O país da violência normalizada

Confesso que ignorava a figura e a obra do mineiro Mário Palmério até ler uma nota de jornal sobre o relançamento de seu cultuado romance, Vila dos Confins. Foi o suficiente para correr na livraria mais próxima e comprar meu exemplar. De cara, descobri que ele também é autor de Chapadão do Bugre, que foi adaptado para a telinha em minissérie produzida em 1988 pela TV Bandeirantes, com direção de Walter Avancini e Jardell Mello e um enorme e estelar elenco encabeçado pelo personagem principal, vivido por Edson Celulari. Ainda vou falar mais de Palmério, mas, vamos ao livro.

A leitura começou alguns meses depois da compra, porque a fila era (sempre é) extensa. E já fui pego pelo primeiro capítulo, que apresenta o ambiente da narrativa, com um parágrafo inical em que as palavras nos levam a imaginar uma paisagem de forma magistralmente simples e concisa.

“O sertão dos Confins é um mundo de chão arenoso e branco, que principia na serra dos Ferreiros e acaba no ribeirão das Palmas. Esses, os limites que lhe dá o padre Sommer, a pessoa mais abalizada daqueles fundos, no dizer geral”  

Nessa abertura, o leitor já se depara com o primeiro grande personagem do romance: o sertão. O narrador logo avisa ao leitor que a “a Vila dos Confins não aparece em mapa algum, a despeito de existir o lugarejo desde o tempo das sesmarias, a culpa não é da Vila nem de ninguém de lá. Culpa mesmo do governo, que, afinal de contas, sempre foi, é e será ele o culpado de tudo o que acontecer de errado e malfeito por esse mundo de Nosso Senhor.”

E então surge o segundo grande personagem, ou pano de fundo da história, a política. E junto com a política, entra em cena, já no segundo capítulo, o personagem humano principal de uma saga de muitos e variados personagens, Paulo, que chega à Vila dos Confins para comandar um dos partidos que pleiteiam eleger o primeiro prefeito e os primeiros vereadores de um lugarejo que acaba de ser emancipado. Trata-se de uma eleição isolada, que antecederá um período eleitoral nacional agendado para mais adiante.

Paulo é deputado federal. Nascido e criado naquelas bandas do sertão mineiro, alfabetiza-se, superando a sina de ficar na terra cuidando de gado e plantando milho. Estuda na capital e entra para a política em um partido considerado mais progressista, mas alinhado com o poder federal.

Ele volta aos grotões para tentar vencer uma eleição que é considerada chave para antecipar o cenário do pleito geral que se avizinha. Vai entrar em combate feroz com os “liberais”, estes alinhados com o governo estadual, e, para isso, precisa visitar lideranças políticas locais, o que, no sertão, quer dizer fazendeiros, padres, juízes e promotores, comerciantes e os capatazes que mantém a massa de eleitores no cabresto.

Começa então um périplo pelos rincões dos Confins. Palmério alterna capítulos em que acompanhamos as andanças de Paulo e seus correligionários com histórias dos seus adversários. E leva os leitores a mergulhar em um universo de violência escancarada. Do padre ao capataz, todos andam armados. A política é feita com base em intimidações. É um tempo em que só alfabetizados votam, mas sempre se dá um jeito de alfabetizar quem vai votar a favor do seu partido. A votação é feita com cédulas distribuídas pelos candidatos e o sistema eleitoral, feito no papel, é completamente viciado. E ainda tem gente hoje que deseja a volta do voto impresso. Por que será?

O jogo eleitoral que opõe Paulo e seus adversários é sujo, de ambos os lados. Mas Palmério, habilidosamente, oculta parte dessa sujeira, causando uma simpatia inicial pelos personagens. E há muito o que simpatizar como Xixi Piriá, um caixeiro viajante que atende às mais variadas encomendas dos moradores do local, por exemplo. A vida na Vila e nas fazendas é descrita com detalhes saborosos. Pescarias, histórias de caçadas de onças, a travessia do rio caudaloso, as noites quentes de verão e as andanças que o deputado faz pelos arredores das fazendas onde se hospeda.

No jogo de interesses para conquistar votos vale comer o que vier pela frente, dormir em meio a botijões de gás no depósito do dono da venda, flertar perigosamente com a filha de um coronel influente, ficando no limiar de um desastre político causado por uma transa fortuita e até pegar uma febre terçã que deixa o político de cama por dias a fio.

A capital aparece quando um dos contendores vai em busca de ajuda do governador e de um astuto secretário de Estado. A narrativa dessa visita à cidade grande é impressionante do ponto de vista da linguagem e também reveladora do quanto a violência dos grotões é conhecida de prefeitos, governadores, secretários e assessores que se escondem atrás de um verniz de civilidade enquanto seus votos e apoios são frutos diretos dessa violência. Em troca do apoio, obras para impressionar os eleitores e até a descida de um avião em pleno campo de futebol da Vila com a chegada barulhenta de uma comitiva da capital.

O ponto alto de tensão política se dá quando correligionários das duas correntes políticas ficam frente a frente na praça da cidade na iminência de um grande conflito armado que vai se resolver da forma mais surpreendente para os leitores. E só esse capítulo já vale todo o romance.

Vila dos Confins foi publicado nos anos 1950 e retrata um país ainda muito rural, mas tem uma atualidade impressionante no trato da violência como parte integrante da política. Se você pensou em milicianos, polícias aparelhadas por interesses políticos, racismo estrutural, alijamento das mulheres da vida política, está tudo lá, como está tudo no aqui e agora de nossa política, que deu um cavalo de pau e voltou a naturalizar a violência de forma assustadora.

Palmério publicou o romance em 1956, mesmo ano de Grande sertão: veredas. Como num zeitgeist com a obra de Rosa, escreveu em uma linguagem repleta do ritmo e da sintaxe do sertão profundo das Minas Gerais, com estilo diferente, mas uma prosa que tem muitos pontos de contato com o gênio de Cordisburgo a quem, curiosamente, sucedeu na Academia Brasileira de Letras.

O autor não foi apenas um romancista de mão cheia. Teve uma biografia intensa. Nascido em Monte Carmelo, no Triângulo Mineiro, foi estudar em cidade grande, elegeu-se deputado federal por vários mandatos – mas é preciso ressaltar que o deputado Paulo não parece ser seu alter ego – e investiu parte de sua carreira em projetos educacionais, criando, entre outras instituições, faculdades de direito e de medicina no Triângulo Mineiro.

A nova edição de Vila dos Confins é da Editora Autêntica, que poderia ter caprichado na foto do autor na contracapa, um tanto exagerada. É um clássico para ser lido e que já entrou nas melhores leituras de 2021.

2 comentários sobre “O país da violência normalizada

  1. Oi, Carlos. Informe-se melhor sobre o voto impresso: de modo nenhum significa que o eleitor vá sair com um papelzinho. Quando o eleitor solicita a impressão, antes de confirmar, aparece numa caixa transparente seu voto impresso para que ele possa conferir e confirmar ou corrigir.
    Abs e parabéns pelo trabalho.

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    1. Oi, Alguém. Sou razoavelmente bem informado a ponto de defender o modelo de votação que temos, sem necessidade de voto impresso. Em mais de 20 anos com a urna eletrônica não existem indícios de irregularidades. A alternância de poder em todos os níveis da administração é a maiorr prova de que as urnas não são adulteradas. Talvez você, que sequer se identifica, é quem deveria se informar a respeito do tema. As urnas não são conectadas em rede e a apuração dos resultados é feita em canal seguro. E aí está outra prova. Se hackers entram nos sistemas da NASA, não acha que conseguiriam entrar também nas urnas? Por fim, o voto eletrônico ainda proporciona uma enorme economia de papel e de recursos naturais.

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