K.

K. Escrevo com a consciência de quem já foi adepto fervoroso da “arte engajada”. Vivia a adolescência no fim da ditatura, militava na política e nos movimentos sociais e cria na ideia de que a arte deveria transformar as relações sociais. Aos poucos, fui percebendo que boa parte da chamada arte engajada era de uma chatice só. Claro que grandes obras foram importantes politicamente e tinham valor artístico incontestável. “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, pra ficar em um exemplo óbvio, é uma obra de grande valor artístico e que teve um importante papel político.

Esse imenso nariz de cera é pra falar de K. obra de B. Kucinski, jornalista, professor da ECA/USP, que comecei a ler com a expectativa de que iria me deparar com uma obra “engajada”, no pior sentido da expressão. Mas o relato dos esforços de K., pai de Bernardo, para tirar dos porões da ditadura sua filha e seu genro, presos por envolvimento com a oposição ao regime e desaparecidos sem vestígios, vão muito além do engajamento.

É um pequeno (grande) romance que carrega o leitor para o universo de um regime que perseguiu implacavelmente seus opositores. Na figura de K., um sobrevivente do nazismo, entendemos que a maldade não apenas carece de limites, como é praticada por pessoas que vivem seu cotidiano como quaisquer outras.

Livro para ler de um fôlego só, emocionante e tocante sem ser piegas ou forçosamente engajado.

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