Eu sei o que você fez durante a guerra

Uma sombra paira sobre Masuji Ono. O mesmo estigma que atingiu em cheio aos milhões de alemães, japoneses, croatas, sérvios, franceses, italianos e muitos outros povos envolvidos nas guerras da era moderna. Lembro de um comentário do dramaturgo Gerald Thomas, judeu, ao ver um casal de idosos em um parque de Berlim e se perguntar: o que eles faziam na guerra? Esse também foi o mote de muitos questionamentos feitos ao elenco da seleção croata na última copa. E nesse caso, sabíamos pelas redes sociais que alguns dos atletas volta e meia têm manifestado simpatia por ideias fascistas, racistas e xenófobas, o que é tudo parte de um mesmo pacote.

Muito se gastou em horas de debates, folhas de jornais e páginas de livros com a polêmica sobre a culpa coletiva e individual. Só pra ficar no mais óbvio e famoso caso está o ensaio da também judia, a filósofa Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, que podemos resumir como um tratado sobre a banalidade do mal e a culpabilidade.

Mundo flutuantePois é também desse tema que se trata o romance Um artista do mundo flutuante, de Kazuo Ishiguro, Nobel de Literatura em 2017 em edição bem acabada e bem traduzida da Companhia das Letras.

E assim voltamos ao Masuji Ono do começo deste texto. Ele é o protagonista do romance. Na Tóquio do recente pós-guerra os bairros são reconstruídos. As pessoas circulam em meio ao escombros da guerra e Ono, um senhor que beira talvez os 70 anos é um respeitado artista plástico. Perdeu a mulher quando parte de sua casa foi bombardeada durante a guerra. Tem uma filha casada, um genro vigoroso e próspero, um neto esperto e questionador e outra filha, ainda solteira, o que é um problema para aquela sociedade japonesa dos 1940.

Ishiguro escreve com a mesma cadência e tom impecáveis do premiado romance Vestígios do dia, que resenhei aqui. Existem pontos de ligação entre as duas histórias. Em Vestígios, acompanhamos o olhar de um mordomo que assiste, sem entender, à entrada desastrosa da Europa na barca furada de Hitler. No romance japonês, Ono assiste à saída do abismo, com dificuldade para entender qual será o seu papel no “novo Japão” que os jovens querem construir, apagando as marcas do passado.

A narrativa vai lentamente nos introduzindo nessa questão. Enquanto isso, acompanhamos as divagações do artista. Ele lembra seu período de formação, os tempos de estudos na casa rural de um grande sensei – um mestre que reúne dezenas de discípulos para transmitir sua técnica -, as bebedeiras, as idas ao bairro do prazer e os projetos para um futuro brilhante. E vai entremeando essas histórias com suas preocupações imediatas. Entender a filha casada, tentar transmitir ao neto de 8 anos todo seu repertório de machismo e o peso misógino da tradição anterior à guerra. Esse, aliás, será um traço de grande resistência no processo de modernização do país, que chegará ao século XXI ainda com práticas do passado. Masuji também tenta se entender com um genro que lhe observa com reservas. E convive com as duas mortes que lhe abalaram. A já citada, da mulher, e a perda de um jovem filho no front de batalha na China.

Enquanto lembra de como chegou ao auge como pintor, sendo considerado um dos melhores tradutores do orgulho que levou o Japão à guerra, Ono também procura um casamento para a filha mais jovem, “perigosamente” solteira aos 26 anos.

E é aqui que o peso da suspeita entra em cena.  Os casamentos ainda são arranjados por estamentos sociais, proximidade financeira e, sobretudo, pela honradez. Quando as famílias buscam aproximar um casal existem longas negociações, econômicas, morais e políticas. Detetives são contratados para esquadrinhar atitudes suspeitas, dívidas, comportamentos sexuais inadequados. E, nesse contexto dos anos 1940, se alguém naquela casa esteve envolvido com a guerra. Não qualquer envolvimento. E não foi banal o modo como Ono esteve presente durante a guerra. Sua arte foi considerada fundamental para construir a ideia de um Japão imperial, grande, que deveria estender seu domínio econômico, político e cultural para os países continentais vizinhos. E foi essa construção que impulsionou a entrada desastrosa do Japão na guerra. Ono era um homem do regime, um artista oficial.

Uma negociação de casamento é interrompida quando já se aproximava do desfecho feliz. Um ano depois, uma nova negociação se inicia com outra família. É em torno desse momento que os diálogos de Ono com as filhas, especialmente a mais velha, ficam plenos de significados, silêncios e meias palavras que vão compondo a história daquela pequena família.

Ishiguro, nascido na Nagasaki reconstruída no pós-guerra, mudou-se pequeno para a Inglaterra e é reconhecido como cidadão britânico. A maestria de sua escrita está em encarnar em relatos de primeira pessoa a linguagem típica de um mordomo britânico dos anos 1930 ou de um famoso e distinto artista plástico japonês na década seguinte.

Em comum, o traço humanista de sua obra. Fica clara a intenção de construir narrativas que permitam ao leitor um conjunto de reflexões sobre grandes questões, como a guerra, as relações familiares, o machismo, presente fortemente nesses dois romances que já li, o poder, a honra, o cinismo das relações sociais e uma série de outros temas que não aparecem de forma explícita. Estão ali, à espera de que a gente junte os pontos.

 

P.S. A foto que ilustra o post é do filme Hiroshima mon amour, de Alain Resnais

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