Haicais a brasileira

Muito antes do Twitter limitar a expressão de uma ideia a 140 caracteres, poetas japoneses já praticavam a concisão absoluta por meio dos haikus – poemas curtíssimos que, em apenas três versos, criam imagens ou sensações poderosas, em geral a partir da observação da natureza. O Brasil ainda era uma colônia quando os haikus atingiram seu apogeu no Japão do século XVII e, de certa forma, continuava sendo uma quando foram oficialmente introduzidos no País em 1906, pelas mãos de Monteiro Lobato. Uns poucos poetas brasileiros são amplamente conhecidos por adotarem os haicais (denominação brasileira do estilo), como Paulo Leminski e Alice Ruiz S, mas vários outros, famosos ou não, também se aventuraram pelo estilo ou se dedicaram a estudá-lo.

Lançado este mês pela Companhia das Letras, Haicais tropicais apresenta uma seleção de poemas de vinte autores brasileiros, a maioria obras originais, mas também algumas traduções ou recriações a partir de textos clássicos japoneses – um dos exemplos são os três poemas traduzidos por Aluísio Azevedo para o livro O Japão, escrito entre 1898 e 1899, mas publicado apenas em 1984. Teria sido o primeiro registro de haikus feito por um brasileiro, segundo pesquisa do organizador Rodolfo Witzig Guttilla.

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Aliás, Guttilla fez uma curadoria bem interessante de autores, incluindo desde os famosos Manoel de Barros, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos a escritores desconhecidos do grande público, entre eles alguns que se dedicaram especificamente aos haicais, como a escritora Teruko Oda e Alonso Alvarez, que vem publicando apenas na internet. Organizados por ordem alfabética dos nomes dos autores, cada bloco de poemas é sucedido por uma biografia resumida em que Guttilla discorre sobre a relação do escritor com os haicais, indica a origem dos poemas selecionados e comenta também o que são as bases do estilo japonês e de sua derivação brasileira. Assim, o que seria acessório vira um dos grandes baratos do livro. Aprendemos, por exemplo, que:

> desprendimento do mundo, ausência de moralidade, interesse pelas coisas concretas e aceitação são os estados de espírito típicos dos haikus;

> eles devem também ser permeados de uma “economia de força”: os haikus são essencialmente a busca por versos despojados, simples e soltos, sem amarras como metrificação ou rima, elementos basilares do poema clássico ocidental;

> os haikus podem também expressar um estado de espírito, uma atitude de autoconhecimento e a busca por uma forma particular de enxergar o mundo.

Na variação brasileira selecionada para o livro, há desde os poetas que buscam se ater à estética da arte japonesa aos que agregam o elemento humor:  notei em vários dos poemas que o último verso é talhado para gerar uma surpresa, uma reversão de expectativas ou, para usar um termo da era do Netflix, um plot twist – é aqui que os poemas viram quase microcontos, provocando o leitor a uma narrativa imaginária que está mais fora do que dentro dos versos. Um dos melhores exemplos é este, de Alberto Marsicano:

entre pulgas e piolhos
recostado no travesseiro 
ouvia os cavalos mijarem 

Como indica Guttilla, os haicais também se aproximam da crônica, gênero tipicamente brasileiro, ao abarcarem a vida urbana e cotidiana, muitas vezes em paralelo com a temática tradicional da observação da natureza. São nessa pegada quase todos os meus poemas preferidos da coletânea, como vocês conferem abaixo numa seleção de 10 haicais que escolhi para fechar este post (a ordem é totalmente aleatória):

1) Alice Ruiz S

desacerto

entre nós
só etecéteras

 

2 e 3) Camila Jabur 

sabiá quieto
o silêncio da tarde
pousa na antena 

folhas de outono
na porta de casa
cartas sem dono

 

4) Eunice Arruda 

Nuvens de verão
Passos rápidos na rua
Roupas no varal

 

5 e 6) Fanny Luiza Dupré 

Chuva impertinente…
Lá fora, escorregadio

O asfalto vazio

Passado cativo…
Melancólico trinado.
Gaiola dourada. 

 

7) Gustavo Alberto Correa Pinto 

A rede range
sob o peso do sono
e do almoço 

 

8) Jorge Fonseca Júnior

Este abacateiro
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas

 

9) Paulo Franchetti 

Os grilos cantam
Apenas do meu lado esquerdo – 
Estou ficando velho. 

 

E especialmente para esta semana:

10) Teruko Oda 

Final da eleição – 
O candidato derrotado
sorri no outdoor.

 

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