Pra que rimar amor e dor?

O verso de Monsueto que intitula esse post é das coisas mais lindas já criadas pela canção popular brasileira. Ela é tão prenhe de possibilidades que chega dói. São palavras que me vieram constantemente à cabeça enquanto lia A paixão de Mademoiselle S., que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras. É um livro anônimo, resultado da compilação de cartas escritas em 1929 por uma mulher parisiense para seu amante mais jovem. O conjunto foi recentemente descoberto, por acaso, pelo diplomata francês Jean-Yves Berthault, enquanto ajudava uma amiga a limpar o sótão de um apartamento – pelo menos, essa é a história que ele conta.

A ligação de Simone (S.) com Charles era essencialmente sexual e isso se expressa numa correspondência abertamente erótica, às vezes no limiar do pornográfico. Simone não se abstém de usar palavras tidas como chulas e de descrever graficamente as práticas que realizou ou que deseja realizar com seu parceiro. Porém, como toda relação entre duas pessoas, a que se expressa nessa correspondência também é extremamente complexa para ser resumida à sua superfície. Por trás do aparente fogo nas entranhas que move essa mulher, está um pano de fundo feito de carência, machismo, relações de poder e uma sociedade que começava a aceitar – com muitas ressalvas – um pouco mais de liberdade sexual.

Ao longo da leitura, descobrimos que Simone trabalha num escritório; que Charles é casado e tem algum posto militar (ao menos, ele usa uniforme e viaja constantemente). Se conheceram na linha de ônibus que ambos costumavam apanhar e que um flerte despretensioso logo escalou para um caso arrebatador. Costumavam se encontrar na hora do almoço ou aos sábados, nunca por mais de uma hora – o que era extremamente frustrante para Simone.

Chama a atenção a frequência com que eles trocavam cartas – às vezes, mais de uma vez no mesmo dia e, não raro, logo após terem acabado de se ver ou horas antes desses encontros. Na época, utilizavam também os pneumáticos – um sistema de envio de mensagens dentro de cápsulas que circulavam por um sistema de tubulações, impulsionadas por ar-comprimido. A dinâmica não era muito diferente de um casal que escolhesse se comunicar por email para trocar longas confidências neste ano de 2018. Até porque, tanto Charles como Simone já tinham acesso a telefone e se falavam para marcar os encontros. Se ainda assim escolhiam se comunicar em tinta sobre papel, também estavam movidos por determinadas possibilidades que apenas a escrita proporciona.

Em primeiro lugar, o estado de introspecção no momento da elaboração do um texto longo. Pois escrever é um diálogo consigo mesmo e, ainda que haja um destinatário final, o primeiro leitor de uma carta é seu próprio remetente. O tempo da escrita também proporciona um maior cuidado com a escolha das palavras e das imagens que se quer evocar – posso até mesmo imaginar Simone rasgando vários rascunhos até chegar nas mensagens finais. Não se pode deixar de citar também a introspecção no momento da leitura e o atiçamento de todos os sentidos que só a escrita proporciona: já que as palavras em si não têm cheiro, nem cor, nem movimento, nem volume, nem textura, o leitor preenche tudo isso com a imaginação – o que é extremamente instigante no caso de uma troca de mensagens eróticas.

Simone e Charles transavam pelas cartas, assim como hoje se faz pelo telefone ou por troca de nudes no WhattsApp. Hora ela descreve os encontros que eles já tiveram; hora parece descrever os encontros que imagina. Os tempos verbais se misturam e confundem deliberadamente o que é memória e o que é vontade – ou o que é memória inventada. Ainda assim, é possível traçar claramente a evolução deste caso: Simone rapidamente cede a uma fantasia de Charles e aceita apanhar dele, inclusive de chicote. Aos poucos, a cama vira um laboratório para a subversão dos estereótipos de gênero, até que Charles se deixa penetrar por Simone e aí – é quando o livro fica realmente interessante – eles invertem totalmente os papeis. Nas cartas Charles vira Lotte, o diminutivo de Charlotte, e Simone entra com os dois pés nessa fantasia: “amo sua carne de mulher, tão suave de acariciar, tão morna em contato com minha face”. 

Pensei nos versos de Monsueto por causa da fantasia da violência física sim, mas não só por isso. Há nas cartas de Simone carência de atenção e ansiedade indisfarçáveis diante da sempre iminente possibilidade de que Charles – lembremos, mais novo e casado – simplesmente interrompa o caso. A escalada da fantasia de inversão de gêneros em que ela se joga tem tudo a ver com uma tentativa de amarrar Charles a si, chegando a limites extremos para dar a ele o que nenhuma outra mulher se atreveria a dar. Portanto, a dor de Simone é a dor da incerteza de um amor sempre atravessado, sempre no meio do caminho e para o qual nenhum sacrifício será jamais suficiente – e ainda assim, ela não se vê em outra situação. No fundo, essa é uma história partilhada por muitas mulheres.

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Por fim, um comentário sobre o achado das cartas: Berthault alega as ter encontrado enquanto ajudava uma amiga a limpar o sótão de um apartamento em Paris. Elas estariam guardadas em uma pasta velha de couro, sob jarros vazios de vidro. A edição brasileira não incluiu o print de sequer um bilhete, como seria natural esperar de textos com essa origem inusitada. Tentei achar algo pelo Google e não encontrei nada confiável.

Estranho também que Berthault alegue ser impossível localizar informações mais precisas sobre o casal. 1929 é longe, mas não tão longe assim; o apartamento onde as cartas estavam é um ponto de partida extremamente sólido para uma investigação histórica, pelo simples fato de que as informações sobre propriedade de imóveis estão forçosamente documentadas; quiça também as de aluguel. Se as cartas são realmente verdadeiras, esperaria no mínimo o registro de alguma tentativa sincera, mesmo que falha, de encontrar informações sobre Simone.

Por outro lado, as cartas são extremamente repetitivas; a leitura vale mais como documento do que por seu valor literário. Mas é justamente esse caráter reiterativo que salva a verossimilhança da história contada por Berthault.

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Um comentário sobre “Pra que rimar amor e dor?

  1. Quando o João Ubaldo escreveu “A Casa dos Budas Ditosos”, em que a história teria vindo de fitas gravadas que foram deixadas, também se criou essa atmosfera em torno sobre a veracidade ou não da história. Acho que ele morreu sem deixar isso claro.

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