Lima Barreto,  Dostoiévski dos trópicos

Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria.

Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.

O trecho em epígrafe é de O cemitério dos vivos, uma das últimas obras escrita por Afonso Henriques de Lima Barreto, homenageado da Flip 2017. Para me preparar para a ida a Paraty resolvi reler Triste fim de Policarpo Quaresma, que resenhei aqui. E mergulhei na leitura, em edição para Kindle, desse quase romance, quase relato, em que Lima Barreto nos leva ao universo das instituições manicomiais da Primeira República, no começo do século XX.

2017-07-27 00.16.04

A alusão a Dostoiéviski é feita diversas vezes no longo livro. E não é casual. O mestre russo, em Recordação da casa dos mortos, faz de sua prisão na gelada Sibéria o ponto de referência para relatar a vida em um presídio da era czarista, no século XIX. É um dos livros mais impressionantes que já li. Em tom memorialístico, relata a barbárie diária e a estratégia de sobrevivência de homens submetidos a intermináveis sessões de trabalhos forçados, torturas, longas reclusões em solitárias e, sobretudo, ao rigoroso frio siberiano, que por si já é uma das formas mais brutais de castigo.

Lima Barreto se faz um Dostoiéviski dos trópicos, e com seu narrador em primeira pessoa, nos mostra como funcionam os hospícios cariocas do começo do século passado. Também como na obra prima do russo, Barreto faz um relato minucioso do dia a dia no manicômio. E, tal como o mestre, viveu na pele a experiência da reclusão, motivada pelo abuso do álcool e suas consequências psíquicas.

Se nas prisões siberianas o frio e os castigos corporais davam o tom à amarga experiência de Dostoiéviski, no calor permanente do Rio de Janeiro o que impressiona o narrador é a falta de qualquer perspectiva humanitária no tratamento dos alienados. E, mais do que isso, os motivos pelos quais muitos deles foram parar no Pinel da Praia de Botafogo. Um simples desajuste no convívio social e comportamentos que fujam dos padrões de uma capital que se projeta como moderna e europeia e lá está a pessoa arrastada pela polícia ou entregue pela família para a reclusão sem chance de retorno.

Nosso narrador nos conta as duas experiências em que foi levado por familiares para o hospício. E vai relatando minúcias de seu relacionamento com médicos, enfermeiros e com outros pacientes. São longas descrições dos métodos de tratamento que nada tratam, da rotina do manicômio, a diversidade de paranóias que convivem em pavilhões lotados, com camas de campanha, comida de péssima qualidade. Seres humanos jogados no arquivo morto de uma sociedade que os rejeita.

A grande sacada de Lima Barreto é usar de todo seu poder de observação dessa que é uma sociedade ainda em formação, para mostrar ao leitor que talvez a verdadeira loucura, aquela que precisaria mesmo de tratamento, está lá fora, além dos muros que separam o hospício das lindas paisagens cariocas.

Certamente este narrador tem distúrbios emocionais causados por uma carreira errática, projetos literários abandonados e um casamento frustrado, agravados pelo consumo desenfreado de cachaça.

Mas é quando ele nos fala da vida lá fora, dos meandros sociais que levam alguns à fortuna e aos bons postos na jovem República e no modo como as relações de poder se dão, que entendemos onde está a verdadeira doença social.

O que impressiona na obra de Lima Barreto é o quanto ela é atual. Se o estilo de escrita não fosse tão rebuscado, bastaria substituir datas, personagens e lugares do Rio de Janeiro de então por referências de nossos tempos e dar o texto a um leitor incauto. E ele nos perguntaria de quem são essas crônicas da vida brasileira do princípio do século XXI.

Outro ponto importante a destacar em  O cemitério dos vivos é que a perspectiva desse alter ego de Lima Barreto é a de quem está na periferia, olhando para o centro. É o olhar de um jovem negro, morador do subúrbio, que com algum esforço conseguiu ser letrado. Mas que é lembrado a todo o tempo de sua posição subalterna em uma sociedade que buscava o branqueamento da população pela chegada em massa de imigrantes europeus. Barreto aponta sempre as nacionalidades dos médicos e enfermeiros portugueses, italianos, espanhois. Os negros? Bem, o negros, em sua maioria, são os internos. E alguns serventes dedicados aos trabalhos mais pesados do manicômio.

A edição para Kindle que li é bem ruim. Tem trechos truncados, mudanças de corpo e fonte das letras, erros grosseiros de digitação. A Companhia das Letras lançou uma nova edição que você encontra aqui.

Não deixe que Lima Barreto seja apenas uma onda que veio com a Flip. Leia, releia e divulgue este que está entre os grandes escritores de nossa literatura. E que, certamente, está também no topo da lista dos maiores e melhores tradutores desta grande bagunça chamada Brasil.

 

P.S.: a obra que ilustra o post é a escultura O impossível, da mineira Maria Martins, exposta na coleção permanente do Malba – Museo de Arte Latinoamericana, de Buenos Aires.

 

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