O que é ser normal?

O nome de Sally Rooney, jovem escritora irlandesa, já vinha se apresentando há algum tempo, desde o lançamento no Brasil de seu primeiro romance, Conversas entre amigos, publicado no Brasil em 2017 pela Alfaguara. E eis que apareceu no catálogo de lançamentos da Companhia das Letras, editora parceira do blog, o romance Pessoas normais. Resolvi arriscar, com a impressão de que leria algo escrito para adolescentes, o que não seria necessariamente um problema.

Então, fui à leitura.

Pessoas normaisComecei a conviver com Connell e Marianne, colegas de infância, em uma pequena e sem graça cidade do norte da Irlanda. Frequentam a mesma escola e fingem não se conhecer. Mas se conhecem. E mais do que qualquer pessoa do colégio possa supor. Marianne é bem nascida. Mora com a mãe, viúva, em uma casa que poderíamos chamar de mansão. Connel vive também com a mãe em algo que seria, no Brasil, uma unidade habitacional do “Minha casa, minha vida”. Além disso, a mãe de Connel, cujo pai ausente é um dos muitos abandonadores de crianças, é diarista na casa de Marianne. E vem daí a convivência entre os adolescentes. Connell com frequência vai à casa de Marianne. Eles conversam, tomam o café da tarde juntos. Mas, na escola, se ignoram.

Rica, bem posta na pequena sociedade local, Marianne é uma rebelde sem causa. Se isola, evita o contato social, é alvo de brincadeiras maldosas na escola e quando se torna centro de alguma brincadeira sacana, aquilo que hoje chamamos de bullying. Já Connel, malgrado sua origem modesta, é bom esportista, disputado pelas meninas e popular no ambiente escolar. Ambos são bons alunos, destacam-se ao seu modo nas notas altas, apontando para um futuro promissor em boas universidades.

Em meio a essa aparente indiferença, a descoberta da sexualidade aproxima Connel e Marianne. Começam a transar, mas em absoluto segredo. Diante da comunidade escolar, são de turmas diferentes, se é que dá pra dizer que Marianne tenha uma turma.

Sally Rooney constrói essa trama com pequenos saltos temporais. O romance começa em janeiro de 2011 e tem seu desfecho em fevereiro de 2015. Os pulos de alguns meses são engenhosos nessa narrativa que tem uma linearidade quebrada pelos intervalos. A cada novo salto, mudanças importantes acontecem nas vidas das personagens, provocando sobressaltos e surpresas no leitor. Tanto que a cada fim de capítulo fica uma comichão para a leitura do próximo, já que certamente nesse intervalo em que não participamos das vidas desses jovens estudantes alguma coisa de relevante aconteceu.

Também é notável a forma como os diálogos são recheados com o fluxo de pensamento deles. Um diz “eu te amo”, o outro(a) pensa e duvida, “será verdade?”, antes de responder “eu também”. São jogos rápidos de palavras e pensamentos que dão fluidez à leitura.

Nesses quatro anos, muitas transformações acontecerão com os nosso heróis. Entrada na universidade, mudança para Dublin, bolsas de estudos generosas, o talento de cada um em sua área de escolha, as idas e vindas da relação entre ambos. Distantes do mundo de aparências da pequena cidade natal, conseguem se assumir amigos, por vezes amantes e aos olhos de pessoas mais próximas, namorados. Nesse ponto, há uma virada de chave. No ambiente universitário, é Marianne quem se torna mais aberta, transitando por vários grupos sociais, enquanto Connel se retrai, manifestando uma timidez que não tinha na escola secundária.

A história do casal é pano de fundo para reflexão sobre os ritos iniciáticos da adolescência e a transição para a entrada na vida adulta. Solidão e deslocamento, as pressões para integração aos grupos sociais, a depressão e o suicídio como algo latente em muitas cabeças, a construção da ideia de o que são “pessoas normais” e a necessidade que uma parcela dessa galera tem de flertar com a transgressão e não aceitar papeis pré-determinados.

É um livro para adolescentes? Também. Mas é uma obra fluida, bem escrita e bem traduzida, que merece ser lida.

Pessoas normais é também um livro sobre amizade e amor. Connel e Marianne tentam a todo custo ficar separados. Em muitos pontos da história, ficamos com a sensação de que nunca mais estarão juntos. Mas essa parece ser uma hipótese que está fora do controle deles.

P.S.: a foto em destaque é de tela do artista argentino Julio Le Parc, fotograda em exposição no Instituto Tomie Ohtake em 2018.

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