Até onde vai uma paranoia?

2017-07-06 21.46.49O primeiro capítulo de Biografia involuntária dos amantes, do jovem escritor português João Tordo, é de tirar o fôlego. Dois amigos seguem noite adentro por uma estrada da Galícia espanhola quando um javali cruza o caminho do automóvel. São poucas linhas narradas com palavras precisas e uma força que prenuncia algo muito grande.

É o ponto de partida para um longo e tortuoso romance de um autor que com pouco mais de quarenta anos já venceu o prêmio José Saramago e foi finalista do Portugal Telecom, hoje batizado Oceanos.

No carro, o narrador – um professor de literatura da universidade de Santiago de Compostela – e Saldaña Paris, um mexicano que entra de forma casual e obscura em sua vida. E a transforma. O professor, cinquentão em plena crise da meia idade, pai de uma adolescente rebelde e ex-marido de uma mulher independente e bem sucedida, volta sua atenção para esse mexicano estranho, um poeta perdido na praça de uma pequena cidade galega e portador de um grande mistério.

E aí começa uma narrativa que poderia ter um caminho menos tortuoso, mas que ainda assim guarda temas que são interessantes e faz com que o leitor queira avançar até a página 368, quando Tordo finalmente põe ponto final a uma história que passa por Lisboa, Paris, Barcelona, Londres, Cidade do México e Mont-Tremblant, em pleno inverno canadense.

Parece uma imensa maluquice. E é.

João Tordo faz de seu narrador, um pacato e acomodado professor de literatura, apresentador de um programa de rádio que ninguém escuta, um detetive obcecado pelo passado do poeta mexicano. Por trás dessa história, uma mulher portuguesa, morta recentemente, que supostamente foi o grande amor da vida de Saldaña Paris. Uma carta que chega ao mexicano depois da morte de sua musa intriga a tal ponto o professor que ele vai em busca do passado da jovem portuguesa, abatida precocemente por um câncer.

Uma mulher cuja família se desintegrou em meio a ilegalidades, assassinatos, um pai alcoólatra, um tio que fazia o jogo sujo para sindicalistas portugueses e contrabandeava aparelhos e filmes em VHS nos anos 1980. Pessoas que vão ficando pelo caminho, deixando poucos rastros. E é atrás desses fios tênues de vidas absolutamente insignificantes que o professor se embrenha, em uma viagem de poucos e agonizantes dias. Hoteis sórdidos, uma noite de natal e um réveillon deprimentes,  encontros estranhos, visita a um assassino em um presídio lisboeta. São ingredientes que formam uma grande salada russa, ou melhor, ibérica.

A qualidade do romance de João Tordo está em colocar ao leitor uma série de questões sobre a solidão do envelhecimento, a angústia de quem pensou grande, como é o caso do professor de literatura, e aos poucos foi se recolhendo a uma existência mediana. Traz à tona também o feroz conflito entre um pai que se pretende liberal, mas não consegue admitir que sua filha adolescente tenha uma vida sexual, um namorado fora do padrão e ambições limitadas. E remonta a uma Europa pré-unificação, em que Portugal e Espanha, países centrais da narrativa, saíam de uma longa idade de trevas.

A obsessão do narrador, que o leva a um perigoso jogo de ligar os pontos em torno da vida do amigo poeta, é também uma fuga. E parece ser uma grande alegoria de um tempo em que pessoas fogem de suas próprias vidas, projetando-se em viagens que nunca farão, itens de luxo que talvez nunca comprem, utilização leviana de remédios que prometem felicidade, paz e tranquilidade sem esforço e sem dor, cirurgias para esculpir um corpo inatingível e outras paranoias da pós modernidade.

Paranoia, portanto, é o tema central do romance . Tordo nos mostra um personagem que vai até o limite do impossível para buscar respostas que nada acrescentarão a sua vida. Desvendar um passado que seu próprio amigo não quer vasculhar. Uma viagem sem rumo, rumo ao nada.

Mas Biografia involuntária dos amantes tem problemas. Em vários momentos, quase abandonei a leitura por achar que a construção da trama tem pontos frágeis. Sabe quando você duvida da verossimilhança de algo?

Mesmo sabendo que se trata de ficção, você precisa ser convencido de que aquilo faz sentido. E, apesar de ter construído um romance prolixo, Tordo peca por ter deixado muitas pontas soltas. Poderia haver mais concisão e coerência. Como disse, são alguns temas de fundo que acabam por provocar curiosidade e fazer com que a leitura siga, mesmo que lentamente, até o fim.

Ainda assim quero conferir mais desse autor, especialmente pelos poucos mas brilhantes momentos de poderosa narrativa, como o da sequência inicial do atropelamento do javali.

O romance chegou ao Brasil neste ano pela Companhia das Letras. Vou ficar de olho em outras obras. E voltarei aqui para relatar.

 

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