Escrever é resistir

Scholastique Mukasonga dedica a todos os seus parentes mortos no genocídio de Ruanda o livro Inyenzi ou les Cafards (Inyenzi ou as baratas), ainda não traduzido no Brasil. A Cosma, seu pai. A Stefania, sua mãe. Ao irmão Antoine e seus nove filhos. Antoine, meu irmão, e seus nove filhos. (A frase ecoa em mim: Antoine e seus nove filhos. Seus nove filhos. Nove filhos). A lista continua. Ao todo, 37 pessoas da família de Scholastique morreram a golpes de machete em 1994.

A matança foi o auge do conflito étnico promovido pela etnia Hutu contra os Tutsi. Crianças, idosos ou mulheres, mesmo as grávidas – ninguém foi poupado. Percebendo a hostilidade crescente desde os anos 1970, alguns decidiram abandonar tudo e sair do país. Ela e o irmão André deixaram os estudos universitários e cruzaram a fronteira do Burundi a pé, com a roupa do corpo, por decisão dos pais. Haviam sido escolhidos para sobreviver e dar continuidade à família.

IMG_0537Inyenzi ou as baratas é o primeiro livro de Scholastique, assistente social hoje residente na França. O livro, portanto, é sua resposta à tragédia ruandesa – comparável em atrocidade ao holocausto, ainda que geograficamente restrita a um pequeno país no coração da África. Sua fala em um francês fácil de entender, durante a Flip 2017, condiz com a construção de um texto direto e sem firulas, que extrai força da simplicidade – como na frase Antoine, meu irmão, e seus nove filhos, que tanto me marcou.

O livro é uma autobiografia que recupera, a partir da história de sua própria família, como o genocídio ruandês foi sendo construído aos poucos, décadas antes da matança de 1994. Quando Scholastique tinha cinco anos, toda sua família teve de deixar a província de Ginkoro e se estabelecer em Nyamata para fugir das hostilidades dos hutus. Toda a sua infância e adolescência, até a fuga para o Burundi, se deu sob a ameaça dos machetes e a escassez de tudo.

As longas viagens a pé para buscar água eram feitas nos horários em que era menos provável encontrar soldados e milicianos – mesmo que fosse o momento mais quente do dia. O risco de um assassinato por nada era real, assim como o de estupro, e não raro ela e os colegas encontravam corpos de vizinhos no caminho da escola. Ao longo da narrativa, Scholastique solta algumas informações sobre a política nacional para uma leve contextualização, mas quase a totalidade de seu romance esta centrada no cotidiano da família. Portanto, é a partir dos incidentes do dia-a-dia que ela vai construindo o retrato de Ruanda e da guerra étnica em formulação.

Esse retrato é também o de um país africano que ainda traz marcas da colonização europeia, na forma de paradoxos fabricados a partir dessa relação desigual. Em uma passagem maravilhosa, Scholastique narra o dia em que seus vizinhos de Nyamata aparecem de dentro da floresta, nus e pintados, tocando tambores e cantando músicas em homenagem aos deuses africanos. Sua mãe se esconde; de criação católica, ela teme aqueles “demônios”. “Aos cinco anos, eu observava sem compreender minha mãe tremendo de medo diante das crenças que haviam sido aquelas de seus pais”. Ao mesmo tempo, Stefania temia o dia em que o marido finalmente cumpriria a promessa de construir uma casa de alvenaria, como a das brancos. Ela tinha receio de não saber como cuidá-la.

A colonização e a ideia deturpada de uma África única, indiferenciada, também aparece em seus relatos. Os livros guardados como preciosidades pelo professor da aldeia, e distribuídos entre os alunos em ocasiões especiais, não lhes diziam nada. “O livro se chamava Manhãs da África. Mas a África em questão não era a nossa. Em todo caso, não aquela em que ficava Ruanda. Havia tanta coisa estranha, os baobás, os pântanos… As crianças se chamavam Mamadou, Fatoumata. ‘Fatoumata, dizíamos, não existe, é Fortunata. Esse sim é um nome de menina”.

Em outro trecho incrível, ela fala sobre o aparecimento de elefantes na aldeia, e de como isso era motivo para que todas as atividades parassem. Faltar à escola, nesse dia, era permitido. As crianças então se dedicavam a seguir o elefante a uma distância segura, até que ele resolvesse ir embora. Vem então a lembrança de como as mulheres ruandesas dançavam emulando esse elefante, lento e elegante, nos dias de festa.

É claro, todas essas lembranças são resquícios de uma vida que se deu sob absoluta tensão, até o assassinato indiscriminado da família inteira e de quase toda a minoria tutsi. Mortos enterrados sem controle algum, como Inyenzi (baratas) suas histórias estavam fadadas ao desaparecimento. “Foi o genocídio que me fez escritora. Eu tinha que criar meios de dar uma sepultura aos meus. E o que me surgiu foi usar as palavras. Construí um túmulo de papel. As palavras me permitiram ter uma mortalha para cobrir o corpo de minha mãe, e cumprir esse dever que todo ser humano deve cumprir um dia”, disse durante a Flip.

Nesse sentido, sua obra é política da maneira menos direta e, ao mesmo tempo, mais radical possível: sua sobrevivência é resultado de um ato de insubordinação, e usá-la para escrever sobre sua família é imortalizar o genocídio e expô-lo a julgamento perpétuo. Scholastique é como Antígona, que desafiou o reino para dar uma sepultura ao irmão.

PS: Escolhi este livro e não os outros dois lançados pela Editora Nós no Brasil por um misto de capricho e sorte (ou azar). Tinha a intenção de levar A mulher de pés descalços em francês e cheguei a achar um único exemplar na livraria. Como a fila estava enorme, escondi-o entre outros livros da mesma autora. Mais tarde quando fui buscar, o livro já havia sido levado. Dentre os que sobraram, levei Inyenzi por acaso.

PPS: Os trechos que aparecem nesse post foram traduzidos por mim, na pressa da escrita. Peço desculpas pelas possíveis imprecisões.

PPPS (aff…): a foto em destaque é um detalhe da obra O pão nosso de cada dia, de Yanomine, fotografada no ano passado no Museu Afro Brasil.

Gostou? Há dois livros de Scholastique Mukasonga já traduzidos para o português. Comprando-os na Amazon por meio do link a seguir, você ajuda a manter o Lombada Quadrada: Scholastique Mukasonga.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s