Sinédoque, Rio de Janeiro

Não faz sentido algum falar em limite entre realidade e ficção na obra de Ricardo Lísias. Os experimentos que começaram sob o rótulo de autoficção em Divórcio e Céu dos suicidas foram radicalizados em Delegado Tobias, que lhe rendeu um investigação do Ministério Público Federal por falsificação de documento. Em um ato que poderia ser interpretado como vingança de artista, o projeto seguinte foi publicado na forma de processo, numa pastinha azul-burocracia com uma série de “documentos” encartados. Em Inquérito policial: família Tobias, Ricardo Lísias presta queixa contra seus editores por lhe terem denunciado ao MPF apenas para provocá-lo a sair de uma crise de criatividade.

A vista particularAssim sendo, não é de espantar que A vista particular, seu último romance, siga nessa exploração do torvelinho verdade/ficção, mas agora numa outra chave. Publicada pela Alfaguara, a trama criada por Lísias tem como personagem principal o artista carioca José de Arariboia, que ganha notoriedade ao descer do morro Pavão-Pavãozinho totalmente nu, fazendo um gingado, digamos, cativante. As pessoas começam a segui-lo enquanto atravessa Copacabana até a praia, filmado por dezenas de celulares. Transformado em celebridade imediata nas redes sociais, José de Arariboia se junta ao traficante e videasta amador Biribó para continuar suas incursões artísticas no morro.

Sua próxima obra será a favela em si, primeiro como um empreendimento site specific, depois transportado inteiro para outros espaços, com todas as suas mazelas – o tráfico, a precariedade, a violência policial, as mortes por bala perdida (impossível não lembrar de Sinédoque, Nova York, filme de Charlie Kaufman). A obra de José de Arariboia faz tanto sucesso que será integrada à programação oficial das Olimpíadas no Rio de Janeiro.

A vista particular é um texto extremamente leve e ligeiro para a densidade de questões colocadas, a começar pelo Rio de Janeiro como cidade-espetáculo, que contrapõe o brilho da Zona Sul à guerra civil cotidiana dos morros. No livro, a violência é empacotada como arte e torna-se não apenas aceitável como vendável e mediatizável. Parece exagero – mas já não é assim, no final das contas? Estivemos no Rio na semana passada, em meio à crise na Rocinha; de Copacabana, onde ficamos, a sensação era de uma tranquilidade sueca. Como é possível?

A vista particular parece também ter antecipado como espelho o debate sobre arte contemporânea que tomou de assalto a família tradicional brasileira nas últimas semanas, com o encerramento precoce da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, e o surto coletivo contra a performance La bête, do coreógrafo Wagner Schwartz, no MAM de São Paulo. Tanto no texto quanto na realidade, a sociedade patina ao lidar com a arte, mas com consequências diametralmente opostas.

Se a favela é uma performance, o que acontece dentro dela estaria sujeito às leis? A venda de drogas ou, digamos, uma morte arbitrária causada pela polícia? Ou faz tudo parte do espetáculo e deve, portanto, correr sem interferência? A vista particular faz uma interpretação exacerbada do que a realidade já deu conta de criar – não há exemplo mais bizarro do que os safáris pelas favelas, vendidos em passeios turísticos para gringos.

Os ataques recentes à arte contemporânea são a imagem refletida dessa bizarria. Enquanto se aceita a violência real, essa que machuca e mata todos os dias, a denúncia da violência é submetida ao escrutínio da polícia e da justiça (caso da Queermuseu). Enquanto a sociedade de A vista particular aceita a violência na favela-sinédoque sob o rótulo de arte, uma manifestação artística puramente estética é submetida à execração pública de quem resolveu discutir o que é ou não legítimo nesse campo, sem nunca ter entrado num museu.

Tempos difíceis, os nossos.

PS: A foto em destaque é da famosa instalação de uma favela em miniatura no hall do Museu de Arte do Rio (MAR), que foi proibido esta semana, pela Prefeitura, de montar na cidade a exposição Queermuseu.

PPS: recomendo a leitura desta entrevista de Ricardo Lísias ao Estadão. A propósito, A vista particular é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura deste ano.

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