pauls. Depois, o comentário entusiasmado de Renata sobre a análise incrível que Raimundo Carrero, em seu Segredos da Ficção, faz da frase que abre o livro.

“Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo.”

E essa frase, que é um primor de concisão, de narrativa absolutamente limpa e direta, te faz mergulhar em 128 páginas de pura literatura. A história? Bem, a história não é fácil. Até porque não existe uma. O que você vai ler são fragmentos de vozes, seja na primeira pessoa de Juan Preciado, o viajante que chega a Comala em busca de pistas sobre seu passado, seja em terceira pessoa, nas inúmeras intervenções dos personagens com os quais Preciado vai cruzando em uma cidade entregue a fantasmas.

Precisa de muita atenção, alguns retornos a páginas anteriores e releituras de trechos para ir compondo o pano de fundo de uma saga. Não a saga de Pedro Páramo e sua família. Não a busca de Juan Preciado pelas pistas de seu antepassado. Nem a história de Comala e da fazenda Meia Lua, de onde Páramo comanda com mãos de ferro a política e as vidas das pessoas que dele dependem. Trata-se na verdade de uma enorme parábola da vida Mexicana. Mais do que isso. Trata-se de uma parábola da vida latino-americana. Espere. Não é só isso. É uma obra universal.

Não é por acaso que escritores de todo o mundo pagam tributos para Pedro Páramo. Comecemos por García Marquez, que tem o romance de Rulfo como sua principal referência. Günter Grass, Susan Sontag, Carlos Fuentes. A lista é grande.

E o que faz desse livro de tão poucas páginas ser especial? Para lembrar de Ítalo Calvino e suas Seis propostas para o próximo milênio, ele tem o dom da concisão. Não apenas pelo número reduzido de páginas, porque concisão não se reduz a textos curtos. Pode-se fazer um romance de quase mil páginas, como Elias Canetti fez em Auto-de-Fé e conseguir ser econômico e direto nas palavras. É isso que Rulfo conseguiu, lapidando frases, descrevendo a paisagem geográfica e a fauna humana com precisão.

Outra grande qualidade é a de não entregar uma narrativa pronta. Nada contra histórias bem contadas – e Elena Ferrante está por aí para provar que é bom ler livros bem lineares – mas tudo a favor de obras que convidem seus leitores a juntar as pontas e preencher lacunas para criar suas percepções individuais, suas próprias leituras. Com Pedro Páramo, Juan Rulfo trata o leitor como seu co-autor. E, talvez por isso, circulem opiniões de que o romance é hermético. Mas, como pode ser hermético um livro tão poético, de uma poesia seca e quente, como é a vida na ficcional Comala, uma cidade inventada por Rulfo, que pode ser qualquer cidade, que pode ser a minha cidade, que pode ser a sua cidade, o seu bairro?

De tantas frases que sublinhei durante a leitura, destaco esta, que para mim é uma das melhores “brigas” que uma pessoa pode ter com deus. Uma mulher que perde seu amor e vocifera pesadamente contra quem a igreja jurava que seria um protetor:

“¡Señor, tú no existes! Te pedí tu protección para él. Que me lo cuidaras. Eso te pedí. Perto tú ocupa nada más de las almas. Y lo que yo quiero de él es su cuerpo. Desnudo y caliente de amor; hirviendo de deseos; estrujando el temblor de mis senos y de mis brazos. Mi cuerpo transparente suspendido del suyo. Mi cuerpo liviano sostenido y suelto a sus fuerzas. ¿Qué haré ahora com mis lábios sins su boca para llenarlos? ¿Qué haré de mis adoloridos lábios?”

Em toda sua longa existência, Juan Rulfo publicou apenas esse romance, um livro de contos e alguns escritos oriundos de seu trabalho como antropólogo. Além de muitas fotografias. Para Pedro Páramo, lançado originalmente em 1955, Rulfo dedicou uma obsessão permanente. A cada edição, buscava cortar palavras, fragmentar mais a narrativa. O que fez com que várias edições fossem ainda mais estranhas e difíceis de ler.

Ao comprar o meu exemplar, me deparei na Amazon com uma edição recente, em espanhol, feita sob supervisão da Fundación Juan Rulfo, que resgatou o texto original.

A aventura de ler em espanhol não foi fácil. Isso porque Rulfo usa muitos regionalismos e expressões do interior mexicano, com palavras que em outros países de língua hispânica têm sentidos diversos. Foram muitos cliques em dicionários e no santo Google.

Ah… Pedro Páramo, o personagem que dá nome ao livro é o autêntico caudilho latino-americano. Senhor de terras e de gentes, manda matar, manda prender, corrompe o poder, compra o padre, tem o bispo em suas mãos, as mulheres que deseja toma à força, reconhece alguns filhos e abandona outros, combate os revolucionários e depois se alia a eles quando percebe que o poder mudará de mãos. Nada mais América Latina. Nada mais Brasil.

Leiam Pedro Páramo. Ou releiam. É a literatura.

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