5 coisas marcantes em ‘Grande sertão: veredas’

Tem livros para os quais a gente precisa voltar de vez em quando e Grande sertão: veredas certamente é um deles. Terminei a primeira releitura nas últimas semanas, mais de 10 anos depois da primeira jornada, e o  resultado? Gostei ainda mais do romance de Guimarães Rosa, que já era um dos meus preferidos da vida.

Grande sertão: veredas cresce proporcionalmente à maturidade do leitor – não só na idade, mas também na experiência literária. Lembro que fiz uma primeira tentativa de leitura que ficou interrompida, ainda na faculdade, mas só o encarei mesmo em 2006, por conta de uma série de eventos que envolvem uma viagem à Argentina, um marido esquecido, a falência da Varig e o Museu da Língua Portuguesa (parece conversa de doido, mas é verdade – vejam o vídeo ao final do post).

Nessa primeira leitura, lembro que o livro me domou. O texto inspirado na oralidade do sertanejo mineiro pede calma, pausas e suspiros, que uma apressada Renata na época não estava acostumada a conceder aos livros. O primeiro encontro com o romance foi de uma atenção muito grande à forma, tão diferente de tudo que já tinha passado na minha mão.

Nesta segunda leitura, já comecei fazendo uma leitura sonora: não exatamente em voz alta o tempo todo, mas sempre buscando, dentro da cabeça, ouvir o timbre de Riobaldo naquele enorme diálogo que é o livro. Além dessa outra experiência com a linguagem, também consegui ir além da narrativa para perceber os grandes temas humanos tratados por Guimarães Rosa ao longo do romance.

Neste post, faço um apanhado de algumas coisas que mais me impressionaram nesta segunda leitura. Nada disso aqui é novidade, pois são todos aspectos já tratados à exaustão por pesquisadores e estudiosos da obra de Guimarães Rosa. Mas como esta não é a minha praia, trago pra vocês as percepções de uma leitura apenas curiosa, sem pretensão acadêmica alguma. O exemplar dessa releitura é o que foi lançado este ano, em edição caprichada da Companhia das Letras.

No final, acrescentei um vídeo em que falo da minha história pessoal com Grande Sertão: veredas, desde aquele longínqua tarde em julho de 2006. É uma história engraçada, emocionante e cheia de reviravoltas. Aproveito também para reforçar alguns pontos do livro e mostra meus exemplares. 

Mas vamos ao que interessa, a lista de 5 coisas que me marcaram nessa releitura:

 

1. Aquele começo desconcertante 

O primeiro parágrafo de Grande sertão: veredas é um vendaval. Começa com um travessão (ou seja, é um personagem falando), seguido da palavra Nonada, de uso incomum na língua portuguesa. Só nisso qualquer levaria qualquer leitor incauto a franzir a testa e ficar repetindo em estado hipnótico nonadanonadanonadanonada por uns bons minutos. Foi o que aconteceu comigo. Mas o que vem depois é ainda mais surpreendente. Em poucas linhas, esse personagem que ainda não sabemos quem é tenta tranquilizar o seu interlocutor a respeito de tiros ouvidos ao longe. Não foram de briga entre homens – dessa vez – e aí o leitor já se põe em estado de tensão pelo que está por vir. Ainda nesse primeiro parágrafo, o personagem menciona o demo encarnado num bezerro nascido com cara de gente e inicia seus aforismos sobre o sertão – até culminar na frase “O sertão está em toda parte”. Guerra, o bem contra o mal, um sertão infinito, tudo num só parágrafo.

 

2. É a história de amor mais dolorida da literatura brasileira – quiçá, do mundo

[Ok, vamos convencionar que não há spoiler possível num livro que foi minissérie da Globo, né? Mas caso você seja um dos raros seres humanos que não sabe nada sobre o enredo, melhor pular para o próximo ponto]. 

Uma coisa que eu não lembrava é que a história de Grande Sertão não se desenrola cronologicamente – pelo menos, não na parte inicial do livro. Temos o velho jagunço Riobaldo fazendo um balanço de sua vida de maneira meio aleatória, encadeando assuntos e abandonando-os em seguida, para voltar a eles páginas depois. Mas a história do seu amor frustrado aparece desde muito cedo, e sem meias palavras. Logo nas primeiras páginas ele se refere à paixão que tinha pelo jagunço Diadorim e sua luta interior para sublimar o desejo de realizar essa paixão. Por todo o livro ele falará disso e vai se referir ao colega com palavras doces e angustiadas. O resultado é que você rói esse osso junto com o Riobaldo o romance inteiro, como nem Shakespeare conseguiu com Romeu e Julieta (sem exagero). No final, quando Diaodorim morre e apenas ao ver seu corpo inerte Riobaldo descobre que ele era uma mulher, você tem vontade de cortar os pulsos.

É dolorido mesmo pra quem já sabia do desfecho. Mas fico imaginando a repercussão do romance entre leitores dos anos 1950, quando Grande sertão: veredas foi lançado. Porque, para todos os efeitos, Riobaldo se apaixonou foi por um cabra macho igual a ele, valente e brigador, e foi por esse homem que ele teve desejo sexual e de carinho. Que Diadorim fosse uma mulher o tempo inteiro é um plot twist que, penso eu, Guimarães Rosa usou pra despistar a si mesmo e as suscetibilidades dos leitores da época. Na real, esse livro é um romance gay de cabo a rabo – cujo maior vilão é o armário.  

 

3. Um sertão bem diferente daquele que você acha que conhece…

Sei que para a maior parte das pessoas, “nordestino” é sobrenome de “sertão”, como se uma coisa estivesse fatalmente ligada à outra. Ora, nem tudo no Nordeste é semiárido, nem todo o sertão está no Nordeste. E este de  Guimarães Rosa é o do norte de Minas Gerais, bastante influenciado pelo São Francisco e seus vários afluentes, como o de Janeiro e o Urucuía. É tomado de buritizais, úmido, florido e verde – cor que aliás tem uma enorme importância no livro, pois é a cor dos olhos de Diadorim. Para Riobaldo, tudo se mistura: o verde do sertão e os olhos de seu grande amor, numa infinita imensidão.

 

4. …mas também muito parecido em outras coisas. 

O sertão mineiro é como o nordestino em muitas coisas: uma terra inóspita, de poucos habitantes e quase nenhuma influência dos poderes constituídos. Nesse vácuo, a autoridade é exercida pela força e pelo dinheiro, de um lado por fazendeiros ricos de dinheiro, de outro por bandos de jagunços fartos de coragem e intempestividade. Os modos e práticas dos jagunços são parecidas em muitas coisas à dos cangaceiros nordestinos, desde a noção de hierarquia nos bandos às formas de se impor pelo terror. Enquanto lia Grande Sertão, lembrei em muitos momentos dos trabalhos de Frederico Pernambucano de Mello sobre Lampião (veja a última resenha do livro dele).

 

5. É um livro sobre ética e justiça, numa perspectiva filosófica 

Quando não existem Leis, quem decide o que é certo ou errado? Mesmo as Leis – são sempre justas?

Na retrospectiva que faz de sua vida, Riobaldo tenta fazer o balanço de suas decisões, especialmente no período em que se tornou chefe de seu bando de jagunços.  Num sertão invisível para as instituições vigentes, a Lei era dada pelos costumes locais, pela lógica e pela capacidade individual de avaliar situações sob um ponto de vista ético. Riobaldo não era um jagunço qualquer: ele estudou o suficiente para se tornar professor de letras de um fazendeiro e, embora não tenha evoluído em sua formação, trazia em si inquietações nada simplistas. A existência ou não de deus e do demônio é um tema recorrente em sua fala durante o livro. Quando ele se torna chefe do bando, o poder faz com que tome atitudes antes impensáveis diante de pessoas mais fracas – seria o demônio ele mesmo, seduzido pelo poder?

Em uma das passagens emblemáticas do livro, o fazendeiro Zé Bebelo é capturado e julgado pelos chefes jagunços que tinha se proposto a matar em seu projeto de pacificar o sertão. Cada chefe dá o seu veredito, e no fim Zé Bebelo é absolvido da pena de morte, condenado apenas a deixar o sertão. O argumento mais desconcertante é dado pelo jagunço mais velho: “Que crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço – aos peitos, papos. Isso é crime?”

Qualquer curso sério de Direito devia estudar esse livro. Na boa.

 

E por último…

O prometido vídeo. Aqui, mostro minhas edições de Grande Sertão e complemento o post com histórias pessoais. Se gostar, por favor, assine o canal para receber novas notificações.

 

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Um comentário sobre “5 coisas marcantes em ‘Grande sertão: veredas’

  1. Que vontade de ler de novo! É meu livro favorito, e todo ano releio partes. Há dois fiz a última releitura completa.
    Amei o texto, o vídeo e o tecer da história da Renata com este livro. Obrigada por compartilhar!

    Curtido por 2 pessoas

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