3 crimes que abalaram São Paulo

Acompanho a obra do cientista político e historiador Boris Fausto desde os anos 1980, com especial atenção para seus textos a respeito dos movimentos operários do início do Século XX e estudos sobre a imigração. Há algum tempo vi o lançamento de O crime no restaurante chinês, que trata de carnaval, futebol, justiça e criminalidade da São Paulo dos anos 1930. Ainda não li, mas meu interesse ficou redobrado depois da leitura do ótimo O crime da Galeria de Cristal: e os dois crimes da mala – São Paulo, 1908-1928, lançado pela Companhia das Letras em abril de 2019.

O CrimeDevorei as 255 páginas em poucas horas de leitura nos cafés matutinos com Medeia, a beagle que curte me acompanhar cedinho e ganhar os biscoitinhos da cafeteria enquanto me debruço sobre livros.

Boris Fausto conta ao leitor, com riqueza de detalhes, três crimes de grande repercussão que abalaram a então provinciana e pequena, mas fervilhante, cidade de São Paulo em um intervalo de 20 anos. Em fevereiro de 1909, no centro da colina histórica, um jovem é conduzido a uma armadilha fatal em um hotel da rua XV de Novembro. No quarto, é assassinado pela antiga amante e por seu marido.

Em setembro de 1908, um jovem passageiro de um transatlântico é flagrado tentando jogar ao mar uma pesada mala com um conteúdo macabro: o cadáver de seu patrão, um comerciante da 25 de março. E no ano de 1928, a cena quase se repete, quando o forte cheiro de uma pesada bagagem embarcada em outro navio destinado à Europa levanta suspeitas e acaba por revelar a presença de pedaços em decomposição do corpo de uma mulher.

Não cabe aqui entrar em detalhes sobre os crimes, porque vale mesmo a pena ler os relatos precisos e saborosos de Boris Fausto.

A primeira observação importante sobre a obra é a qualidade da escrita. Fausto se insere no seleto clube dos acadêmicos que escrevem com fluidez, clareza e técnicas jornalísticas ou literárias que deixam seus textos atraentes, sem perder profundidade e também sem deixar de lado as referências das fontes de pesquisa. No Lombada, você encontra esta resenha do literalmente saboroso livro de Frederico de Oliveira Toscano sobre a influência dos hábitos gastronômicos franceses no Recife da virada dos séculos XIX e XX. Em suma, esse time, a quem também se junta a historiadora Lilia Schwarcz, não se prende às normas ABNT e trata bem de seus leitores.

Os relatos sobre os crimes são basicamente oriundos de três fontes. Os processos na Justiça e os inquéritos policiais, do lado oficial da coisa toda. E as matérias dos jornais da época, com destaque para os paulistanos “O Estado de São Paulo”, “Correio Paulistano” e “O Commercio de São Paulo”, além do carioca “O Paiz”, que, cada um a seu modo, deram ampla cobertura aos rumorosos casos.

A narrativa não se atém aos crimes. Perpassam pelos capítulos cenas e acontecimentos da cultura, da economia e da política. Em meio à apuração de um dos crimes, a vida política da cidade passa por turbulências. Entre a São Paulo de 1908 e aquela de 1928 há um salto populacional. A cidade passa de pouco mais de 250 mil habitantes para uma massa crescente de mais de 700 mil pessoas. Não escapa ao historiador o aumento da tensão entre “brasileiros”, descendentes dos colonizadores, e a massa de imigrantes que começa a tomar conta das ruas, do comércio, da indústria e das artes. Dois dos crimes envolvem imigrantes libaneses e italianos e a imprensa da época dá grande destaque a esse fato.

No crime da Galeria de Cristal o assassinato é cometido por uma mulher. Nos crimes das malas, as motivações dos assassinos são passionais. Nos três casos, as acusações da imprensa e a opinião dos paulistanos divide opiniões e traz à tona o machismo e a forte opressão a que eram submetidas as mulheres daqueles tempos. Também está presente em um dos julgamentos a construção de uma tese jurídica que se enraizaria em nosso ordenamento legal provocando estragos consideráveis. O crime de honra, que vai justificar (e ainda justifica) milhares de feminicídios. Pois é, gente, foi aí que essa hedionda tese se estabeleceu.

Um capítulo à parte nas histórias narradas por Boris Fausto é a descrição dos júris populares quando os réus foram levados a julgamentos longos, cansativos e concorridos. Pessoas comuns e estudantes de direito, advogados, jornalistas e políticos, se engalfinhavam na entrada do Fórum para conseguir um lugar e poder acompanhar os relatos da desgraça alheia, além de aprender com os renomados advogados e juízes envolvidos nessas batalhas jurídicas.

O papel da imprensa ganha relevância e parece que temos aí uma prévia do que viria a ser o gosto do paulistano pelos crimes bárbaros. Em uma cidade ainda pequena, começa a germinar o medo da rua, a propagação da ideia de insegurança, que hoje alimenta os programas sensacionalistas, os esquemas de segurança privadas, os carros blindados e as cercas elétricas e altos muros dos condomínios. Estava tudo ali, fermentando junto com o bolo do crescimento desordenado e hiper-acelerado da cidade que viria a se transformar em uma megalópole confusa, medrosa e desigual. Nos jornais, as coberturas se diferem de acordo com as linhas editorais. O já vetusto e liberal Estadão não foge aos fatos, mas procura um tom mais comedido, com um certo moralismo. Entre os outros jornais, que já não existem mais, alguns, alinhados com os movimentos operários, buscam entender as razões dos crimes e chegam até a apoiar a autora do crime da Galeria. Outros, despencam para o sensacionalismo e buscam o sangue e a justiça a todo custo. E os jornais e revistas da então capital da República ironizam o provincianismo, destacando o quanto São Paulo estava se tornando perigosa.

Por fim, O crime da Galeria de Cristal apresenta ao leitor três figuras centrais, em torno das quais as narrativas dos fatos se desenrolam. E são três figuras marcantes.

Albertina Barbosa, a protagonista do crime da Galeria, que atrai para si a compaixão e o apoio de parte da imprensa e da sociedade, adiantando em seu julgamento alguns temas caros ao feminismo, que só eclodiriam com força entre nós anos mais tarde, com os movimentos sufragistas.

Michel Trad, o jovem e ambicioso imigrante,que cobiça a mulher de seu patrão e planeja em detalhes um crime quase perfeito. Trad tornou-se uma figura de grande interesse público. E, durante o tempo em que os julgamentos aconteceram, escreveu na prisão um diário, com pretensões artísticas, que acabou publicado em jornais da época e cuja reprodução fecha o livro de Fausto.

E Giuseppe Pistoni, que enlouquecido de ciúmes e insegurança, levantando, 20 anos depois, a sombra já quase esquecida de Trad. O italiano reacende entre os paulistanos aquela história e fica no centro de acalorados debates sobre honra, traição, culpa e inocência.

Na introdução do livro, Boris Fausto fala de como a pesquisa histórica pode se aproveitar dos fait divers de uma sociedade para construir o retrato de uma época, uma história das mentalidades. Por isso, partiu das fontes oficiais, quando fazia pesquisas para uma obra anterior sobre crime e cotidiano, e nos brindou com essas saborosas histórias, de crimes trágicos, é claro, mas que contam muito sobre a paulistanidade.

 

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