Um país de policarpos

policarpoHá cerca de dois anos, uma escritora, cujo nome não merece menção neste espaço, lançou versão “simplificada” de O alienista, obra de Machado de Assis, como parte de um projeto que teria outros livros seminais da literatura brasileira “traduzidos”. A autora alegava que os jovens não têm interesse e nem capacidade de compreender os clássicos por causa da linguagem rebuscada e das construções gramaticais em desuso. Não vou entrar mais na polêmica, por entender que esse tipo de ideia sequer merece mais atenção do que estas poucas linhas. Na verdade, essa história me veio à mente durante a leitura de Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, que encarei como o começo da preparação para a Flip de 2017, que terá o autor carioca como homenageado.

De Lima Barreto, eu tinha lido Os bruzundangas, uma saborosa sátira política. E só. E vejo que perdi muita coisa. Sorte que a Flip vem aí.

Ao terminar Policarpo, entendi ainda mais o quão absurda é a ideia de reescrever livros dos autores do passado. Além de escritos em bom português (sim, talvez a tal tradutora não tenha descoberto isso), os melhores clássicos do século XIX e dos primórdios do século XX são obras imprescindíveis para entender o Brasil. Escravidão, relações de poder, corrupção, compadrio, arranjos da elite para manutenção do poder, a criação de mitos e herois nacionais em um país que mal conseguia se libertar de seu passado colonial, escravocrata e racista. Está tudo em Machado, Alencar, Euclides da Cunha. É só ler. Em português. E correr para o dicionário quando palavras como pince-nez e sobrecasaca ou expressões como “fazer a corte” apareçam incautas (ops) no meio do texto. Senão, corremos o risco de alguém escrever que Bentinho estava “colando” na casa de Capitu para “azarar a mina”.

Se em Os bruzundangas a sátira política e a crítica mordaz de costumes são desbragadas, O Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1911, traz uma a história de um amanuense lotado em um gabinete qualquer da máquina estatal nos primeiros anos da recém criada república brasileira. No poder, o Marechal Floriano Peixoto, vice do primeiro-presidente brasileiro, o outro marechal, o Deodoro, que toma o poder após o enfraquecimento político deste. Notem que ao falar de um vice que usurpa o poder, estou apenas me referindo ao que se deu na época em que se passa a história de Lima Barreto. Se você pensou em outra coisa, é por sua conta.

Pois este dedicado funcionário público é o Major Policarpo Quaresma, cidadão exemplar, nacionalista, cultor das tradições pátrias. Ele tem um problema, no entanto. A jovem pátria não tem tradição alguma. Não tem herois. Não tem símbolos nacionais autênticos. Vive entre mimetizar as potências europeias e bajular o crescente poderio do gigante da América do Norte. O que faz Quaresma? Exalta o violão, esse instrumento considerado impudico. Se aproxima de um famoso compositor de cançonetas como os lundus, consideradas menores diante da música erudita. E, especialmente, cultua as línguas indígenas.

Tomado de coragem cívica e espírito patriótico, Quaresma envia ao Congresso a proposta de adoção do Tupi-Guarani como língua oficial do Brasil. E todo um sistema de símbolos baseados na fauna e na flora do território brasileiro. É dado como louco. Internado. E a partir daí sua vida tem uma reviravolta.

Aposentado compulsoriamente, Quaresma se retira para uma propriedade rural. Lá, tem a certeza de que vai mostrar a todos a pujança do solo brasileiro. Toma como funcionário um ex-escravo, fato que contraria os fazendeiros vizinhos, já baseados alegremente na substituição de mão-de-obra dos escravos libertos pelos imigrantes europeus. Enfrenta também as saúvas, quando lhe vem à mente a frase de Saint-Hilaire, que afirmava sobre o solo brasileiro: “se nós não expulsássemos as formigas, elas nos expulsariam”.

Fracassado como fazendeiro, Quaresma se alista como voluntário nas forças pró governo. Vai defender o marechal diante da insurgência que se espalha pelo país. Como “major”, comanda um destacamento à beira da baía de Guanabara. E vive de perto os pequenos horrores de uma batalha nem tão sangrenta assim, posto que boa parte do conflito é uma coreografia de tiros de canhão e fuzil dados a esmo, sem intenção de acertar inimigos. É em meio a esse conflito que conhecemos o efetivo triste fim de Policarpo Quaresma. Mas como não vou fazer spoiler, deixo pra você, leitor, a descoberta desse desfecho.

Cercado de militares que nunca lutaram em uma guerra e funcionários públicos que arranjaram postos de destaque graças a indicações de altos funcionários de um governo fraco e corrupto. Rodeado por famílias que escondem suas mazelas em quartos trancados, silêncios compactuados, o major Policarpo Quaresma é um retrato bem acabado do nacionalista brasileiro. Quer cultuar os grandes feitos heroicos, mas não os acha. Admira o marechal ditador, mas decepciona-se com ele. Quer mudanças, mas não quer que se mexam nos privilégios. Lima Barreto fez um triste retrato de um “país de policarpos”, que já era assim em 1911. E continua sendo.

Até a Flip vou entrar mais na obra de Lima Barreto, pelas edições pra Kindle, como a que li. Por que vale a pena. E não precisa de tradução.

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2 comentários sobre “Um país de policarpos

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