Tempo, memória e livros.

Um livro sobre a memória. Um livro sobre o tempo. Um livro sobre livros. Fita azul, de Edmar Monteiro Filho, é um tratado lírico a respeito das marcas que a passagem do tempo deixa em nossas lembranças. O que retemos do passado é real? Ou estamos sempre a reconstruir os eventos ao sabor de nossas conveniências? Essa é a dúvida que permeia a reconstrução das memórias da narradora, uma mulher de 130 (!) anos, que se põe a fazer um diário de sua vida pregressa e, a certa altura, lembra que ouviu dizer “que a memória de certos eventos se apaga, como forma de preservar contra o sofrimento”.

Revirando os guardados de um fundo de armário, a narradora de Fita azul nos leva a momentos cruciais de sua longa vida. Da infância, na cidade paulista de Amparo, passando por um longo desterro no cerrado goiano até o retorno à Amparo natal, já na maturidade, ela relata o peso da religiosidade em sua formação, a preferência nítida do pai, o poderoso “Delegado” pela irmã mais velha, a submissão da mãe, mergulhada em rezas, novenas, terços e dedicada à costura “para fora” e à cozinha, onde faz comida incessantemente para os convidados do marido.

Um autor que escolhe a narrativa sob a perspectiva de uma mulher corre sérios riscos de cair em clichês. Edmar Monteiro Filho construiu uma prosa extremamente verossímil, longe de qualquer tentação de uma escrita “feminina”, nos traz uma personagem muito bem estruturada. Uma mulher conservadora, resistente às mudanças provocadas pelo tempo nos costumes e na paisagem urbana, resignada ao papel que a família lhe impõe, acreditando que só deus, a quem apela incessantemente por meio de santos e anjos da guarda, poderia lhe reservar um destino melhor.

Mas suas preces parecem atrair o contrário que pede. “Se rezo aos santos, peço aos meus mortos, sou ignorada, minha voz vagando no espaço como um bilhete rascunhado de minha caligrafia de professora?”, pergunta, em um misto de revolta e aceitação do que lhe é imposto pelas divindades.

Essa mulher vê o sofrimento se instalar em uma família que parece fadada à tragédia, no qual suicídios, filhos bastardos e homens brutos marcam os acontecimentos das sucessivas gerações.

A ela, professora primária, resta buscar um refúgio. E aqui temos um outro ponto marcante desse belo romance. Os livros. Leitora obsessiva, à medida em que se casa com mais um homem bruto, que a trata com a indiferença que se dedica a um objeto banal de uso diário, nossa personagem encontra nos grandes romances da literatura um universo para seus dotes intelectuais, absolutamente desprezíveis para o pai, o marido e as irmãs.

Nas memórias que emergem das fotos antigas, dos rabiscos de diários do passado, dos bilhetes e cartas trocadas com homens por quem tentou se apaixonar, ou amigas em que buscou, sem sucesso, ter confidentes, o romance não dá nomes a alguns personagens. O pai é sempre o “Delegado”. A mãe não tem nome. O marido é o “Caçador”, figura que assume o papel de manter o legado familiar de homens autoritários e indiferentes. O filho bastardo deste Caçador é simplesmente “o menino”.

A surda e passiva revolta contra o machismo a que é submetida, faz da narradora uma mulher conformada e escapista. Lembra, demais, a voz da personagem de Desejo, perturbador romance da Nobel de Literatura, Elfriede Jelinek, cuja resenha, feita por Renata você encontra aqui. Em Fita Azul, o Delegado e o Caçador. Em Desejo, o Diretor. Em ambos, o peso das relações desiguais de poder entre homens e mulheres.

Fita azul é um livro com muitas camadas narrativas. Que merece ser lido com atenção e lápis na mão, para que o leitor não perca a sucessão de frases construídas com um lirismo que ao mesmo tempo encanta e leva à reflexão.

A quem deseja mergulhar na leitura, uma dica importante. Publicado pela Babel, uma editora que já não mais existe no mercado brasileiro, são poucas as edições ainda à solta por aí. É um livro que merece segunda edição e uma distribuição melhor. E muitos leitores.

2016-04-07 14.14.53

 

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