O sci-fi da meritocracia

Alguns posts atrás escrevi sobre A tirania do mérito, ensaio crítico do filósofo americano Michael Sandel contra a centralidade da meritocracia no mundo contemporâneo. Semanas depois, em curta temporada de férias na praia, levei Piano mecânico, primeiro romance do também americano Kurt Vonnegut, autor cultuado por suas criações em ficção científica satírica. O nome sempre me rondou mas, honestamente: comprei o livro pela capa, um belo trabalho de Túlio Cerquize para a editora Intrínseca, não lembro mais em que livraria de Pinheiros.

Sabia vagamente que Vonnegut escrevia ficção científica, e não sabia NADA sobre Piano mecânico até começar a lê-lo, mês passado. Se eu tivesse feito uma pesquisa deliberada para encontrar um romance que se encaixasse ao ensaio de Sandel, teria falhado miseravelmente. Mas o acaso, senhoras e senhores, nunca falha. Conceitos discutidos à luz da filosofia, direito e política em A tirania do mérito foram antecipados por Vonnegut em sua especulação sarcástica sobre como seria o mundo depois da Terceira Guerra Mundial. Em uma frase:

No dialeto ao norte do rio, foi o know-how que venceu a guerra. A democracia devia sua vida ao know-how.

Nesse futuro imaginado por Vonnegut, engenheiros e gestores estão no topo da pirâmide numa sociedade que passou a ser inteiramente regulada pelo mérito intelectual: testes de QI e aptidão determinam antecipadamente que tipo de posição e emprego uma pessoa poderá ter, e isso jamais poderá ser mudado. Uma vez que basicamente todas as atividades produtivas já são desempenhadas por máquinas – muito mais eficientes e menos afeitas a falhas – resta pouco a fazer para a maioria dos americanos.

O que não significa que passem necessidade: de maneira absolutamente calculada, conclui-se que, no cômputo geral, é mais barato garantir a subsistência de todos com um mínimo de conforto (casa, comida e televisão), mesmo que não façam nada ou se ocupem em atividades desnecessárias. Nesse quadro, os reis são os engenheiros e gestores, responsáveis, respectivamente por criar e aperfeiçoar as máquinas e por gerenciar as fábricas e o modelo produtivo. Uma situação em que, para todos os efeitos, a Terra havia se tornado um lugar agradável e conveniente.

Será?

Paul Proteus é o engenheiro que faz as vezes de personagem central em Piano mecânico. Chefe da fábrica de Ilium, em Nova Iorque, ele é rico, casado com uma beldade e está prestes a ser promovido para um cargo ainda mais alto. Mas Paul não é inteiramente feliz e, embora não tenha muita consciência disso, atravessa com frequência o rio em direção ao lado pobre da cidade, onde vivem os desocupados, para tomar cerveja em um bar decadente. Lá, ele conhece pessoas que, embora tenham tudo o que precisam, são declaradamente infelizes – de tédio por não participar da vida produtiva e pela impossibilidade de exercer talentos e habilidades não valorizados nesse mundo dominado pelas máquinas.

A chegada a Ilium de um amigo também engenheiro, mas de natureza inconformada, leva Paul a questionar esse estado de coisas e o seu papel nele, até se desligar estrepitosamente da empresa em que era até então uma estrela e se envolver num movimento popular que acaba numa desastrada revolução.

Piano mecânico questiona a meritocracia e a tecnocracia em termos muito parecidos aos de Michael Sandel: nascer exatamente com os talentos valorizados numa determinada época não é mérito, mas mero acaso. A razão da insatisfação das classes populares não é apenas a pobreza e a imobilidade social, mas o fato de que acabam excluídas do debate e das decisões políticas, em detrimento de uma elite tecnocrata – às vezes eleita, e muitas vezes não – que toma decisões tecnicamente corretas, baseadas em estatísticas, mas pouco atentas ao componente humano. Estar fora desse jogo, coincidem Sandel e Vonnegut, é estar destituído de dignidade.

“Agora as máquinas fazem todos os trabalhos perigosos, e quem é burro, quem é idiota, acaba enfiado em aglomerações de casas pré-fabricadas que mais parecem um tabuleiro de Banco Imobiliário no fim da partida. (…) Parece mesmo que as máquinas roubaram todos os empregos decentes em que um homem podia ser verdadeiro consigo mesmo e deixaram sobrando só os trabalhos mais ridículos”.

[Rápida pausa: trabalhei com um gestor público que não conseguia entender como cidades do interior com poucos milhares de habitantes se dispunham a investir um dinheiro que às vezes não tinham na construção de velórios para seus cemitérios – já que tão pouca gente morria a cada ano, seria um desperdício, na visão dele. Mas ocorre que somos gente, e gente às vezes tem idiossincrasias inscritas no plano simbólico, pouco afeitas às estatísticas. Por exemplo, velar um morto junto à sua comunidade.]

Vonnegut explora as contradições da meritocracia e da tecnocracia a partir da sátira, exacerbando situações até o limite do tragicômico – quando, por exemplo, um engenheiro das fábricas de Ilium, brilhante, porém preso a um cargo subalterno por seus resultados regulares nos testes de aptidão, cria uma máquina capaz de fazer a tarefa que lhe cabia até aquele momento. Ele é imediatamente demitido por ter tornado desnecessária sua própria função.

Piano mecânico ataca o tempo inteiro a hiper valorização da engenharia e da administração como ciências aplicadas voltadas a resultados; no mundo imaginado no romance, nem a arte e nem a ciência pura têm lugar (o livro, lembremos, foi escrito há quase setenta anos, no início dos anos 1950, e é incrível como em pleno 2021 esse discurso não só tem lugar como está muito bem alojado, obrigado, na Presidência da República do Brasil).

A crítica termina sendo também ao povo americano e à própria ideia de revolução popular. No fim das contas, o autor parece postular a necessidade de uma democracia representativa forte, capaz de aliar política e técnica na hora da tomada de decisões.

Como criação estética, o livro tem uma indefectível levada norte-americana, sardônica, autorreferente e às vezes boçal, da qual não sou especialmente fã. Poderia ter umas 150 páginas a menos tranquilamente. Não sei se lerei outra obra de Vonnegut tão cedo mas, para quem gosta de ficção com humor, é certamente uma boa indicação.

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