Mil tsurus

Clube de assinatura de livros é um negócio muito massa quando a curadoria é boa: receber em casa um livro que você não escolheu, de um autor ou autoria que não conhecia, é sempre uma porta para o infinito. Mês passado, o Lombada virou parceiro do Pacote de Textos, de Fortaleza, e recebemos de boas-vindas um pacote antigo com Mil Tsurus, romance do japonês de Yasunari Kawabata publicado pela Estação Liberdade. Apesar do autor figurar na curta lista dos agraciados com o Nobel de Literatura, nunca tinha parado para prestar atenção nesse escritor e, na real, conheço quase nada de romances orientais – apesar de adorar haicais.

Ambientado depois da Segunda Guerra Mundial, o livro tem como personagem principal Kikuji, um rapaz jovem e órfão que tenta se desvencilhar de um universo particular deixado por seu pai – o da tradicional cerimônia do chá, do Japão. Ritual ligado às práticas taoístas e zen-budistas, a cerimônia tem um forte componente estético, expresso através da forma de se vestir para participar, da escolha dos utensílios e da manutenção de um espaço próprio para o acontecimento. Liderar uma cerimônia dessas requer estudo, e há mestres e mestras no que muita gente considera uma arte.

Na casa dos vinte e poucos anos, Kikuji leva uma vida já mais permeada por hábitos ocidentais. Ao ser convidado para uma cerimônia do chá na casa de uma antiga empregada da família, Chikako, ele se depara com a amante do seu pai, a viúva Ota, acompanhada de sua filha. A situação parece ter sido armada por Chikako para expor a mulher, mas acaba tendo um rumo completamente inesperado: começa uma tringulação de relações amorosas tensas e perspassadas de culpa.

É nesse contexto que os untensílios ligados ao chá serão acionados pelo escritor como metáforas dessas relações, e como testemunhos de uma outra forma de encarar a cultura material. Pois tais untensílios muitas vezes são objetos centenários, que carregam o estilo artístico de seus criadores e a memória das décadas de uso de seus proprietários. A trajetória de cada um deles conta também uma história – como chegou às mãos de tal pessoa, a quem foi dado de presente, quem o herdou quando o proprietário anterior morreu, na companhia de quem era usado.

Tudo isso passa pela cabeça de Kikuji ao se deparar com os untensílios usados por seu pai nas mãos da viúva Ota. Ética, estética, memória, tradição e cultura material – cabe tudo isso num simples chawan, a tijelinha redonda onde o chá é servido, e ele acaba sendo veículo para jogos de dualidade entre vida e morte, perdoar e não perdoar, pureza e impureza, vermelho e preto – às vezes aos pares, às vezes como antíteses. É como exaltar o sagrado do cotidiano, e a estética no cotidiano.

Nessa história, dois homens morreram e duas mulheres continuavam vivas, o que já era bastante para considerar aquele chawan uma peça da mais estranha sina.”

Outro ponto bastante interessante é o mergulho nas profundezas dos pensamentos dos personagens. Poucos autores conseguem nos levar pra junto das sensações quase indizíveis que, no entanto, passam pela cabeça de todo mundo. Enquanto tem um caso com a viúva Ota, Kikuji começa a perceber em si o desejo inexplicável de ser cruel, e o exerce em pequenos atos que, para o mundo exterior, não teriam qualquer motivação abjeta. Como ele mesmo admite, os sentimentos são inquietantes pois, por abjetos que sejam, são também bastante prazeirosos.

Há, é claro, o certo choque com uma cultura inteiramente diferente, que o autor não cai na armadilha de explicar. O leitor que lute para entender o contexto de uma cidade japonesa de meados do século XX, se reconstruindo literalmente do pó depois de uma guerra que aniquilou não apenas edifícios, mas também uma a crença de muitos no modo de vida oriental tradicional. Kikuji e a filha da viúva Ota são figuras de transição, que ainda praticam a cerimônia do chá e se vestem com roupas tradicionais vez por outra, mas já aderem aos hábitos ocidentais da rua pra fora.

O livro é incrível e aí está a beleza do negócio: eu provavelmente jamais teria prestado atenção nele numa prateleira de livraria. A entrega do Pacote de Textos vem com uma sobrecapa do clube, marcador de página e uma cartinha do curador sobre a obra – nesta especificamente, veio um QRCode para receita de tsuru de origami. Já fiz 17, só faltam 983 pra ter meu desejo atendido pelos deuses.

Para quem tem interesse, o cadastro é no site www.pacotedetextos.com.br. Seguidores do Lombada têm frete grátis no primeiro envio com o cupom LOMBADA10.

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