A muitos passos da eternidade

2017-09-29 17.12.52Jeffrey é filho de um milionário do mercado financeiro nova-iorquino. Fruto do primeiro casamento de sua mãe, Madeline, com Ross Lockhart, que viria a se tornar um dos mais poderosos operadores das finanças dos milionários americanos, Jeff foi abandonado pelo pai no começo da adolescência.

Zero K, o mais novo romance de Don Delillo, é o retrato de um mundo artificial criado pelas altas somas acumuladas por Ross, em contraste com a vida comum de seu filho, que insiste em recusar as benesses de herdeiro de um império financeiro e pula de emprego em emprego, de namorada em namorada, tentando manter uma vida comum e uma distância prudente do universo mágico criado por Ross.

Estamos em um tempo indefinido. Não tão à frente do que vivemos, mas o suficiente para que alguns avanços da ciência já permitam a um grupo de lunáticos imaginar que técnicas de criogenia permitirão à humanidade o sonho da vida eterna. Ross, o poderoso financista, é um desses lunáticos. Coloca todas suas fichas, e parte considerável de sua fortuna, no financiamento das ações da Convergência, uma organização que se dedica a criar técnicas de congelamento de corpos e cérebros, prometendo aos endinheirados financiadores a possibilidade de reconstituição da carne e ressurreição do intelecto em um futuro breve.

Ross entra nessa por amor a Artis, uma bem sucedida arqueóloga, seu segundo casamento, que entra em estado terminal por conta de um câncer. E ele acredita que o congelamento da carne e do cérebro de sua amada permitirão ao casal um encontro no futuro. Ambos preservados em sua relativa juventude, retornando à vida. Em um tempo que nem mesmo a tal organização consegue precisar.

E voltamos a Jeff. Delillo faz dele uma testemunha da piração paterna. Convocado pelo pai, fascinado pela madrastra arqueóloga, Jeff aceita acompanhar o casal em uma longa e misteriosa viagem à sede da Convergência, localizada em meio ao antigo território soviético, em um impressionante complexo subterrâneo, com longos corredores repletos de portas sem fechaduras, elevadores que se deslocam para cima, para baixo e para os lados, e profissionais que se dedicam a preparar pessoas para o congelamento que supostamente os levará à vida eterna.

O que há de instigante na história criada por Don Delillo é uma forte alternância entre o ambiente asséptico e futurista dos subterrâneos da Convergência e a vida cotidiana de Jeff em uma Nova York altamente contemporânea, com seus congestionamentos, os táxis dirigidos por imigrantes, a vida aparentemente normal de Jeffrey, um eterno desempregado que não quer ser vinculado ao pai que é capa de revistas de negócios.

Nesse universo, o romance coloca em debate os avanços da ciência no campo da criogenia. Quantas não são hoje as famílias que congelam cordões umbilicais na esperança de que estes sejam, em um futuro incerto, a chave para a longevidade de seus rebentos? Delillo muda o foco dessa paranoia, fazendo com que pessoas adultas antecipem sua morte com a promessa de que em um determinado momento serão reconduzidas, intactas, à vida.

Zero K, a expressão que dá nome ao romance, refere-se  à temperatura considerada ideal para a conservar matéria orgânica.

Tive grande empatia pelo olhar de Jeffrey. Ele testemunha a piração de seu pai e sua madrasta com um ceticismo saudável. A Convergência assemelha-se a um templo de uma dessas religiões pentecostais que prometem mundos e fundos a quem entregar o mais polpudo dízimo. Pois é de vender fortuitas esperanças a endinheirados angustiados e temerosos de sua própria extinção que essa organização vive, oferecendo um aceno de vida real após a morte, tal qual um pastor promete salvação vip para quem for generoso nos donativos. E Jeffrey, ancorado na realidade de seu dia a dia em Nova York, recusa-se a aceitar o que ele considera uma ilusão vendida a peso de ouro. Não por interesse na herança paterna, mas por descrença total.

A estrutura narrativa do romance é interessante. Não há espaço para tédio nas sucessivas alternâncias entre duas camadas que se sobrepõe. As visitas ao complexo da Convergência e a vida de Jeff em Nova York, sua relação com uma namorada, mãe adotiva de um estranho garoto ucraniano, que terá uma aparição surpreendente e aterradora em um dos corredores do complexo no deserto asiático. E as reminiscências da infância, da relação de Jeffrey com a mãe, a ausência do pai e com o nome falso adotado pelo executivo quando começa a trilhar o caminho da riqueza absoluta.

Muitos têm classificado Zero K como uma distopia. Em um mundo no qual a criogenia já é uma paranoia dos milionários, em que as cirurgias plásticas prometem a juventude, em que os desastres naturais e as tragédias ambientais provocadas pela ação humana, em que a guerra volta a ganhar contornos quase medievais nas estratégias de organizações terroristas, temas que estão presentes na história de Delillo, minha tentação é de classificar o romance como puramente realista.

E se à primeira vista o desejo de vida eterna parece uma utopia do milionário Ross, vamos descobrindo aos poucos que não passa de um projeto individualista e arrogante. Uma recusa a morrer e a renunciar ao poder que seus bilhões de dólares supostamente  proporcionam.

Leia e venha aqui dizer sua opinião.

 

P.S.: a imagem destaca é da exposição de Olfur Eliasson, realizada em 2014 no Sesc Pompeia.

 

 

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