11 passos do nascimento de um escritor

Imagine que você teve um computador nos anos 1980. Por longos anos, organizou na pasta “meus documentos” seus escritos, anotações, textos acadêmicos, diários. O tempo foi passando e muitos desses arquivos ficaram para trás. Até que um dia, já na era da internet, você consegue converter aqueles arquivos. E volta a um passado não muito distante. Relembra como foram seus anos de formação, lê textos ficcionais esquecidos, recupera histórias da infância.

20180315_153751[1]A sensação que a leitura do livro de contos Meus documentos, do chileno Alejandro Zambra é de que ele encontrou os seus arquivos dos anos 1980. E deles tirou 11 histórias, e resolveu editar, reescrever e publicá-las, divididas em três capítulos. Um apanhado de memórias, um bocado de autoficção e também alguma dose ficcional, que têm como fio condutor os ritos de passagem da infância para a adolescência e a entrada na vida adulta.

O conto inicial, que leva o nome do livro, narra o primeiro contato de um menino com o PC, a grande novidade do começo dos anos 1980 nos escritórios e casas de famílias mais abastadas. Tudo combina cronologicamente com a vida de Zambra, nascido em 1975. A maravilha tecnológica e o processador de textos, em confronto com a tradição da máquina de escrever mecânica e a modernidade até então representada pelas máquinas eletrônicas, que já tinham um sistema de escrita em tela digital, que tinha um mostrador de uma linha. Você escrevia e, quando ia abrir uma nova linha, a máquina imprimia automaticamente a anterior. Esse confronto é caseiro e resumido genialmente nesta frase:

“Talvez eu possa colocar desta maneira: meu pai era um computador e minha mãe, uma máquina de escrever.”

É ali que nasce a trajetória que atravessa os vários contos de Meus documentos. A formação do escritor. Entre descobertas da infância, a entrada na adolescência, carregada de ambiguidade sexual e experiências com meninos e meninas, shows de rock, aventuras e letargia, o gosto pela leitura vai fazendo despontar o futuro literato, que desagua em um universitário meio perdidão, em busca de um rumo.

O primeiro bloco alterna lembranças de infância com contos de personagens adultos. Alguns com boas doses de humor, como em Lembranças de um computador pessoal, em que a vida de um jovem solitário se transforma com a chegada de seu primeiro computador, comprado em prestações a perder de vista, que mais parecem as do financiamento da casa própria. Dali para um namoro, um “morar junto” e um compartilhamento desastroso do computador com a namorada, a narrativa segue em uma pegada tragicômica, na qual o leitor vai dando boas risadas. E, se tiver vivido aqueles anos, vai lembrar o quanto chats e ICQs da vida provocaram confusão na vida de muita gente.

As histórias de Zambra também refletem o momento político do Chile daqueles anos, ainda sob a pesada mão da ditadura, que só veria o começo de seu fim no último ano da década.

No excelente conto Instituto nacional, o adolescente, consegue vaga na principal escola secundária do país. Um instituto modelo, um privilégio que raríssimas famílias conseguem ter de colocar um filho ou uma filha naquele ambiente. E o que se vê é a mão pesada da ditadura agindo na formação dos futuros adultos. Em meio a professores que buscam furar o cerco da censura e do controle de conteúdos, existem os espias,  representantes do regime, e os mantenedores da ordem vigente. Mestres conservadores e moralistas, em um país igualmente conservador e moralista, que só viria a aprovar o divórcio décadas depois do fim da ditadura. É nesse meio que a leitura dos clássicos, os debates proibidos, os cineclubes secretos fazem parte da rede de resistência. É também o momento em que Pinochet e seus asseclas começam a ruir e a abertura política se aproxima. São tempos em que o disco de uma banda de rock em uma loja clandestina pode ser o motivo de uma prisão. Este conto está no segundo capítulo e é um divisor de águas da passagem para a reabertura do país ao voto e à democracia, ainda com sombra dos militares e torturadores pairando sobre o cotidiano.

Na terceira parte temos as histórias da vida universitária. Ainda é sob a égide do PC 386 e seus arquivos que o futuro escritor começa a publicar seus contos, entra na universidade, tem seus primeiros grandes amores e suas frustrações amorosas. E começa a ser confrontado com as histórias de exilados, famílias que perderam pessoas na ditadura, famílias que vivem com a chaga de ter torturadores ou colaboradores do regime.

É quando chega ao fim o arsenal de arquivos da pasta “meus documentos”. Nesse percurso, as influências literárias, que passam de Cervantes a Borges, Pavese e outros nomes que vão sendo citados e são uma boa referência para leitores em busca de autores.

Também há muitas referências a futebol e, especialmente, uma história que envolve Roberto Rojas, aquele do foguete no Maracanã, e uma peculiar manifestação feita em frente à embaixada do Brasil quando todo o Chile jurava a inocência do goleiro fanfarrão e artista.

A prosa de Zambra é sempre fluida e bem construída, o que o coloca entre meus escritores contemporâneos prediletos, já resenhado aqui, em outra obra que tem como pano de fundo a ditadura e seus subterrâneos. O Chile está anos-luz à frente de nós na revisão crítica desse período de sombras para combater qualquer chance de que as trevas pairem novamente sobre o país, mas livros recentes, como o excelente início de trilogia de Milton Hatoum, têm se debruçado sobre a ditadura brasileira. Porque não podemos esquecer jamais, para que a história não se repita.

A edição brasileira é da CosacNaify, o que significa que é preciso garimpar as promoções do estoque da finada editora até que surja uma nova casa editorial disposta a publicar Zambra entre nós.

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