A mulher de pés descalços

Fiz três tentativas de gravar uma resenha em vídeo de A mulher de pés descalços, da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, para o novo canal do Lombada Quadrada no YouTube, mas falhei miseravelmente. Muito pela inexperiência ao lidar com um novo meio – tente você raciocinar enquanto fica se olhando numa telinha em pleno bad hair day -, mas acho que também teve a ver com o próprio tema do livro. Tem certas coisas que pedem a delicadeza e a reflexão da palavra escrita.

Em seu primeiro romance, BaratasScholastique faz um panorama geral das décadas que precederam o genocídio em Ruanda, em meados dos anos 1990, a partir das vivências de sua família. A mulher de pés descalços é uma extensão dessa narrativa memorialista, na qual ela se volta mais especificamentera uma personagem: Stefania, sua mãe, morta e a golpes de machete junto com quase um milhão de ruandeses da etnia tutsi.

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Li esta edição em francês da Folio, mas a obra da Scholastique é publicada no Brasil pela Editora Nós.

Ao escrever sobre a da mãe, Scholastique faz um belíssimo relato do cotidiano numa vila rural ruandesa, numa comunidade que tenta se ater a seus costumes mesmo sob a vigilância e a ameaça constantes dos soldados hutus. Cada capítulo é dedicado a um aspecto da vida doméstica, numa escrita que é simples e concreta, mas carregada de uma enorme potência poética.

Com isso, a autora entrega um relato sensível e maravilhoso sobre a cultura rural de Ruanda – país do qual quase nada nos chega – e, principalmente, sobre o espaço ocupado pelas mulheres na gestão da casa, da colheita e das relações comunitárias. Numa passagem muito bonita, a autora lembra como questões importantes eram resolvidas coletivamente por meio da conversa, sendo o consenso a única saída possível. É um modo de vida completamente diferente do ocidental, relatado com saudade e alguma idealização, mas com espaço narrativo também para os tensionamentos.

Scholastique recorda o dia em que uma mulher chega à vila e abre sua própria loja de produtos diversos, incluindo pão – um produto caro e até então inexistente na localidade, reservado como remédio a doentes ou como prêmio a crianças que tiravam boas notas. A comerciante é solteira e portanto alvo imediato de desconfianças:

“As dignas mães de família eram ofuscadas por suas maneiras de mulher livre, que de acordo com elas, não tardaria a pôr os lares em perigo. Nós, as meninas pequenas, nos admirávamos sem reserva com seu jeito de andar e de se vestir. Era como se toda Kigali, toda a capital, tivesse baixado sobre nós. (…) Mas seu jeito de fazer o que lhe desse na telha era inimitável, e se chamava Sinabwana, aquela-que-não-tem-homem”.

[A tradução tosca é culpa minha: foi feita no verso de uma nota fiscal num banco de praça, durante um almoço ao ar livre… 😀 ]

Mais evidente é o tensionamento causado pela herança da colonização belga. Para além de estar nas causas estruturais que causaram a animosidades entre tusti e hutus que culminaram no genocídio, a presença belga também deixou outras marcas, na religião e na educação. Embora tradicionalista e resistente a hábitos “dos brancos”, Stefania era cristã e rechaçava as práticas religiosas ruandesas tradicionais, chegando a ter medo delas. Ao mesmo tempo, o sistema de educação formal instituído pelos belgas era valorizado, mesmo nas comunidades rurais, como uma possível porta de saída do fatídico destino reservado aos tutsi.

Stefania passou a vida inteira tentando arrumar formas de proteger os filhos deste destino, que já se desenhava desde a década de 1950. Um dos irmãos de Scholastique foi escolhido pela família para sobreviver, o que significava que deveria se dedicar aos estudos. A própria Scolastique acabou sendo um “acidente”, ao passar, contra todas as expectativas, na seleção para o liceu de Kigali. Quando a perseguição apertou, ela e o irmão fugiram a pé pela fronteira do Burundi em 1973 e concluíram seus estudos em outros países da África Central; Scholastique acabou se casando com um francês e hoje mora na Normandia.

“Mamãe, eu não estava lá para cobrir seu corpo e não tenho nada além de palavras – as palavras de uma língua que você não compreende – para atender o seu pedido”, diz na dolorosa introdução do livro. Scholastique escreve porque não pôde enterrar seus parentes, como ela mesma frisou em sua passagem pela Flip, em 2017, e como continuamente pontua em seus livros.

Posta em palavras, a vida de Stefania ganha a potência de uma denúncia – não só a do genocídio, mas contra um mundo que ignora, invisibiliza e sufoca formas de viver diferentes daquelas das culturas.

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