O pai que não quis morrer

Durante conversa com os leitores, na Livraria da Vila, em São Paulo, no dia 20 de agosto de 2018, o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, que lançava seu romance Dora sem véu, afirmou que “a narrativa é arte de negociar com a morte”, tal qual Sherazade, nas Mil e uma noites, que vai contando histórias sem fim para adiar o quanto pudesse o fim trágico que lhe era prometido. Por isso, diz ele, “escrevo, narro compulsivamente, sempre tentando fazer essa negociação”. Foi a deixa para eu encontrar uma forma de começar a falar de O pai da menina morta, livro de Tiago Ferro, publicado neste ano pela Todavia.

E para falar desse livro é preciso contextualizar. Tiago, escritor, editor e um dos fundadores da revista e-galáxia, perdeu uma filha, Nina, em 2016, de uma morte súbita e, por algum tempo, inexplicável.

E o que fez esse pai, desesperado, arrasado com tamanha ausência, dessas que a gente não consegue nem dimensionar? Se atirou na narrativa, arriscou-se na literatura, não apenas para tentar preencher um imenso vazio, mas também para que ele, o pai, não morresse junto com a filha.

O pai da menina morta

Essa é uma das impressões que a leitura me deixou. O pai da menina morta tenta, de alguma forma lançar-se das memórias, do desabafo nas páginas do relato para preservar tanto a memória da filha, quanto o seu próprio papel de pai. Um pai que não quer morrer junto com a morte da menina. E que não pode morrer porque tem uma outra filha para criar e uma vida para tocar.

Foi uma leitura dolorida, sofrida, por muitas vezes triste, entremeada de momentos de algum humor, muito sarcasmo e uma elaboração ficcional que coloca o leitor o tempo todo em dúvida.

Tiago Ferro construiu uma narrativa fragmentada, não linear, ácida, direta. Aborda sem rodeios ou eufemismos os momentos que antecederam a tragédia. Traz do passado a relação com os pais, as lembranças das mortes e traumas em família ou na vizinhança, as descobertas da juventude, sexo, namoros, porralouquices de um garoto de classe média intelectualizada nos loucos anos 1980 e 1990.

Narra a solidão e o isolamento que sentiu quando começou a voltar ao convívio social depois da morte da filha. Alvo de olhares, cuidados, silêncios, frases desastradas ditas à guisa de consolo. O fim do casamento, a distância da outra filha, que vai morar fora do Brasil, aparecem como mais uma etapa do luto. E relata outras perdas, de amigos, por exemplo, que só fizeram ampliar o buraco sem fundo em que estava mergulhando.

Ele também joga pimenta e humor quando relata buscas esotéricas, terapias alternativas, aulas de Ioga, retiros espirituais. Ou nas histórias de sexo com a professora, o desejo pela terapeuta budista, jogando para o leitor alguns detalhes sórdidos dos encontros, acontecidos ou imaginados.

O romance (seria esse relato um romance? A ficha técnica diz que sim.) é essencialmente a confirmação da ligação estreita entre a psicanálise e a literatura. Desde Freud, a tradição psicanalítica apela, com frequência, para os textos literários, usando de Shakespeare aos contemporâneos, da Tragédia Grega aos poetas de nossos tempos para entender os dramas humanos e buscar soluções construídas entre terapeuta e paciente.

Quando Tiago Ferro se joga na tarefa de escrever parece expor ao leitor sessões e sessões de terapia diante do teclado. Jogando em palavras toda a raiva, a frustração, a saudade, a impotência diante da morte. Terá sido o fecho do livro uma alta?

Não foi fácil ler O pai da menina morta. Tampouco escrever sobre esse livro, ato que adiei por semanas. Em um dos dias que me dispus a fazê-lo, ao amanhecer de um domingo que tinha para mim um quê de onírico, comecei a escrever, até me dar conta de que era dia dos pais. Dali em diante, voltei para os meus sonhos e procrastinei a escrita, até conseguir fechá-la. Mas esses livro deixou uma ferida aberta, deu muitas pancadas no estômago, me jogou nas cordas.

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