O livro da vida comum

Ao terminar a leitura de Olive Kitteridge fiquei com a sensação de que a vida em uma pequena cidade deve ser muito parecida com o que as pessoas relatam sobre os grupos de família no WhatsApp. Toda manhã, uma sucessão de bons dias, raios de sol, paisagens bonitas. E, depois, o horror, na forma de fofocas sobre as desgraças alheias, comentários sobre política, livre circulação de fake news e por aí vai. Digo que pode parecer por ter a sorte de não participar de nenhum grupo enervante de WhastApp, acreditem.

Mas o romance de Elizabeth Strout, datado de 2008 e só lançado agora no Brasil pela Companhia das Letras, se passa nos primeiros anos deste novo século quando ainda não havia zap zap para atormentar a vida das pessoas. Os tormentos, ali, são de outra natureza.

Olive fotoSão treze histórias magistralmente bem narradas. Treze crônicas dos acontecimentos da pequena cidade de Crosby, no litoral do Maine, estado norte-americano da costa Leste, muito perto do Canadá.

Em todas as narrativas há uma presença, um fio condutor. Trata-se de Olive Kitteridge, rígida e temida professora de matemática do ensino fundamental, casada com Henry, farmacêutico da cidade vizinha, e mãe de Christopher.

Em cada história, um drama se desenrola. A grande sacada de Strout é fazer um vai e vem temporal. Ora o casal Kitteridge já está aposentado, seu filho crescido e a vida segue no ritmo lento da vida em uma comunidade na qual todos se conhecem, se encontram no café da marina ou no Dunkin Donut’s da estrada. Ora a professora está na ativa, seu marido comanda a farmácia ainda no auge da maturidade.

O que não muda, de um capítulo para outro é a presença de elementos perturbadores que acendem na pequena cidade o turbilhão de maledicências, encoberto pela firme proposição de manter as aparências. Seja a jovem anoréxica à beira da morte, o acidente estúpido que vitima um professor da escola, o momento em que Olive escuta involuntariamente sua nora, em plena festa de casamento, fazer comentários nada agradáveis sobre a recém adquirida sogra e outras histórias, algumas um tanto pesadas, outras mais ligadas ao vai e vem humano dos relacionamentos, paixões perdidas e amores impossíveis.

As crônicas dessa cidade lenta vão compondo um quadro do medíocre cotidiano de pessoas, famílias inteiras que simplesmente tocam sua vida à espera da aposentadoria. Sempre receosos de que sua comunidade seja maculada pelos “desvios” de seus habitantes. E, quando enfim aposentados, colocam-se à espera da morte, comendo donuts, engordando e prestando atenção na vida alheia.

Em meio a tudo, Olive Kitteridge é uma síntese dessa vida. Alta, grande, desajeitada, Olive é um mulher pragmática. Limita o relacionamento social às necessidades que ela e o marido têm como pessoas públicas na comunidade. De resto, é grosseira, mal educada e carrega uma brutalidade que a mantém distante das pessoas “simpáticas”, a quem ela odeia mais que tudo.

Mãe sufocante, mantém o filho, supostamente esquizofrênico, à base de comprimidos. E vê sua vida desmoronar quando, já casado, ele parte com a mulher para a Califórnia.

Essa é a superfície de Oliver Kitterigde. Mas à medida que as histórias avançam, Strout faz de sua personagem também um ponto de reflexão sobre alguns temas centrais de nossos tempos. O uso indiscriminado de drogas sociais, comprimidos da felicidade que parecem manter as novas gerações de Crosby permanentemente dopadas. Uma cidade marcada pelo envelhecimento de sua população, a fuga dos mais novos e todas as questões que surgem quando a geração de Olive passa a sofrer os efeitos colaterais do envelhecimento. A professora percebe essas questões mas na maioria das vezes guarda para si reflexões que poderia fazer com as poucas amizades que cultiva e até mesmo com o próprio marido. E, pior, enxerga perfeitamente os defeitos das outras famílias, mas não consegue olhar para o próprio umbigo.

Olive Kitteridge também é um livro sobre relacionamentos. Ela e Henry têm aquilo que na aparência poderia ser chamado de casamento perfeito. Juntos por décadas, criam seu filho, mantém sua farmácia e o ótimo emprego na escola pública, constroem uma bela casa à beira mar, frequentam as festas, os concertos na cidade vizinha, viajam para as ilhas gregas ou para a Florida. Henry é um sujeito pacato e extremamente fiel. Olive também não se vê traindo o marido. Mas não se amam. Especialmente ela, tem a certeza de que jamais ao amou. E ambos sufocam de modo dramático desejos, atrações e possibilidades que poderiam dar à vida de cada um experiências carregadas de emoção, tesão, paixão e, quem sabe, amor. Nas histórias cruzadas do livro, Olive sempre tem o olhar atento para a solidão de mulheres e homens juntos há anos e separados pela falta de olhares cúmplices, conversas francas e sintonia de desejos, vivendo do objetivo de acumular filhos, netos, gordura, dinheiro e aparência de felicidade, que, no fundo, são os mesmos objetivos dela com Henry.

Ao pegar o livro para a leitura sequer sabia que Olive Kitteridge havia sido adaptado para seriado de TV pela HBO. E nem imaginava que Olive foi vivida pela incrível Frances McDormand, que tem exatamente o physique du rôle para o papel. Aliás, se não fosse Crosby, Maine, poderia ser Fargo, Dakota do Norte. São crônicas da mediocridade dos rincões profundos da classe média conservadora norte-americana.

Mesmo democrata, mesmo odiando com todas as forças George W. Bush e seus eleitores, Olive se define como uma camponesa embrutecida. É emblemática a viagem que faz para passar uns dias com o filho e a nova nora, que acabavam de se mudar para Nova York. Com seu corpanzil e seus hábitos arraigados, já septuagenária, com o marido incapaz, internado em uma clínica, Olive Kitteridge chega à metrópole simbolizando a imensa barreira que separa o mundo de sua pequena Crosby daquilo que vê na cidade grande. Ela diz a si mesma, o tempo todo, que precisa aceitar os “novos costumes”. Mas não consegue disfarçar o incômodo e o deslocamento que sente diante das “modernidades”. O romance parece ser também um prenúncio do que aconteceria anos depois com essa América profunda e conservadora, que acabou elegendo um maluco para comandar o país.

Gostei muito da prosa de Elizabeth Strout, mesmo com meu incômodo com a literatura norte-americana, que sempre me dá a sensação de ser produto de laboratórios de redação criativa das universidades. Strout, aliás, costuma dar aulas nesses laboratórios. Também me remeteu a dois romances de Phillip Roth, Homem comum e Humilhação, igualmente publicados pela Cia. das Letras. Em ambos, o envelhecimento e a deterioração do corpo e a iminência da morte aparecem como temas centrais, embora em contextos urbanos. Olive, sempre que alguém em Crosby se espanta diante da partida de uma pessoa, diz que “todos iremos morrer, não vejo o porque de tanto espanto”. Essa é Olive Kitteridge.

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