Vestido novo ou a revolução?

Uma das passagens mais marcantes de Jamais o fogo nunca, romance da chilena Diamela Eltit, narra a angústia que a personagem principal sente ao ter desejo por um vestido. Estamos em meio à ditadura chilena e essa mulher sem nome – que nos conta a história de um casal de militantes da resistência clandestina ao regime de Pinochet – se debate contra os rígidos princípios de sua organização, que condena fortemente os desejos individuais, especialmente o consumo, como desvios do caminho revolucionário. Metido em roupas sem forma e sem cor, o corpo dessa mulher anseia por se revelar. Comprar aquele vestido significa fraquejar diante do inimigo.

Essa não é a única renúncia a que essa mulher é submetida em nome do objetivo maior. O livro de Diamela traz um quadro cru e nada romântico da militância política regida pelos esquemas centralizadores de partidos e organizações clandestinas. Sim, é preciso resistir. E nem a trajetória política e muito menos a literatura de Eltit desmentem isso. Mas ela faz uma corajosa crítica do aniquilamento da subjetividade que está presente em muitos grupos de esquerda.

Foi justamente isso que chamam de patrulha que me afastou da militância em quadros partidários ou grupos organizados, malgrado meu desejo de me envolver em lutas democráticas. Ouvir recriminações por gostar de futebol, “esse jogo estúpido em que 22 homens correm atrás de uma bola”, ou por achar que arte deve ser livre de qualquer engajamento panfletário – e ser considerado alienado por isso -, me levaram, aos poucos, a fugir dos esquemas políticos viciados na ideia de que o coletivo está acima de tudo. Isso tendo sido eu mesmo um patrulhador, mesmo que por um breve momento.

jamais-o-fogo-nunca.jpegO romance dessa poderosa escritora chilena foi publicado em 2007. E chega agora ao Brasil, com atraso, em excelente tradução de Julián Fuks e belíssima edição da Relicário. Mais uma prova de que temos pouca conexão com a produção cultural dos países vizinhos, como já comentamos neste post.

Ainda bem que o livro chegou. E foi em um momento delicado, no qual vemos nossa frágil democracia ameaçada. Pois, se for preciso resistir, que possamos aprender com os erros que fizeram muitos movimentos de esquerda sufocar desejos, liberdades e subjetividades. E este romance é um guia para mudança de comportamentos.

Escrito sob o ponto de vista de uma narradora, Jamais o fogo nunca escancara o papel secundário dado às mulheres dentro das organizações de esquerda. A história é de um casal que pertence a uma célula clandestina em meio a uma das mais sanguinárias ditaduras latino-americanas do século XX. Todo cuidado é pouco para não cair nas garras da repressão. Eles vivem confinados em um quarto, com recursos materiais escassos, passando frio, muitas vezes fome, e enfrentando graves problemas de saúde.

Eltit faz uma narrativa fragmentada. O tempo é entrecortado e a narradora tem lapsos de memória, contando pedaços de uma longa história – “cinco anos, cinco séculos?” – como cacos de cerâmica que obrigam o leitor a montar um mosaico. As peças não se encaixam, porque as lembranças são fluídas e os dramas vividos por aquela mulher se sobrepõem em meio a suas paranoias, construídas lentamente no claustro daquele pequeno cômodo.

Um filho doente, sem tratamento, porque ir a um hospital seria arriscado. Uma morte que vai assombrar para sempre a vida dessa mulher. Os embates políticos e ideológicos dentro da organização. As prisões, torturas, delações e “quedas” de companheiros trazendo o terror cada vez mais perto da vida do casal. O modo de subsistência, nos únicos momentos de vida pública, quando a mulher se dedica a banhar idosos em estado terminal, fazendo serviços que famílias ricas não encaram e, com isso, trazendo para o quarto alimentos, remédios e roupas. Todas essas questões aparecem embaralhadas em um fluxo de pensamentos que dá saltos temporais.

A relação do casal é meramente formal. Já houve alegria, praia, fotos, passeios. Agora, só existe ódio e indiferença. Em vários momentos, sabemos que boa parte do pensamento estratégico que levou o homem a liderar a célula vem, na verdade, da inteligência e lucidez com que a mulher lê as questões políticas. Mas ela está relegada a não ter voz, como um corpo bonito que pode ter valor estratégico, mas jamais como uma cabeça pensante.

Em determinado momento, ela joga da cara do companheiro a pergunta, que mostra a força do patrulhamento e o quanto a militância começa a se transformar em um fim em si mesmo:

“Entregues à disciplina que requer um militante cumprimos minuciosamente as ordens. Caminhávamos seguindo nossos próprios passos. O tempo inteiro tínhamos que caminhar atrás de nós mesmos, observando nossas costas. Assim, nos convertemos em nossos vigilantes. Assim você foi se esgotando, assim você se velou, assim se desfez, desapareceu. Assim o vejo agora mesmo entregue à exploração do seu próprio interior. Você ainda, me pergunto, conserva um ápice de interioridade. Em que você está pensando?”

Essa morte lenta da interioridade é narrada de forma assustadora. E também assusta perceber que a célula a que eles pertencem já não tem ações práticas contra a ditadura. Vive-se exclusivamente para debater a sociedade revolucionária, em uma espécie de masturbação militante, para citar famosa frase de um ministro brasileiro, trabalhando quase exclusivamente para manter a célula, totalmente desconectada do que se passa na vida real.

E a esta mulher cabe o papel de cuidar. Como ressalta Julián Fuks no prefácio, ela “cuida do homem que a oprimiu a vida inteira, cuida do filho que agoniza eternamente, cuida de uma infinidade de corpos decadentes. Só não pode cuidar de si e de seu próprio corpo, seu corpo em fragmentos, privado da integridade que alguma vez teve.”

Diamela Eltit coloca em questão o direito da mulher a decidir sobre seu próprio corpo. O desejo pelo vestido, ao contrário de um pensamento burguês e consumista, é símbolo da vontade de se libertar do jugo a que historicamente está submetido o corpo feminino. É também a vontade de ter voz, expressão, de ser no mundo.

Jamais o fogo nunca é uma leitura necessária para quem, de fato, deseja mudanças verdadeiras, profundas, estruturais, porque revolução com machismo não é revolução, é só mudança de status quo.

O Lombada também leu e resenhou Los vigilantesoutro poderoso romance da autora, ambientando nos anos da ditadura chilena.

Uma curiosidade liga Jamais o fogo nunca Jardin Blanco, da franco-argentina Laura Alcoba, resenhado aqui. Nos dois livros aparece figura do ditador espanhol Francisco Franco. Eles foram lidos na sequência, aumentando as coincidências. Em ambos, mulheres buscam libertar seus corpos e suas mentes. São histórias de sofrimento, angústia e opressão. E os dois romances clamam por esperança.

P.S.: o post é ilustrado por fragmento da obra En medio de este estupido silencio, da artista mexicana Magali Lara, em cartaz no ano de 2018 na excelente exposição Mulheres radicais, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
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