Um sertão, muitos sertões

O que é o sertão? Terra rachada, caatinga seca, carcaça de gado, armaduras de couro, fome, coronelismo, messianismo e bandidagem.

Mas… e se eu disser: motocicletas, lanhouses, moda, grafite, cinema? Que tal esse sertão pra você?

O estereótipo que permanece no imaginário da maior parte dos brasileiros, incluindo-se os nordestinos litorâneos, ainda é primeiro, o mesmo d’Os Sertões, de Euclides da Cunha, d’O Quinze, de Rachel de Queiroz; das imagens icônicas do bando de Lampião registradas por Benjamim Abraão no início do século passado.

IMG_20180826_095459380Uma produção cultural ainda tímida vem tentando confrontar esse imaginário com um sertão mais atual, multifacetado e complexo, como os filmes Boi Neon, de Gabriel Mascaro; A história da eternidade, de Camilo Cavalcante; e o livro-reportagem Os Sertões, da jornalista Fabiana Moraes, com fotografias de Alexandre Severo.

É neste contexto que está Dora sem véu, mais novo romance de Ronaldo Correia de Brito, publicado este ano pela Companhia das Letras, dando continuidade e a um projeto que já evidenciava desde Galileia (2008)

O sertão que Ronaldo Correia de Brito expõe ainda é o das romarias em louvor a Padre Cícero que levam milhões de pessoas a atravessar o Nordeste em paus-de-arara. Mas há um quê de desencanto nessa fé, que agora tem mais tradição do que crença, e muita hipocrisia. É a esse sertão que volta Francisca, personagem principal do romance, ela mesma descendente de retirantes que saíram do sertão para o litoral em busca de trabalho, no início do século, para encontrar escárnio no lugar da solidariedade.

Porque um dos temas centrais de Dora sem véu são os campos de concentração construídos pelo poder público para barrar os retirantes e impedi-los de chegar a Fortaleza, onde os esforços por embelezamento da cidade não poderiam fracassar em função de uma horda de esfomeados. Francisca é neta de uma retirante – a Dora do título que, abandonada pelo marido, tenta fazer esse caminho com os filhos pequenos a tiracolo. O pai de Francisca é então um pré-adolescente, que abandona mãe e irmãos quando se vê diante da chance de fugir daquilo tudo dentro de um navio. É em função da culpa do pai, que nunca mais ouve falar de Dora, que Francisca empreende essa viagem de volta às origens.

Mas Francisca não é alheia ao sertão, pelo contrário: é uma pesquisadora que há muito tem a região como objeto de estudo. E aí está um dos trunfos do livro. Francisca observa esse sertão complexo e já tão conhecido por ela própria para encontrar outras camadas ainda mais subjetivas e pessoais. Ela faz isso acompanhando um grupo de romeiros, junto com o marido. Na mesma tropa estão uma adolescente vestida de noiva, a pagar promessa por não ter morrido ao fazer um aborto; e um rapaz que ganha a vida criando e costurando lingeries, vítima de um acidente de motocicleta que o deixou meses num hospital.

Visto que Dora certamente já morreu, a busca de Francisca é sobretudo subjetiva. Pelos olhos dela, percebemos que, se mudaram os modos e os instrumentos, as relações de poder no sertão são permanências incômodas. O seu marido, médico e portanto poderoso, faz da jovem romeira vestida de noiva sua amante, sob os olhares indiferentes e hipócritas da família desta. “Em qualquer geografia, as mulheres são as mais vulneráveis”, conclui Francisca. Já o rapaz motoqueiro se torna amante da própria Francisca que, por meio dele, elabora outras realidades incômodas:

“Mais de seiscentos mil negros mortos no translado da África para o Brasil, em trezentos anos de tráfico de escravos. Nosso maior desastre social. Duzentos mil óbitos de jovens em apenas oito anos, todos por acidentes de moto”.

Ao mesmo tempo, Ronaldo Correia de Brito elabora bastante outros tipos de permanências e faz um grande tributo à cultura popular , e uma certa literalidade que permeia a expressão dos sertanejos, mesmo quando iletrados. Haveria uma certa “fala do sertão” carregada de certezas trágicas e um modo de se relacionar com o outro imbuído de uma certa dignidade inerente à região, e que sobrevive à substituição de tecnologias primitivas, cada vez mais raras como as moendas de água, por motores elétricos ou a combustível.

Dora sem véu não deixa de fazer sua crítica ao deslumbramento burguês com esse sertão mítico que não existe mais. Ao mesmo tempo, por meio de um personagem secundário escritor e médico (que pode ser visto com uma representação do próprio Ronaldo Correia de Brito) o livro também ataca a invisibilidade a que as relações econômicas submeteram a cultura sertaneja. O que é ser cidadão do mundo, questiona-se esse personagem? Porque um europeu é mais cidadão do mundo do que um sertanejo? Porque carvalhos são árvores universais, e carnaúbas não? E porque este é um livro extremamente complexo, essa discussão não se dá dissociada de outra, sobre a intelectualidade provinciana.

Ronaldo Correia de Brito é um dos meus escritores favoritos e Dora sem véu passa a dividir com a novela Atlântico (já resenhada aqui) o posto das melhores coisas que li nos últimos anos.

PS: a imagem principal que ilustra este post foi feita em Triunfo, sertão de Pernambuco, três anos atrás.

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