Rupi Kaur além da internet

A poeta indiana Rupi Kaur, radicada no Canadá, é um fenômeno típico dos tempos de internet: começou a publicar seus poemas no Instagram e no Tumblr e depois editou seu primeiro livro pela plataforma de autopublicação da Amazon. Diante do sucesso digital, Outras formas de usar a boca acabou impresso por uma editora e vendeu mais de meio milhão de cópias ao redor do mundo – um feito e tanto para um livro de poesia contemporânea. O que nos leva ao segundo livro de Rupi, O que o sol faz com as flores, lançado este ano no Brasil pela Planeta.

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Conhecia pouquíssimo o trabalho da indiana e não pretendia comprar nenhum livro dela, mas vejam como são as coisas: estava voltando de uma viagem de trabalho de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, e tinha a perspectiva de hora e meia de ócio proporcionado pela viagem num bimotor, mas nenhum livro à mão. Eis que o pequeno café do aeroporto vendia alguns poucos títulos, dentre eles o novo de Rupi. Compra feita e a leitura, iniciada antes mesmo da decolagem, me trouxe algumas gratas surpresas – e confirmou algumas decepções também.

Como eu desconfiava, muito do que a Rupi Kaur escreve tem a pegada típica do ambiente de internet: frases curtas, no tamanho ideal para serem compartilhadas em um card de Instagram, em geral aforismos sobre o amor algo rasos, óbvios e às vezes definitivos demais para um tema que é, por excelência, cambiante. Nesses poemas, ela mergulha em um romantismo pueril, quase brega, com um eu-lírico que é ridiculamente dependente do outro. Às vezes, beira a auto-ajuda, como em “você pode imitar a minha luz/ mas não pode tirá-la de mim” (fala sério…).

Por outro lado, Rupi tem outros pontos fortes escondidos em meio à profusão de frases internetianas – fortes mesmo, a ponto de fazerem o livro valer muito a pena. Pra começar, ela organiza os poemas em cinco partes, alusivas ao ciclo de vida de uma flor. Mas ao contrário do que o senso comum esperaria, Rupi começa pelo fim: a Murchar, o primeiro capítulo, se seguem Cair, Enraizar, Crescer e Florescer. É uma quebra de expectativa interessante e, ainda que aponte para uma escolha de narrativa otimista demais (de novo, um certo pendor à auto-ajuda), funciona para aquilo que ela se propôs fazer.

O real tesouro do livro está entranhado em suas páginas e é preciso paciência para localizá-lo. É quando Rupi fala sobre depressão, autoaceitação, feminismo e, especialmente, da memória herdada como imigrante. A poeta saiu da Índia para o Canadá com apenas quatro anos e, embora quase nada lembre dos poucos anos como moradora de sua terra natal, ela carrega a culpa pelo sofrimento vivido por seus pais.

O trauma herdado é sentimento recorrente em filhos de imigrantes e aparece em algumas excelentes obras literárias – assim de bate pronto, lembro por exemplo dos livros O que os cegos estão sonhando, de Noemi Jaffe, sobre as memórias de sua mãe judia como sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz; e A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf, que aborda a perseguição a seus ancestrais católicos mortos no Líbano (resenhado aqui).

No caso de Rupi, ela menciona os turnos infindáveis de trabalho de seu pai, o fato de que a mãe mal pôde aprender inglês mesmo após tantos anos fora da Índia (e o preconceito que ela sofre por causa disso), além das agruras de ter sido mulher num país altamente machista. Um dos pontos altos do livro é o poema Conselhos que eu daria à minha mãe no dia do seu casamento, que me levou às lágrimas na fila de um restaurante árabe, em meio a bandejas de esfiha e kibe passando pra lá e pra cá:

5. leve seus diários e pinturas
para o outro lado do mar quando partir
é assim que você vai se lembrar de quem é
quando estiver perdida nas novas cidades
e é assim que seus filhos vão saber que
você já viveu uma vida inteira antes deles
(…)
7. seu marido e filhos vão tirar da sua boca
vamos te consumir emocional e mentalmente
e isso é um desastre
não nos deixe convencê-la de que
seu autossacrifício é
sua forma de dar amor
(…)
11. não existia manual de instruções
ensinando a ser a primeira mulher de sua linhagem
a criar uma família sozinha numa terra estranha

É nesses poemas que o trabalho de Rupi Kaur se torna mais político e, em consequência, também mais interessante. O feminismo que aparece timidamente nos poemas sobre relacionamentos desabrocha com força quando o pano de fundo é a imigração ou as condições das mulheres na Índia. Aqui, ela também lança mão da ancestralidade como matéria prima, incitando à união entre mulheres ao mesmo tempo em que denuncia a misoginia de antigas práticas culturais em seu País de origem: “sou a primeira mulher de minha linhagem a ter liberdade de escolha“, lembra Rupi. Inclusive a escolha de ser poeta e falar sobre esses temas.

Outro ponto fortíssimo do livro são as ilustrações, feitas pela própria autora. Por vezes, seus desenhos de traços finos e imperfeitos complementam os poemas e até mudam seu significado, enriquecendo a experiência da leitura e levando-a a uma maior profundidade. Esta é uma faceta primorosa do seu trabalho, e bem aproveitada na edição.

No frigir dos ovos, vale a pena a leitura de O que o sol faz com as flores. Como já vi Micheliny Verunschk comentar, ainda não é o melhor da poesia de Rupi Kaur. Mas não deixa de ser um alento que poesia contemporânea escrita por uma mulher conquiste tanta gente ao redor do mundo. Uma porta que se abre é sempre uma porta para o infinito.

PS: essa foto eu tirei anos atrás no quilombo Serrote do Gado Brabo, em São Bento do Una, interior de Pernambuco, quando estava aprendendo a fotografar. É uma das minhas preferidas até hoje e tem uma relação incrível com o livro da Rupi.

Gostou? Comprando na Amazon pelo link a seguir, você ajuda a manter o Lombada Quadrada: O que o sol faz com as flores.

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