11 livros sobre futebol na Seleção do Lombada

Se tem uma falácia grave nesse mundo é a de que existe dicotomia entre cérebro e corpo, ou entre intelecto e diversão – como se ler não pudesse ser divertido ou como se não houvesse cultura no entretenimento. Sendo o esporte mais popular do mundo, o futebol é um dos alvos mais frequentes dessa falsa polêmica, em especial quando é ano de Copa. Então, amigos, já é hora de preparar a paciência para as tretas de redes sociais.

Eu até entendo a necessidade que algumas pessoas têm de parecer diferentonas frente a algo quase hegemônico (quem nunca?). O problema é quando os argumentos são rasos e a má-vontade é tamanha que o resultado só revela cegueira. Justamente porque é o esporte mais conhecido, jogado e assistido no planeta, o futebol atua como espelho e catalizador de grandes questões humanas: há muito mais dentro das quatro linhas do que “apenas 22 homens correndo atrás de uma bola”, na frase preferida dos detratores.

Você pode até não gostar do jogo ou da comoção em torno dele, mas é impossível negar o futebol como fenômeno social, cultural, midiático, histórico, econômico e político, tudo isso numa abrangência inacreditavelmente ampla. O futebol fala para as menores aldeias tanto quanto para o globo terrestre, catalizando rivalidades, afinidades e sentimentos vários, que pouco ou nada têm a ver com a bola. Por sua dimensão simbólica, o futebol está retratado nas artes, incluindo a literatura, e é objeto recorrente de ensaios e pesquisas.

Mas ele só traz coisas boas? Claro que não. A violência entre torcidas e a corrupção parecem ser endêmicas em muitos países, e um evento como a Copa do Mundo não acontece sem uma boa dose de gentrificação e gastos exorbitantes de dinheiro público. Gostar de futebol é também criticar o futebol. Quem acha os torcedores um bando de alienados devia começar a prestar atenção às discussões que acontecem nas arquibancadas sobre a política interna dos clubes, sobre as decisões de seus dirigentes, sobre a cobertura da imprensa – aliás, arrisco dizer que não há ninguém mais desconfiado da pretensa isenção da mídia do que um torcedor de futebol.

Como apreciadores do esporte, nós autores do Lombada mantemos um pequeno nicho de volumes dedicados ao tema. E não que alguém precise da chancela dos livros para justificar seu gosto por qualquer atividade humana de entretenimento – imagine se fosse necessário citar uma tese antes de sair pra dançar, que desumanizador – mas já que a trollagem vai acontecer de qualquer forma, é sempre bom ter uns argumentos na manga.

Por isso, aproveito o clima de Copa do Mundo para apresentar minha seleção de 11 títulos que levam o esporte para além do gramado – um conjunto de defesa, meio-campo e ataque que inclui crônica, literatura, biografia, história e sociologia.


1. Futebol & Guerra,
de Andy Dougan
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A história é amplamente conhecida: durante a ascensão do regime nazista na Europa, um time de futebol formado em parte pelos jogadores do antigo Dínamo de Kiev, da Ucrânia, foi obrigado a disputar partidas de exibição contra times de soldados alemães e seus aliados. Apesar das condições totalmente adversas, o Dínamo colecionou vitórias acachapantes, até a ocupação nazista decidir que eles jogariam a partida final contra o time de oficiais da Luftwaffe, a força aérea Alemã. A ideia, claro, era provar a superioridade ariana por meio da vitória dos oficiais nesse jogo. O que passou para a história é que os jogadores do Dínamo não se intimidaram, jogaram para ganhar e teriam sido fuzilados ao final da partida, que ficou conhecida como “o jogo da morte”. A parte do fuzilamento é lenda – ou quase: a pesquisa de Dougan mostra que os jogadores acabaram mesmo morrendo ou fugindo, mas nos meses subsequentes. Esse episódio é um dos muitos que alimentam a alegoria do futebol como campo de batalha, de resistência e da dignidade levada às últimas consequências.

 

2. Como o futebol explica o mundo, de Franklin Foer

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Quando Barcelona e Real Madri jogam, estão disputando muito mais do que qualquer campeonato de futebol: o que é entra em campo é o pleito histórico da Catalunha por independência com relação ao governo central Espanhol, esse mesmo que vem dando rebuliço nos últimos meses. Já assisti a um jogo no Camp Nou e posso atestar: metade dos gritos da torcida eram pela autonomia da região, não de incentivo a Messi ou Neymar. Da mesma forma, Glasgow Rangers x Celtics na Escócia e Dínamo Zagreb x Estrela Vermelha na antiga Iugoslávia extravasam rixas antigas que têm haver, respectivamente, com a reforma protestante e a guerra nos Bálcãs. Assim, o livro do jornalista americano Franklin Foer mostra por meio destes e de vários outros exemplos como o futebol age como expressão de identidades locais e movimentos políticos mais amplos – incluindo até o fim do apartheid na África do Sul.


3. Febre de bola
, de Nick Hornby
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Os brasileiros se acham os mais apaixonados por futebol, mas perto dos ingleses nós somos uns amadores – pro bem e pro mal. Mais famoso pelo livro que deu origem ao filme Alta fidelidade, o escritor Nick Hornby conta como se tornou absolutamente obcecado pelo Arsenal, com quem aprendeu a curtir “o sofrimento como entretenimento” (torcedores do Náutico se identificarão imediatamente). De criança a adulto criado nas arquibancadas, Hornby testemunhou de perto a pior fase da violência praticada pelos hooligans, assim como o nascimento do “futebol moderno”, que profissionalizou a relação entre clube e torcida, mas ao mesmo tempo significou o aumento substancial no preço dos ingressos, afastando grande parte dela dos campos. Ele olha para essa época não sem uma certa nostalgia – algo muito parecido com o que vem acontecendo com alguns clubes brasileiros que investiram em arenas novas, marcadamente o Corinthians. O tom deHornby, confessional e autoirônico, torna a leitura leve e ligeira.

 

4. Estrela solitária, de Ruy Castro

WhatsApp Image 2018-06-12 at 17.34.07Não existe ninguém como Garrincha na história do futebol mundial. O ídolo improvável com suas pernas tortas fez do drible uma profissão de fé, até mais importante do que o gol – era capaz de driblar meia defesa até as barras e voltar de lá com a bola, dispensando o gol feito só pela diversão. Por isso, é constantemente lembrado quando o tema é o chamado “futebol-arte” que era atribuído ao Brasil até a década de 1970. Ele e Pelé em campo, juntos, nunca perderam uma partida. Mas nem tudo eram flores, claro, como lembra a biografia Estrela solitária. Quando Garrincha jogou, a prática corrente dos clubes ainda era explorar os atletas até sobrar o bagaço. Era violento com suas companheiras, inclusive com a cantora Elza Soares, a quem quase arrastou junto com ele pro fundo do poço, quando a carreira já estava em declínio. Um livro importante para entender o futebol que ainda estava no meio do caminho como escada para ascensão social, num País altamente machista, racista e moralista. De qualquer forma, livro obrigatório para entender como a era de ouro do futebol brasileiro foi construída em cima de muitos podres.

 

5. Nunca houve um homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves

WhatsApp Image 2018-06-12 at 17.32.13Heleno de Freitas foi o primeiro badboy do futebol brasileiro, ainda na era do esporte amador. Sócio e jogador do Botafogo, defendia o clube como quem defende a própria honra – o que significava entrar na porrada com frequência alarmante. Além de um proto-Edmundo, Heleno também foi precursor de outras características hoje comuns aos jogadores: era galanteador e vaidoso ao extremo, o que lhe valeu o apelido de Gilda. Com base nesse personagem icônico, o livro de Marcos Eduardo Neves  aborda um período pouco lembrado do futebol brasileiro, quando o esporte estava restrito aos clubes e a seus ricos membros, ainda completamente vedado (ao menos nas competições oficiais) aos jogadores pobres e negros. A biografia deu origem ao filme lançado em 2011 tendo Rodrigo Santoro no papel principal.

 

6. 1987 – de fato de direito e de cabeça, de André Gallindo e Cássio Zirpoli
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Parafraseando Franklin Foer, o subtítulo deste livro bem poderia ser “como o futebol explica o Brasil”. A investigação dos repórteres esportivos André Gallindo e Cássio Zirpoli desvenda os bastidores da briga entre Flamengo e Sport pelo campeonato brasileiro de 1987, conturbado desde o nascedouro por um misto de desorganização da CBF e preconceito regional do finado Clube dos 13. Disputado em módulos separados ao fim dos quais haveria um quadrangular final, o título foi concedido ao Sport diante da recusa do Flamengo de entrar em campo, alegando irregularidades no regulamento. A disputa foi levada aos tribunais e só teve decisão definitiva pelo STF no ano passado (a favor do Sport). Ao longo dessas três décadas, o que se viu foi um festival de conchavos, corporativismo e partidarismo da imprensa nacional, claramente favorável ao Flamengo. O caso foi precursor da tendência a judicialização que tomou conta do Brasil com a crise da instituições. Veja a resenha completa aqui.

 

7. À sombra das chuteiras imortais, de Nelson Rodrigues

Algumas das mais célebres frases sobre o futebol brasileiro foram criadas por Nelson Rodrigues em suas crônicas esportivas, que tinham as marcas do exagero e da dramaticidade. Suas descrições de partida bem poderiam ser narrativas de uma guerra em campos de batalha sangrentos, ou narrativas de romances com apelo universal. Nelson escrevia sobre futebol num tom acima do que dedicava às suas crônicas da vida cotidiana e disso saíram textos memoráveis, literariamente belos e incontornavelmente divertidos, apesar do reacionarismo. Mencionei À sombra das chuteiras imortais, mas poderia ser qualquer outra das compilações de suas crônicas esportivas (existem várias, de diferentes editoras). A paixão pelo futebol ele aprendeu em casa: seu irmão mais velho era o também jornalista Mário Filho, que dá o nome oficial do estádio do Maracanã e de quem falaremos mais adiante. Eis uma as minhas frases preferidas de Nelson sofre futebol:

 “O Fla x Flu surgiu 40 minutos antes do nada”

Nelson Rodrigues


8. Futebol ao sol e à sombra
, de Eduardo Galeano

WhatsApp Image 2018-06-11 at 18.52.11 (1)Esse pequeno livro é uma pérola: um compilado de textos curtos sobre futebol, abordando de gols memoráveis a lembranças particulares envolvendo a bola e o gramado, tudo transformado em prosa poética. Dois dos que me recordo com mais carinho: a descrição que ele faz de um gol de Heleno de Freitas, em que ele entra na área com a bola equilibrada no peito e assim sai driblando a impotente defesa adversária até a cara do gol; e as recordações de seu passeio com o ídolo do San Lorenzo, José Sanfillipo, a um supermercado Carrefour construído sobre o terreno onde antes era o estádio do clube: entre prateleiras de maionese e lâminas de barbear, Sanfillipo refaz o percurso da bola em um dos seus gols mais memoráveis. A cada tanto de textos, Galeano dedica um maior às copas, fazendo uma apanhado da situação geopolítica no ano de cada mundial. Um dos meus livros preferidos sobre futebol, por falar direto ao coração.  Mais do que isso: uma vacina contra quem acha que politização e amor ao esporte não podem conviver na mesma pessoa, já que Galeano foi uma das vozes mais críticas da esquerda latino-americana.

9. La littérature marque des buts (vários autores)

WhatsApp Image 2018-06-11 at 18.53.55Não são só os escritores latino-americanos os encantados com o futebol. Esse livrinho que eu comprei pela capa na livraria francesa (A literatura marca gols, em tradução livre) traz um compilado de textos escritos por vários autores, incluindo nomes como o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, a francesa Marguerite Duras, o espanhol Camilo José Cela, o austríaco Peter Handke, o brasileiro Mário Quintana, os já mencionados Nick Hornby e Eduardo Galeano, dentre muitos outros. Há crônicas, trechos de ensaios e de prosa, além de muita poesia. Se todo esse time de intelectuais também para para ver um bate-bola de vez em quando, porque não nós, meros mortais?

Cada gol é sempre uma invenção, sempre uma perturbação do código: há sempre qualquer coisa de inelutável, de fulgurante, de espantosa, de irreversível. Exatamente o que acontece com a palavra poética. O maior goleador de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano“.

Pier Paolo Pasolini

 

10. O descobrimento do futebol, de Bernardo Borges Buarque de Hollanda

WhatsApp Image 2018-06-11 at 18.52.12 (1)Em geral eu acho bienais de livros uma roubada, mas vou de vez em quando por um único motivo: é quando consigo garimpar nos estandes de editoras universitárias, que costumam ter acervos excelentes, porém indisponíveis nas livrarias. Foi assim que cheguei a este livro de Bernardo Buarque de Hollanda sobre a presença do futebol na obra de José Lins do Rego. Embora aspecto pouco explorado no legado do escritor paraibano, ele foi um profícuo cronista esportivo e deixou referências sobre futebol em ao menos dois de seus romances. Mas o grande barato do livro é outro: Bernardo explora como o futebol, primeiro rechaçado como influência estrangeira e alienante, foi aos poucos sendo assimilado pelo movimento modernista como elemento de brasilidade, muito em função da composição étnica dos jogadores nos primeiros momentos da profissionalização (por volta de 1933), quando finalmente os negros passaram a ser admitidos nos clubes. O livro também faz uma interessante análise da importância das copas do mundo como terreno em que o Brasil começa a exercer um papel de relevância na comunidade internacional, assim como da identificação do torcedor com times locais.

11. O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho

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Deixei por último, mas poderia ter começado por ele. Do irmão mais velho de Nelson Rodrigues, O negro no futebol brasileiro é o mais icônico livro sobre o esporte já escrito no Brasil, além de título fundamental para se entender o racismo na primeira metade do século 20. Mário Filho se debruçou sobre o momento da profissionalização do esporte para mostrar como os jogadores negros entraram nos clubes pela porta dos fundos, tratados como empregados e proibidos de interagir com os sócios, muito embora fossem os ídolos dentro das quatro linhas. Hoje o discurso do livro é considerado datado e corroborador do discurso do mito da democracia racial, mas não deixa de ser um documento do que se pensava sobre racismo num período importante da história brasileira, quando tanto o futebol quando a miscigenação surgem como elemento estruturante da identidade nacional. Continua imperdível.

 

PS: em pelo menos dois dos livros aqui mencionados, as capas são reproduções de telas tendo o futebol como tema: aqui em cima, ilustrando O negro no futebol brasileiro, há um trabalho de Francisco Rebolo; mais acima, na capa de O descobrimento do futebol, o detalhe da capa é de Candido Portinari.

 

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Um comentário sobre “11 livros sobre futebol na Seleção do Lombada

  1. Rebolo não foi simplesmente um pintor modernista que usou o tema do futebol. Foi jogador de Corinthians e Ypiranga, campeão paulista pelo timão. Apaixonado pelo clube do povo, desenhou a primeira versão do atual escudo corinthiano.

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