Pra que serve uma festa literária?

Carlos e eu vamos à Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) há alguns anos. Acompanhamos de perto o auge da festa, quando a suntuosa tenda dos autores ocupava todo o areial, e testemunhamos também seu encolhimento, consequência da redução dos patrocínios em função da crise. Este ano, como se sabe, nem tenda havia: as palestras aconteceram na nave da Igreja Matriz, com pequenas adaptações pra dar conta do palco e das cadeiras individuais para uma plateia pagante reduzida à metade.

Contudo, a programação montada pela curadora Joselia Aguiar equilibrou a falta de dinheiro com uma pulsão inteiramente diferente, incluindo uma atenção especial à representação da diversidade humana entre os autores convidados. O espaço para o público não-pagante na tenda do telão aumentou bastante e, dessa vez, esse público também pôde enviar suas perguntas aos autores, o que enriqueceu a dinâmica dos debates.

Joselia tem todos os méritos, claro, mas é bom lembrar também que até a sua nomeação como curadora foi resposta da Flip a pressões externas do público (e do não-público). No ano passado, a escolha de Ana Cristina César como autora homenageada já veio na esteira da primavera feminista e da gritaria geral contra o fato de que, em 10 anos, a Flip só tinha destacado uma escritora – a incontornável Clarisse Lispector. No ano de Ana C., a curadoria também tentou equilibrar a programação com a presença maior de autoras – mas aí, foi a ausência de negros que se tornou incomodamente evidente.

Por que danado isso importa tanto? A resposta é complexa e não pode se restringir ao ambiente literário, mas eu vou aqui parafrasear o premier canadense Justin Trudeau: porque estamos em 2017. Sim, o mundo mudou (pra melhor) e nem nós mulheres aceitamos machismo de boca fechada, nem os negros aceitam racismo passivamente. Desconsiderar a diversidade humana no espaço privilegiado que uma festa como essa proporciona é, no mínimo, miopia. Quando falamos de cultura – por excelência, o campo da alteridade – miopia é um problema bem grave.

Mulheres e negros escrevem literatura de qualidade há muito, muito tempo, mas há toda uma estrutura no mercado editorial que dificulta a publicação de suas obras, sua visibilidade e seu reconhecimento. Assim como a sociedade em geral, o mercado se acomodou naquilo que já está dado e sempre deu mais atenção a escritores brancos de origem anglo-saxã. E não se trata apenas de uma acomodação passiva. Basta lembrar que a criadora de Harry Potter teve sua história rejeitada por várias editoras antes de conseguir publicá-la. Quando finalmente conseguiu, foi sob a condição de que seu primeiro nome fosse abreviado, e assim nasceu a assinatura J. K. Rowling. A editora achava nenhum menino compraria o livro se soubesse que ele tinha sido escrito por uma mulher – e vejam só o machismo duplo, sequer pensaram que meninas também podiam se interessar pela história.

Portanto, voltar um pouco mais de atenção a autores negros e mulheres não foi mera condescendência. Foi só inteligência mesmo, mas a Flip precisou de 15 anos e de uma curadora mulher pra chegar a essa conclusão.

Resultado? O clima no centro histórico já estava diferente desde a quinta-feira, com muito mais gente tropeçando pelas ruas de pedra. Em anos anteriores, o público só se apresentava com força mesmo nos fins de semana, quando chegavam à cidade também os veranistas ou visitantes sem interesse específico em literatura. Também foi bem sensível a maior presença de pessoas negras inclusive dentro da tenda dos pagantes.

IMG_0509A mudança de foco fez bem até pras vendas. No domingo, quando a festa já se encerrava, a baixa na pilha de livros e os clarões nas prateleiras da Livraria da Travessa era absolutamente notável, e mais ainda nas bancadas dedicadas à literatura feminista e aos livros escritos por negros, africanos e luso-africanos. Os dois recortes foram uma grata novidade nessa edição.

Mesmo com autores menos midiáticos nos debates, alguns dos quais publicados por editoras de pequeno porte – caso de Conceição Evaristo e da ruandesa Scholastique Mukasonga – as vendas da livraria oficial aumentaram em 30% em comparação com o ano passado. Saca aqui a lista com os dez livros mais procurados durante o festival. Tem sete autores negros e mais a biografia de Lima Barreto (também negro), o homenageado da festa. Dos dois livros restantes do ranking, um é a nova tradução da Bíblia por Frederico Lourenço. Em outras palavras, diversidade vende, e não é pouco não.

Para quem temia que a diversidade representasse uma guinada da Flip à militância, compartilho essa boa análise da Revista Época: “ao abrir espaço para a diversidade, a Flip acabou por privilegiar a literatura, a boa literatura que se sustenta no vigor das palavras e não nos caprichos do mercado editorial“. Faz sentido.

Mas afinal, pra que serve uma festa literária? Pra vender livros, ué, e isso não contradiz a análise da Época. Vender é a expectativa de todas as editoras que bancam a ida de seus autores a Paraty, e é a expectativa dos autores também. Por outro lado, para cada leitor, uma festa literária serve para proporcionar um contato mais próximo com os escritores de quem já se é fã e, principalmente, para conhecer novos escritores. Quando a curadoria olha pros lados e enxerga as margens, não apenas o que já está colocado nas prateleiras de best-sellers, a experiência se torna muito mais enriquecedora (e lucrativa) pra todo mundo.

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2 comentários sobre “Pra que serve uma festa literária?

    1. Não sabia que ela tinha editado Harry Potter, obrigada pela informação. E parabéns pela Flip, acho que desde a primeira vez que eu fui, em 2010, eu não me empolgava tanto com as mesas e com o clima na cidade. 🙂

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