Como a literatura muda o mundo

– Afinal, qual o papel da literatura?

Esta é uma pergunta feita dezenas de vezes a escritores por jornalistas e mediadores de festivais literários. “Qual o papel”, neste caso, sendo uma tucanada da real provocação – “afinal, para que serve a literatura?”. Não é uma pergunta injusta. Em um mundo com tantos e tão crescentes problemas, porque alguns de nós nos apegamos tanto aos livros e às histórias?

De certa forma, O mundo da escrita, de Martin Puchner, ajuda a responder essa questão. Publicado em 2019 pela Companhia das Letras, o livro já foi comparado ao best seller Sapiens, do historiador israelense Yuval Harari em sua proposta de apresentar um passeio pelos textos fundadores de várias civilizações do mundo. O que é um ponto de partida bem interessante: terminei esse livro com uma vontade absurda de ler pelo menos cinco outros.

“Textos fundamentais alteram a maneira como vemos o mundo e também como atuamos nele”, explica o autor logo nas primeiras páginas. É uma definição simples, mas eficiente para o efeito que ele busca ao longo do livro. Puchner elenca textos promotores de mudanças estruturais na sociedade e que também foram acompanhados por saltos técnicos – difícil dizer na maior parte dos casos quem veio primeiro.

O livro é organizado em capítulos para cada texto abordado, e eles entre si ordenados de forma mais ou menos cronológica. Puchner teve a preocupação de apresentar diversidade, trazendo para sua lista tanto os clássicos da literatura ocidental como os do Oriente; tanto textos da Antiguidade quanto contemporâneos. Assim, começamos a jornada com a Ilíada, de Homero, a e terminamos com a série Harry Potter, de J.K. Rowling.

No caminho, passamos pela Epopeia de Gilgamesh, texto mesopotâmico de quase 4.000 anos; pelo primeiro registro do texto sagrado judaico pelo escriba Esdras (Babilônia, século IV a.C.); pelo Romance de Genji, escrito por uma japonesa mil anos antes de Dom Quixote – que também está na lista – fundando o que conhecemos hoje por romance literário. Há também o Popol Vuh dos maias e a Epopeia de Sundiata, sobre a fundação do império mali – história só registrada por escrito recentemente – e até o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.

Contando a história destas histórias, Puchner também vai registrando o surgimento das tecnologias que contribuíram para ou provocaram sua permanência ao longo do tempo. Por exemplo, é o surgimento do alfabeto fonético que permite o registro e a multiplicação da Ilíada, até então transmitida oralmente como um canto. Mas o poder, é claro, tem também o seu papel nessa sobrevivência. A Ilíada era livro de cabeceira de Alexandre, o Grande, que ia para suas campanhas de conquista levando na bagagem a cópia anotada pelo seu mestre, Aristóteles. Alexandre também queria ser um herói digno de cânticos; guerreava à sombra de seus personagens favoritos, e espalhava cópias do texto em grego pelos lugares que conquistava, como forma de divulgar e estimular o aprendizado do idioma como a língua comum de seu vasto império.

História parecida é a da Epopeia de Gilgamesh e o rei assírio Assurbanípal. O texto remonta à própria criação da escrita, ainda em símbolos cuneiformes talhados em barro. Sua própria sobrevivência é quase um milagre: algumas tábuas em que a história estava registrada foram descobertas apenas no século XIX por exploradores ingleses, e incrivelmente preservadas, ainda que feitas de um material tão frágil. Já a popularização do Romance de Genji é debitário da criação da imprensa na China, tecnologia que Gutenberg iria revisitar e melhorar séculos mais tarde na Alemanha, imprimindo outro texto fundamental para o Ocidente: a Bíblia traduzida pelo monge Martinho Lutero.
Embora pouco profundo, O mundo da escrita é um excelente panorama universal sobre as várias contribuições da literatura para a existência humana. Obviamente, nem todos os textos do mundo terão o papel fundamental quanto os mencionados aqui. Mas, como diz o próprio autor:

“A história da literatura é a história da queima de livros – um testemunho do poder das histórias escritas”.

Se não o tempo inteiro, a literatura serve periodicamente para mudar as estruturas da existência humana coletiva. E, no dia a dia, para divertir, instruir, emocionar ou no mínimo para incomodar uns bolsominions – o que também já está de ótimo tamanho.

Um próspero e cheio de livros 2020 a todos.

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