Os protestos de 2013 em romance

Uma das grandes belezas da arte é a de funcionar como uma espécie de antena de questões e preocupações coletivas antes mesmo que a própria coletividade se dê conta delas, antecipando mudanças sociais profundas. Às vezes, o engajamento nos problemas do hoje é mais direto e grandes fatos do momento são elaborados como expressão artística ainda a quente, enquanto os acontecimentos ainda estão se desenrolando. É este o caso de Avenida molotov, romance de estreia de Pedro Guerra, publicado pela Quelônio como parte da coleção Valsa de Esquina.

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Ambientado em São Paulo em 2013, o livro aborda o clima na metrópole durante a gestação dos protestos que culminariam se espalhando por todo o país, materializando em participação popular uma crise política e institucional já patente há vários anos. No livro, o publicitário João Paulo está mais preocupado em beber cerveja no boteco da esquina, entregar o trabalho que faz como freelancer e escapar de uma fossa sentimental com transas casuais. Enquanto isso, a jornalista Carolina cobre os protestos contra o aumento das passagens de ônibus, tentando entender – como de resto, toda a imprensa – no que aquilo vai dar.

As histórias de João Paulo e Carolina correm paralelamente, um em completa alienação, a outra nem tanto, por dever de ofício mas não só. Lésbica e casada com uma mulher, Carolina acaba sentindo na pele uma escalada generalizada da violência no bojo do bordão “contra tudo isso que está aí” que reuniu trabalhadores e neonazis na Avenida Paulista e em várias outras capitais do País, no que foram provavelmente os protestos mais heterogêneos e esquizofrênicos de que se tem notícia.

Pois se foi a violência da PM que botou fogo numa mobilização que já estava de morna pra fria, o recrudescimento trouxe pras ruas um novo tipo de manifestante orgulhoso, perigosamente orgulhoso – o de extrema direita, saudoso da ditadura, armamentista e contrário a qualquer política pública que buscasse equilíbrio social.

Pedro Guerra não tenta analisar nem responder nada, mas transpor para o papel o clima daqueles dias na vida de pessoas para quem, ao fim e ao cabo, os 20 centavos das passagens de ônibus não iam mesmo fazer diferença alguma. Uma pauta ingênua que nos carregou para tempos nefastos de perseguição às diferenças e ao conhecimento.

O autor fez a arriscada aposta de escrever quase no calor do momento, quando as consequências dos protestos ainda estão se desenrolando. As escolhas para os personagens principais também parecem ser as mais domésticas possíveis (o próprio escritor é jornalista e redator) e transparecem um certo deslumbramento com a oportunidade de participar de algo que intuem ser grandioso (ou “histórico” nas palavras do romance).

O personagem mais interessante e multifacetado do livro, o funcionário de um edifício na avenida Paulista que vê a confusão passar pelo portão de seus patrões, está relegado à condição de plot twist bem no final da narrativa. Este é o cara que faz surgirem as perguntas: quem está protestando do lado de fora do portão, e pelo quê de fato?

Avenida molotov poderia ser mais profundo e complexo, mas é uma primeira tentativa de elaborar artisticamente acontecimentos importantes da contemporaneidade brasileira e, por isso, tem seu mérito.

 

 

 

 

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