Como o campeonato de 1987 explica o Brasil

A família do meu pai torcia pro Náutico sem muita convicção, mas a da minha mãe era Santa Cruz roxa: um tio-avô chegou a ser presidente do clube e, quando morreu, foi enterrado com a bandeira tricolor sobre o caixão. Mas eu decidi torcer pelo Sport e é fácil explicar porque: em 1987, eu tinha oito anos de idade quando o Leão sagrou-se campeão brasileiro em cima do Guarani, feito inédito para um clube pernambucano.

Que Flamengo e Internacional tenham se recusado a jogar o quadrangular final era um detalhe que só colocava mais molho na conquista daquele campeonato. Não acompanhava muito de perto as intermináveis discussões sobre o regulamento, mas sabia que elas existiam e que o título do Sport nascera ameaçado. Portanto, não era só o troféu nacional que arregimentava crianças como eu para as fileiras rubro-negras – era justamente a perspectiva de se envolver numa briga maior, que mexia com os brios pernambucanos.

1987, diga-se, foi o campeonato mais bizarro da história do futebol brasileiro, um frankenstein feito de desorganização, conchavos, puxadas de tapete, costuras políticas, briga por pequenos poderes, dinheiro, ameaças e uma boa dose de preconceito regional. O caldo de tudo isso foi uma briga que extrapolou os campos e foi parar na Justiça comum, com o Flamengo até hoje tentando uma maneira de também ser considerado campeão daquele ano. No último dia 16 de março, quando a última decisão do Supremo Tribunal Federal favorável ao Sport transitou em julgado (ou seja, não cabe mais apelação), o Flamengo anunciou que levaria o pleito à Fifa. Com isso, lá se vão 31 anos de resenha.

Ao longo dessas três décadas, foi a voz do Flamengo que sempre prevaleceu na imprensa nacional. Vários veículos simplesmente colocavam 1987 na conta do time carioca, à revelia do regulamento e de todas as decisões posteriores declarando o Sport como único campeão. Tirando os pernambucanos e alguns poucos torcedores de times rivais, a visão sedimentada no imaginário nacional é a de que o Flamengo foi alvo de uma injustiça.

Mas toda história tem dois lados, como assinala André Gallindo no prefácio do livro 1987: de fato, de direito e de cabeça, lançado no fim do ano passado em coautoria com Cássio Zirpoli. Num extenso trabalho de reportagem, a dupla de jornalistas entrevistou dirigentes, atletas, advogados e colegas, além de fazer um mergulho profundo em documentos, decisões judiciais e no noticiário da época para traçar um panorama completo dos bastidores desse título. O livro tem a intenção declarada de equilibrar as narrativas, mas faz isso com base em provas documentais, isenção de análise e uma ampla contextualização do que era (é?) aquele Brasil do final dos anos 1980.

IMG_20180228_144446673O resultado é um trabalho revelador sobre a sociedade e as instituições brasileiras dessas três décadas, com muitas mudanças e algumas permanências ao longo desse percurso. Uma das permanências é o esporte como fato político, queiramos ou não. A confusão que culminou em 1987 tem origem muito antes, quando uma CBF enfraquecida e movida por interesses corporativos (outra permanência) chegou a colocar 90 times no brasileirão, naquilo que a arraia-miúda interpretava no chiste “onde a Arena vai mal, mais um clube no nacional“. Não era só em Brasília que os militares mandavam: a partir de 1975 foi um almirante da marinha que timoneou a CBD (antecessora da CBF) rumo ao inchaço contraproducente no número de participantes do campeonato nacional.

Até 1986, a CBF era de um amadorismo atroz (se esta é outra permanência, deixo pra vocês avaliarem). A falta de dinheiro e de patrocínio levou o seu então presidente declarar que não haveria campeonato brasileiro no ano seguinte . Foi quando os maiores times brasileiros se uniram no chamado Clube dos 13, todos do eixo Sul/Sudeste, para organizar um campeonato à parte. Dizia-se que a lógica era financeira: juntar quem teoricamente teria maior poder de mobilização, vender cotas de patrocínio, negociar direitos de transmissão esportiva e assim viabilizar uma competição restrita. Na prática, o Clube dos 13 foi altamente excludente, deixando de fora todos os times do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, contribuindo até mesmo para o ocaso de muitos clubes. Eventualmente incluíram Bahia e Santa Cruz “pra não pegar mal”, mas a premissa continuava muito clara.

A CBF, que a princípio não se envolveria, voltou atrás e decidiu que o campeonato do Clube dos 13 seria O brasileirão de 1987. Sendo assim, a competição forçosamente teve que incluir todos os clubes que tiveram bons resultados em 1986 – entre eles o vice-campeão Guarani, que não havia sido convidado para clubinho. Seriam feitas duas chaves de 16 times (os famigerados Módulos Verde e Amarelo), sendo que os dois melhores de cada uma se enfrentariam num quadrangular final. Representando o Clube dos 13, Eurico Miranda estava na reunião em que esse formato foi sacramentado. Assinou embaixo do entendimento sobre o regulamento e, 30 anos depois, reafirmou a Gallindo e Zirpoli que considerava sua decisão correta. O Clube dos 13 se sentiu traído pelo próprio representante e tentou desde então reverter a coisa, mas aí já era tarde.

Além dos 31 anos de confusão sobre o título, essa mobilização resultou no início da transmissão dos jogos pela TV Globo – o que significou, também, o poder de decisão da emissora sobre os dias e horários em que as partidas são realizadas, algo que gera polêmica até hoje entre os frequentadores dos estádios. Foi também a primeira vez que a Panini pagou direitos de imagem aos atletas retratados no álbum de figurinhas da competição.

A essa aparente profissionalização do campeonato se contrapunha a organização ingovernável e uma truculência generalizada no modo de agir. 1987 teve árbitro sequestrado, presidente de federação espancado por capangas de bicheiro, informações falsas plantadas na imprensa, futuro vice-presidente da República surrupiando documento da mesa de ministro e opinião de dirigente mudando como o vento, de acordo com as conveniências de cada momento.

Gallindo e Zirpoli mostram como tudo está interligado: para garantir apoio à sua primeira eleição ao comando da CBF entre os times nordestinos, Ricardo Teixeira atuou em favor do Sport para manter o troféu indivisível. Neste pacote, entrou também o envio da seleção brasileira para o Nordeste durante as eliminatórias para a Copa de 1994 – sim, aquelas eliminatórias em que um time desacreditado foi vaiado em todo o País até encontrar apoio no Recife e golear a Bolívia por 6 x 0 em um Arruda lotado, jogo considerado marco no caminho do Brasil ao tetracampeonato.

Esse mesmo Ricardo Teixeira, que várias vezes afirmou taxativamente a indivisibilidade do título, voltou atrás em 2011 e reacendeu a confusão, declarando o Flamengo como co-campeão numa canetada em seu gabinete. Na época, a CBF estava reconhecendo como nacionais os títulos de alguns campeonatos anteriores ao brasileirão e Teixeira aproveitou a deixa para fazer um agrado ao Flamengo, que por sua vez se via tentado a entrar numa rebelião de clubes liderada pelo Corinthians para negociar diretamente os direitos de transmissão dos jogos (de novo, tudo interligado).

Daí pra diante, o título de 1987 foi novamente disputado nos campos da Justiça, num prenúncio da judicialização total que tomaria conta do país a partir dos anos 2000, diante da crise de credibilidade pela qual passam os poderes legislativo e executivo. Em 2017, o mesmo STF que ocupa o noticiário nacional com decisões sobre a Operação Lava Jato teve que arbitrar, mais uma vez, quem ganhou um campeonato de futebol. Como já sabemos, deu Sport de novo. E se o Flamengo agora alardeia que irá à Fifa, Gallindo e Zirpoli lembra que eles já foram: na época, Ricardo Teixeira acionou o sogro João Havelange, então presidente da federação internacional, que enviou ao Brasil ninguém menos que Joseph Blatter para dar a resposta do órgão – sem surpresas, favorável ao Sport. O envolvimento de Blatter na questão era informação inédita, conseguida com exclusividade pela dupla de autores.

Além da pesquisa primorosa, 1987: de fato, de direito e de cabeça tem a enorme qualidade da leveza na escrita. Embora aqui e ali haja redundâncias e alguma dificuldade em explicar as idas e vindas do campeonato (que, de todo modo, é praticamente inexplicável mesmo), o texto mantém a fala coloquial dos entrevistados, palavrões inclusos, e segue por todo o livro com uma informalidade responsável por muitos momentos de riso e de emoção. Primorosa também a pesquisa iconográfica nos acervos da imprensa, incluindo fotografias de João Carlos Lacerda e Edvaldo Rodrigues, dois dos mais longevos e importantes fotógrafos esportivos de Pernambuco. O livro traz prints das decisões judiciais e atas de reuniões, além de QR Codes que levam o leitor para conteúdos extras, como vídeos mostrando os principais lances do campeonato.

Como diz Gallindo no prefácio, 1987 foi um ato de resistência, de insistência e de sobrevivência por parte do Sport e dos torcedores pernambucanos – e como todo ato de resistência, é altamente político. Como já mencionado, no bojo de toda essa história está um inegável preconceito regional, realimentado diariamente pela escolha dos pontos de vista narrativos. Outra permanência. Em 2008, quando Sport e Corinthians disputaram no Recife a final da Copa do Brasil, ouviam-se apenas os torcedores do Timão na transmissão pela TV, muito embora eles fossem minoria e estivessem cercados de um mar de rubro-negros. No ano seguinte, entendi o porquê quando fui a um jogo da Libertadores contra o Palmeiras: Ilha do Retiro novamente lotada de torcedores do Sport, alguns poucos do verdão, mas era para estes que estavam voltados os quatro microfones de transmissão fincados no gramado. Uma escolha não apenas injusta como falsa – ao eleger um lado da história, a TV mostrou algo que só “aconteceu” mediante um contorcionismo técnico.

1987: de fato, de direito e de cabeça evidencia o quanto o futebol é político, no lato e no stricto sensu, e pode revelar muito sobre visões de mundo. Anos atrás, Carlos e eu tínhamos sido apresentados há mais ou menos uma hora quando fiz a pergunta que tinha o potencial de definir que tipo de relacionamento teríamos (ou não) para todo o sempre:

– Quem foi o campeão brasileiro de 1987?

– O Sport Club do Recife, claro.

Naquela noite, dei mais um gole na minha cerveja, satisfeita. Pois não se enganem: mesmo que de forma inconsciente, havia muito mais na minha pergunta do que a mera intenção de avaliar o grau de conhecimento futebolístico daquele paulistano do Tatuapé.

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