2 livros humanistas

Maria Valeria

Segundo texto de Umberto Eco, “quando o outro entra em cena, nasce a Ética”. O olhar sobre o outro é peça fundamental das doutrinas humanistas. E é o humanismo a matéria prima dos romances Quarenta dias e Outros cantos, da escritora paulista, radicada na Paraíba, Maria Valéria Rezende. Freira, educadora, militante, Maria Valéria emana em cada página desses dois romances o humanismo católico de Teilhard de Chardin e Jacques Maritain, a Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire e a Teologia da Libertação de Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff.

Maria Valéria publica desde 2001, transitando entre contos, crônicas, livros infantis e romances. Neste post, vamos ficar com os dois romances mais recentes, que deram notoriedade à autora, como finalista do Prêmio São Paulo e vencedora do Prêmio Jabuti de 2015 com Quarenta dias.

Nos dois livros, pontos em comum. Duas personagens. Duas mulheres. Duas educadoras. Nos dois livros, a narrativa é resultado das memórias das personagens.

Em Quarenta dias, uma professora recém aposentada anota suas memórias em um caderno cuja capa é ilustrada por uma Barbie. Ela “conversa” com essa Barbie imaginária, relatando a brusca mudança de cidade. Sai de sua querida João Pessoa levada pela filha à fria Porto Alegre. De professora alfabetizadora prepara-se para se tornar avó profissional em um lugar que não conhece, em um apartamento que não tem sua marca pessoal, em uma cidade que lhe é estranha e que estranha seu sotaque e sua “morenice brasileirinha”.

Perdida em um apartamento de móveis brancos e impessoais, a professora sai às ruas de Porto Alegre, usando como pretexto o filho desaparecido de uma conhecida da Paraíba que lhe pede ajuda. Percorre “vilas” da periferia da capital gaúcha, perde-se em ruas estreitas, trava conversas com pessoas desconhecidas, salta de ônibus em ônibus buscando uma alguém a quem não conhece, tudo para evitar o caminho de volta a um apartamento cujo endereço não tem de cor. Perde-se pela cidade em quarenta dias de lenta imersão em um abismo do qual parecer não ter mais volta.

Maria Valéria inicia todos os capítulos do romance com epígrafes. Destaco esta, de Herta Müller, que parece resumir a saga de 40 dias da professora aposentada nas desconhecidas ruas de sua nova cidade:

Era mais fácil lidar com a falta de sentido do que com a falta de objetivo, então em vez de mentiras eu agora invento objetivos na cidade

Ao vagar sem rumo e sem sentido, a professora trava o contato com o outro. Ouve histórias, ajuda pessoas, convive com os moradores de rua, tenta entender o universo de uma gente que apenas sobrevive à dureza do trabalho e à falta de perspectivas. A professora volta à casa, encerra seu caderno de memórias e não será mais a mesma pessoa que saiu para um autoexílio, uma tentativa de fuga de um destino que parece ser inexorável.

Das geladas ruas de Porto Alegre vamos para o cálido sertão paraíbano.

Nos anos 1970, Maria, uma educadora recém contratada pelo Mobral, o famigerado movimento de alfabetização de adultos do regime militar, chega a Olho D´Água. Nesse pequeno povoado, ela espera pelo material para iniciar as aulas. Estamos no universo de Outros cantos, romance que guarda correspondência com a biografia de Maria Valéria Rezende, também ela uma educadora que se internou no sertão nordestino em meio à ditadura. Enquanto espera livros, cadernos e lousa, a Maria do romance se integra à vida de Olho D´Água. Praticamente todo o povoado trabalha no tingimento de fios e tecelagem de redes. Um invisível patrão, dono de gado, de gente e da única fonte de água potável que dá nome ao lugar, mantém a todos endividados e sob a mira dos revólveres de seus capangas.

Maria se aproxima de Fátima, uma das muitas mulheres que se dividem entre o tingimento dos fios grossos de algodão e os cuidados com os filhos. Sempre à espera da volta de um marido que foi para a cidade grande em busca de tempos melhores e recursos para comprar um tear próprio, o único modo de sobreviver sem depender exclusivamente desse invisível patrão.

A história de Maria nos é contada por ela, décadas depois, em meio a uma viagem de ônibus que a está levando de volta ao povoado que foi obrigada a abandonar, por questões políticas.

Maria transita entre as memórias do que viveu em Olho D´Água e o encontro com tantas outras mulheres lutadoras que conheceu no México, na Argélia e na França. A prosa de Outros cantos é fluida, poética, de uma oralidade que traz aos ouvidos do leitor as vozes do sertão. Os modos de falar, o sotaque, os cheiros, o calor e a seca. Esta Maria, educadora, militante que deseja um país sem ditadura e um povo livre da miséria vê seus ideais de transformação entrarem em choque com a passividade dos habitantes da vila, conformados com o destino que “deus lhes deu”. Maria não desiste. Mas passa por um profundo exercício de ouvir o outro, entender o outro e suas razões. E passa por enfrentar seus fantasmas. Entre eles, os olhares de homens a quem nunca se declarou. Que passaram brevemente diante dela, deixando sua vida celibatária em constante suspense provocado por devaneios e fantasias com homens impossíveis.

Maria Valéria Rezende nos brinda com dois lindos romances. Romances sobre o outro. Romances humanistas.

Ambos, publicados pela editora Alfaguara, do grupo Companhia das Letras. Ambos marcados pelas belas epígrafes que abrem cada capítulo. O próximo passo é ler O voo da guará vermelha, romance de 2005, já em nossa lista de leitura. E, depois, Vasto mundo, seu primeiro romance, de 2001, relançado recentemente.

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