O livro da ruptura

Um dos efeitos positivos de manter um blog dedicado à literatura é a descoberta de novos autores e autoras, o possível contato pessoal e os encontros em eventos literários. O Lombada Quadrada tem por princípio a curiosidade e a busca ativa de publicações da literatura contemporânea brasileira. Temos muita produção de altíssima qualidade, como atestam as várias resenhas dedicadas a livros brasileiros da atualidade que foram publicadas nesses três anos de nossa aventura por aqui. Além dessa busca nas livrarias e eventos literários, acabamos também agraciados por amigos e seguidores que começam a escrever e publicar romances, contos e poemas. De textos publicados por pequenas editoras a edições do autor, muita coisa legal também tem chegado às nossas mãos.

E foi em um encontro de trabalho, na bela Florianópolis, que o colega de mundo da comunicação corporativa Rogério Kiefer falou de seu livro, A redenção, que havia sido publicado semanas antes da reunião. E prometeu me enviar um exemplar, que recebi com gosto e curiosidade.

WhatsApp Image 2018-06-24 at 13.48.54A fila era grande e a leitura só aconteceu em 2018. Encontrei ali traços marcantes de um autor em desenvolvimento. Importante ressaltar, como sempre deixamos claro no blog, que nosso olhar é de leitores comuns, sem pretensão analítica, embasamento acadêmico e metodologia crítica. Nossa missão é contar as histórias que envolvem cada livro, cade leitura.

A publicação é do autor. Uma edição simples, em pouco usual corpo 14 (ou 12, ou 16?), que revela a falta do olhar de uma editora nos pequenos erros de digitação e alguns deslizes que precisam da mão de um revisor para arredondar o texto. O que importa é que o livro foi impresso. E, pelo que li, merece uma segunda edição mais caprichada no futuro. Talvez quando Kiefer estiver em seu, digamos, quarto romance e esta primeira aventura vier à tona em uma coletânea de textos curtos.

A leitura de A redenção tem passagens surpreendentes, o que mostra a habilidade do autor para urdir tramas que mesclam uma narrativa direta e limpa, sem complexidade do ponto de vista da linguagem – porque nem sempre um romance precisa subverter as estruturas, como prova Elena Ferrante – à capacidade imaginativa para provocar quebras de expectativas, introdução de ações inesperadas dos personagens, um quê de mistério e muito de ruptura.

E é de ruptura que A redenção trata. Dividido em três capítulos, cada um deles dedicado a um personagem. Começamos por conhecer Roberto e Roberta, um casal unido nos tempos de universidade pela coincidência dos nomes e por afinidades um tanto superficiais. Constroem uma vida juntos, colocam no mundo uma filha e vão seguindo uma vida aparentemente feliz até que um assalto e um crime de sangue em sua bela casa, num dos bairros mais desejados de Florianópolis, colocam a vida de Roberto de pernas pro ar. O cadáver da filha, a mulher desaparecida, vestígios de um assalto malsucedido e poucas explicações.

Roberto vai pra rua. Literalmente. Abandona tudo e começa uma vida errante pelas ruas da cidade, fugindo dessa chaga. De início, se diverte fazendo sexo por dinheiro com mulheres casadas e carentes que largam seus filhos na escola e se deixam seduzir por aquele homem jovem, bem apessoado, que ainda não tem as marcas de quem optou por viver na rua.

À medida em que sua aparência se deteriora, Roberto busca outros caminhos. E logo se vê líder de uma trupe de moradores de rua, que o seguem pela cidade, espalhando terror e construindo vínculos. É notável o quadro que Rogério Kiefer faz da vida nas ruas, mostrando a complexidade da teia de relações e que há possibilidade de afeto, sexualidade e amor em meio a tantas histórias de ruptura com o mundo. Do jovem marginalizado que se inicia no crime ao gênio da informática que perdeu o rumo e a fortuna em um lance de infelicidade e imbecilidade, Kiefer consegue criar um quadro de personagens que desmistificam a pecha de vagabundagem daqueles que pelos mais variados motivos se encontram em situação de rua. Neste bloco da história o personagem central, que dá nome ao capítulo é Onan, sugestivo nome do garoto a que recebe a proteção de Roberto. Em torno desse garoto, vemos uma história de amor e companheirismo com a irmã. E a bela trajetória de um pré-adolescente que descobre o sexo e o afeto por uma menina da vizinhança, mesmo cercado da brutalidade da vida ao ar livre.

A narrativa sofre mais uma ruptura. E desta vez ainda mais abrupta, quando conhecemos Rafaela, uma adolescente que enfrenta o estado terminal de um câncer de intestino. É um capítulo curto, avassalador, que fecha o círculo da história, une pontas. E cujo cerne você, leitor, interessado nessa trama deve conhecer lendo a novela de Rogério Kiefer. Garanto que é surpreendente.

Como afirmei no começo da história, há reparos a fazer. A narrativa em terceira pessoa é bem conduzida, mas, por vezes, a linguagem é um tanto grosseira para um narrador que se distancia da trama. Determinadas alusões sexuais poderiam estar na boca das personagens, mas perdem a força na terceira pessoa, por vezes ficam vulgares. Há muito a fazer na lapidação do texto. De novela que é, pode se tornar um belo conto. Ponto de partida para uma obra de narrativas curtas? Quem sabe…

Aqui fica o recado para o amigo. Escreva sempre, publique, compartilhe os textos. Existe um escritor em formação.

Para quem está curioso com o fim da história, quer conhecer A redenção e acompanhar a carreira de Kiefer o jeito é encomendar a edição diretamente com o autor pelo e-mail rogerio@allpresscom.com.br.  Rogério, aliás, acaba de lançar Leituras privadas: textos curtos para quem não perde tempo à toa, coletânea de crônicas que logo terei o prazer de ler.

 

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