Morrer: verbo feminino

Em novembro de 1986, escritora argentina Selva Almada era uma pré-adolescente quando escutou pelo rádio a notícia da morte de uma vizinha, pouco mais velha do que ela, apunhalada na própria cama. Naquele dia, Selva intuiu que nenhum lugar no mundo era seguro para uma mulher, nem seu próprio quarto. Aquilo ficou em sua cabeça até que, décadas depois, outros dois assassinatos de mulheres argentinas, ocorridos na mesma época, se tornaram a espinha dorsal do romance Garotas mortas (Editora Todavia).

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Já digo romance meio na dúvida: o registro documental e objetivo de Selva Almada é quase anti-ficcional nas pouco mais de 120 páginas em que ela narra a busca por informações sobre Andrea, Sarita e María Luisa – além da época em que ocorreram, os crimes têm em comum o fato de que nunca foram esclarecidos. Descrevendo assim, pode-se pensar que a obra é um livro-reportagem, mas bem longe disso. Embora a escrita de Selva Almada seja despida de uma poesia superficial, o motor do texto é absolutamente subjetivo: trata-se do envolvimento da própria escritora com as três histórias.

“Eu não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher”, diz Selva, relembrando o dia em que ouviu sobre a morte de Andrea. Ao crescer entendendo que crimes do tipo são absolutamente comuns, ela passa a se perguntar: por que estas mulheres morreram? O que sentiram em suas últimas horas? Como o mundo olhava pra elas?

Bem-vestidas, bem penteadas, sempre cheirando gostoso em meio à nuvem negra e fedorenta de carne fervida, as secretárias batiam à máquina, faziam contas na calculadora e caminhavam pelos corredores, rapidinho, com os braços carregados de pastas e as pernas bem juntinhas, o andar elegante. Devoradas pelos olhos dos operários que, enquanto serravam os cascos, rabos e cabeças e separavam o couro da carne, sentindo-se tourinhos, sonhavam em cobrir as secretárias como vacas.

Em sua investigação, percebe uma sociedade que não apenas silencia sobre violência doméstica e estupro como também culpa as mulheres por princípio. Assim, ao manter uma postura serena e uma visão humanista diante do assassinato da filha, a mãe de Andrea é julgada e imediatamente colocada como suspeita pelo tribunal do senso comum. As vítimas também são julgadas: sua morte muitas vezes é tida como um castigo merecido a algo que elas mesmas provocaram – por exemplo, atrever-se a ir a um baile com as amigas.

De forma pouco surpreendente, diante de uma polícia omissa e incapaz de resolver os assassinatos, Selva descobre muitos outros casos parecidos de jovens desaparecidas e corpos sem identificação. Seu livro, diz ela, é uma tentativa de dar voz a estas mulheres silenciadas; de acender uma vela para cada uma delas contando suas histórias para que não sejam esquecidas – nesse sentido, a argentina se iguala à ruandesa Scolastique Mukasonga (já resenhada aqui), para quem escrever é dar uma lápide aos seus parentes mortos no genocídio étnico dos anos 1990.

Impossível não relacionar Garotas mortas também ao capítulo central de 2666, do chileno Roberto Bolaño, em que ele discorre por centenas de páginas a respeito dos sucessivos assassinatos de mulheres na cidade de Santa Teresa, norte do México. Contextos muito parecidos nos extremos do continente latinoamericano, e que se repete em todo o território entre os dois países. Em toda parte, atribuem-se os assassinatos de mulheres a “O Tarado” – essa figura mítica, sem identidade nem materialidade, que é o álibi perfeito para a naturalização da violência de gênero e do silêncio social.

Garotas mortas dói. E o triste é que deveria doer mais.
PS: Este livro chegou às minhas mãos de surpresa, como um dos envios do clube Leia Mulheres do Garimpo, que eu assinei há pouco mais de três meses. O trabalho da curadoria é incrível na seleção de livros de escritoras. Vale muito a pena experimentar. 😉

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