De fantasmas, flores brancas e silêncios

Pense em um edifício comum na Madri do começo dos anos 1960. Em uma região de classe média, relativamente afastada dos principais pontos de referência da capital espanhola vivem seus exílios o caudilho argentino Juan Perón e a atriz Ava Gardner. Vizinhos, carregam seus infortúnios na sombria época do franquismo praticamente sem sair de casa. E vivem às voltas com seus fantasmas.

Perón, embora já casado com Isabela, futura presidente argentina, tem sobre os ombros o peso do mito Evita. E a marca de ser um pária, expulso de sua terra natal e recebido na Espanha de forma quase clandestina, sem um aceno sequer do general Franco, que lhe permite entrar no país por um discreto aeroporto secundário, indicando que pode permanecer em Madri, desde que se abstenha da vida pública.

Ava Gardner, enfrentando o ocaso de sua carreira, agravado por um acidente durante uma tourada, encontra no modesto bairro madrilenho a quietude para suportar a eterna ressaca dos amores perdidos. Sinatra, com quem teve uma relação ruidosa, e Dominguín, um toureiro com o qual viveu um tórrido e breve romance.

Jardin BlancoÉ neste curioso edifício que a escritora Laura Alcoba ambienta Jardín blanco um romance curto, denso e poderoso, em que um breve período das vidas de Perón e Gardner são unidos pela construção, seu jardim e a presença de Carmina, uma adolescente que vive no mesmo prédio, como hóspede eventual e desesperada no pequeno apartamento da irmã mais velha.

A narrativa é fragmentada em capítulos breves, que vão alternando os devaneios de Ava Gardner, sempre acompanhada  de um copo, onde descarrega suas mágoas, a voz fantasmagórica de Evita, que nos dá conta de Perón e suas angústias. E o pavor expresso nos cadernos de Carmina. Medo que cresce na mesma proporção de seu ventre, na iminência do desastre do abandono de um homem desconhecido.

A unir essas personagens o jardim do pátio central do edifício, o jardineiro e seu filho fugidio, que todos os dias vem trabalhar, plantando cada vez mais flores brancas das mais variadas espécies, as miradas que o caudilho dá para o espaço cada vez mais branco e a solidão de Isabela, que percebe o pensamento constante de Perón direcionado para a figura mítica de Eva.

Os fantasmas estão por toda a parte. Talvez o próprio prédio seja também um fantasma, uma ilusão, um ponto de encontro das desilusões desses personagens. Carmina visita Ava todos os dias. Ouve, calada, as histórias desconexas da atriz, sempre muitos tons acima da impossível sobriedade.  Carmina, sempre muda, porque leva dentro de si a semente da dúvida, a perspectiva de um escândalo familiar, pois fugiu da casa da mãe quando se viu abandonada pelo homem que faltou a um encontro no Parque do Retiro em uma manhã fria e chuvosa. Sabe que está condenada à desgraça. E não fala.

Perón, a quem acompanhamos pelos pensamentos do fantasma de Evita. Verdadeiramente, sabemos pouco da vida caudilho nesse apartamento, salvo pela visita de um correligionário. Os pensamentos de Eva têm mais a ver consigo mesma. Sua morte recente, o imbróglio em torno do desaparecimento de seu corpo, o medo dos militares argentinos (em uma das muitas ditaduras desta nossa pobre América Latina, sempre tão ameaçada pelos fascistas) de que a figura de Evita seja símbolo das esperanças de um povo dado à adoração extrema de seus ídolos. É em torno do corpo de Evita que temos os capítulos mais loucos de Jardín blanco, quando acompanhamos a narrativa que a defunta faz dos cuidados que recebe, ainda enferma, do “Espanhol”, um famoso embalsamador que é contratado para tornar o futuro cadáver da primeira-dama a mais bela e perfeita obra de conservação de um corpo. A morbidez do relato, impressionante e detalhista, é um dos pontos altos do livro.

Jardín blanco é um livro sobre a solidão de três mulheres que são meros objetos. Duas delas, adoradas por multidões, mas não pelo que são e sim pelo que representam. Uma, objeto do desejo masculino nas telas do cinema e nas fotos das revistas. Outra, a bela e caridosa esposa de um político populista, com sua vida curta e dramática que a torna mítica para uma população enlouquecida. E a terceira mulher, que sai da infância e descobre na ilusão de um amor não correspondido uma das faces cruéis do machismo: a dos homens que abandonam.

Laura Alcoba, argentina de nascimento, parisiense de adoção, escreve em francês. Seu romance é universal, unindo pontas tão distintas como Ava, Juan, Eva e Carmina, mostrando que a solidão está ao alcance de todos. Um livro entremeado de silêncios, que são resumidos pela frase final dos cadernos de Carmina:

 

La Sra. Gardner tal vez tenga razón. A veces, es en los intervalos mudos cuando todo se pone a hablar. Hay oportunidades en que el silencio también pude gritar, hasta volverse ensordecedor.

Sí, irme, desaparecer. Realmente, ni tú ni yo tenemos opción.”

 

Comprei Jardín blanco em um fim de tarde perigoso entre as prateleiras da livraria El Ateneo, em Buenos Aires. Foi pelo título e pela resenha na contracapa. A edição é da filial argentina da Edhasa, casa editorial catalã. Não há tradução para o português. Em francês, a edição original de Jardin Blanc saiu pela tradicional Gallimard.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s