A poesia do inventalínguas

“circuladô de fulô ao deus e ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda que falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso (…) o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeita o eixo do sol (…) circuladô de fulô circuladô de fulôôô…”

Esses versos, musicados por Caetano Veloso em 1991, foram meu primeiro contato com Galáxias, a obra seminal de Haroldo de Campos. Até então, sabia algo sobre a poesia do outro Campos, Augusto, e tinha alguma familiaridade com o concretismo, que ambos arquitetaram. De qualquer forma, além da canção, que você pode ouvir aqui, não vi mais nada a respeito, até que no sábado de fúria em que eu e Renata fomos à Festa do Livro da USP me deparei com uma edição da 34, reluzente, caprichadíssima, ainda acompanhada de um cd com leituras feitas por Haroldo e Arnaldo Antunes. Resolvi sair da ignorância e, enfim, ler essa maravilha. E que leitura, que leitura!

Poesia, prosa? Prosapoesia, poeprosa? Sem querer dar uma de Haroldo de Campos, longe de mim, a leitura de Galáxias te leva a querer brincar com a língua. Inventar palavras, juntar algumas, fragmentar outras, misturar idiomas, quebrar as regras, abolir as vírgulas, deixar a língua correr solta, fluida, embaralhar, misturar de novo, escrever sobre a escrita, citar os clássicos, beber na fonte das mitologias, trazer a língua das ruas, o canto dos cegos, a poesia dos cordéis, o ritmo da música, a imaginação do poeta, a ciência do linguista, a erudição do filósofo, o som da rabeca, o barulho da feira, o rumor das ruas, o canto dos pássaros, o uivar dos cães, o alemão, o francês, o inglês, o polonês, o espanhol. Fazer um inventalínguas multilinguístico, partindo da língua portuguesa, ser universal e ser local.

Foi esse turbilhão que encontrei em Galáxias. Uma leitura cheia de surpresas, ohs e ahs.

GalaxiasA estrutura do livro te permite ler na ordem que quiser. Tanto que a edição, por desejo do autor, não tem numeração de páginas. Cada texto ocupa uma página, à direita, deixando a esquerda em branco, um respiro. Cada página deve ser lida de um fôlego só. Ela se completa. Mas também se conecta com os outros textos. Na ordem que o leitor quiser. Optei pela linearidade, mas ainda vou fazer percursos aleatórios nas já obrigatórias releituras que virão.

Cada palavra é uma estrela ou um planeta. Cada junção de palavras, um sistema solar. Cada página, uma galáxia. Nessa cosmogonia haroldiana, o grande ser, aquilo que está acima de tudo (ops), melhor dizendo, aquilo que tudo permeia, é a linguagem. E em cada galáxia há um recado, como neste trecho:

 

 

“mas um livro pode ser uma fahrkarte bilhete de viagem para uma aoléuviagem áleaviagem e tudo se diz importa e nada que se diz importa porque tudonada importa aqueles brutos blondos bárbados massacraram todos os juden de praga agora uma sinagoga uma parede rendada labirintorrendada noessobrenomesssobrenomesssobsobre nomes e são todos os mortos todos os milmuitomortos como um arabesco”

Porque tem política e tem contexto em Galáxias.

Escritas ao longo de treze anos, entre 1963 e 1976, publicadas em fragmentos e só consolidadas em uma edição definitiva em 1984, as galáxias de Haroldo de Campos são também retrato de uma época. A Guerra Fria comia solta. A ditadura brasileira descia o pau na oposição. E o poeta embutia nos textos suas ideias de mundo. Porque a linguagem nunca é desprovida de ideias políticas e posicionamentos. Nunca é neutra. E Haroldo habilmente dá os seus recados, faz uma leitura de seu tempo, traz para dentro do texto a contracultura, a cultura popular, o pensamento libertário, o humanismo. Tudo aquilo que a ditadura odiava, mas que a inteligência dos censores não alcançava nas sutilezas do texto. Tudo aquilo que os movimento de ódio e intolerância dos dias atuais não conseguem perceber.

Assim como Guimarães Rosa e seu grande sertão, todo brasileiro deveria ter o direito de ler e entender Galáxias.

 

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