Por que ler a ‘Epopeia de Gilgámesh’

Uma das fantasias mais recorrentes da ficção científica é a invenção de uma máquina capaz de nos transportar no tempo. Só que ela já existe. Está por aí há coisa de cinco mil anos e responde pelo nome de escrita. A Epopeia de Gilgámesh – Ele que o abismo viu é uma prova bem eloquente disso. Trata-se da mais antiga narrativa registrada pela humanidade de que se tem notícia até hoje. E a história de como ela foi descoberta demonstra como é incrível esse cantinho chamado mundo.

Gilgámesh foi um rei sumério que reinou provavelmente por volta dos séculos XXIX ou XXVII a.c. (ou seja, uns 4.600 anos atrás) na região sul da Mesopotânia, atualmente Iraque e Kwait. Um dos seus feitos conhecidos é a construção de uma muralha de cerca de 9 km ao redor da Úruk, importante cidade da Babilônia. Em esculturas e relevos bem preservados, ele é retratado como um homem de cabelos longos e encaracolados, e barba bastante farta, às vezes segurando um leão no colo. 

Histórias sobre Gilgámesh já circulavam por todo o mundo mesopotâmio pelo menos desde 2000 a.c. – mas toda essa fama se perdeu em algum momento e permaneceu totalmente esquecida até 1859, quando um arqueólogo britânico descobriu em Nínive (hoje Mossul) as ruínas soterradas do que fora uma grande biblioteca, com dezenas de milhares de plaquinhas de argila marcadas com escrita cuneiforme. Era a biblioteca do rei Assurbanípal, destruída em um incêndio, uma tragédia momentânea que acabou tendo um lado positivo: o fogo pode ter ajudado a conservar a argila até a descoberta contemporânea.

Começou então o trabalho de decodificação das placas, um processo lento que partiu dos nomes dos reis (a fórmula para mencioná-los sempre se repetia) até que em 1872 a decifração da 11º tabuinha deixou o mundo de queixo caído: ela contava a história de um grande dilúvio ao qual apenas um homem tinha sobrevivido com sua família, em um barco construído segundo instruções divinas, em que ele guardou as espécies de todos os animais e sementes que existiam na terra. Descobria-se naquele momento que a história de Noé narrada pela Torá e pelo Velho Testamento tinha uma origem ainda mais antiga do que a ligada à tradição judaico-cristã.

O episódio do dilúvio é apenas uma das várias histórias contadas na Epopeia de Gilgámesh. Incrível mesmo é saber que a narrativa já circulava como um best-seller por todo o mundo antigo, traduzida para vários idiomas por ordem de Assurbanípal, um rei escriba que entendeu antes que qualquer outro o poder da informação circulante e sistematizada. Graças a ele, a Epopeia foi reproduzida do Egito à Pérsia e ainda hoje, em pleno século XXI, novos fragmentos vêm sendo descobertos, decodificados, traduzidos, retraduzidos e reordenados, enriquecendo a narrativa e revelando suas variações regionais.

Gilgámesh, Riobaldo e Diadorim

Já ouvira falar de Gilgámesh muitas vezes. Uns meses atrás, li mais sobre a narrativa e sobre Assurbanípal em um dos capítulos de O mundo da escrita, de Martin Puchner, um daqueles livros que te faz comprar muitos outros livros. Mas o impulso decisivo para correr atrás de Gilgámesh a sério veio com uma participação de Ronaldo Correia de Brito em uma aula de Raimundo Carrero, no Sesc Paulista.

O tema era o Sertão, e Ronaldo então falou sobre como João Guimarães Rosa pode ter se inspirado em Gilgámesh para criar os jagunços Riobaldo e Diadorim de Grande Sertão: Veredas. Um dos meus livros da vida, carrega a narrativa de amor mais dolorida da literatura brasileira: uma história de paixão homoafetiva entre dois guerreiros buscando provar seu valor em batalhas que se desenrolam em um espaço amplo e inóspito. Erudito que era Guimarães Rosa, afirmou Ronaldo, certamente conhecia Gilgámesh. A relação, portanto, não poderia ser apenas coincidência, mas uma interpretação deliberada da narrativa mesopotâmica (descrevo de memória: infelizmente, não achei as anotações do curso para escrever esse post).

Pois a Epopeia é a história de um rei jovem e urbano que sai ao mundo para provar o seu valor. No início da jornada, encontra o parceiro perfeito em Enkídu, uma criatura criada do barro pela deusa Arúru. Eles são em tudo antagônicos: Gilgámesh é refinado, se veste bem e está sempre com cabelos e barba tratados com esmero. Enkíndu é um bichinho selvagem, que precisa aprender a beber cerveja e a comer comida preparada por mãos humanas. Ainda assim, a ligação entre os dois é imediata e profetizada pelos deuses:

A ele amarás como uma esposa, por ele te excitarás,
   Ele é forte, sempre a ti salvará!
(...)
Mãe, pela boca do conselheiro Énlil tal me aconteça!
   Um amigo, um conselheiro eu ganharei.
Ganharei eu um amigo, um conselheiro!

Juntos, saem pelo mundo procurando aventuras, desafiando os deuses, nessa relação de amizade que ao leitor de hoje parecerá eivada de desejo sexual. Tradutores e estudiosos tendem a achar que era só brodagem mesmo (no fundo, isso pouco importa – como mulheres ao longo dos milênios já estão cansadas de saber, não existe amor mais forte que de um macho por outro).

Até que Enkídu morre e Gilgámesh entra em um luto profundo, que o faz abandonar os valores e hábitos citadinos para vagar pelo mundo como um selvagem – como fora Enkídu – totalmente abalado com a ideia de mortalidade. É quando ele decide ir até o fim do mundo para encontrar o único homem imortal de que se tinha notícia: Uta-napíshti, que sobrevivera ao mítico dilúvio, ganhando dos deuses a imortalidade – o personagem mesopotâmico que inspirou o Noé judaico-cristão.

A Mesopotâmia estava localizada entre os rios Tigres e Eufrates, que sofriam cheias periódicas. É de se esperar que uma dessas, mais severa e possivelmente letal para milhares de pessoas, tenha inspirado o mito do dilúvio. Sensacional é motivo pelo qual os deuses (no caso mesopotâmico) ou deus (judaico-cristão) resolveram encher a terra de água: pura e simplesmente controle populacional. Na Bíblia, assim como em Gilgámesh, não há julgamento moral nem castigo envolvidos na decisão divina de eliminar parte considerável da humanidade – só mesmo a avaliação objetiva de que era hora de fazer uma limpa numérica, sem distinção entre virtuosos e pecadores.

Viver para sempre não é tudo isso

Uma coisa impressiona Gilgámesh desde a primeira vez que ele vê Uta-napíshti: apesar da imortalidade, ele leva uma vida absolutamente normal – tediosa, até. Esse ponto resume um pouco uma das grandes virtudes da Epopeia de Gilgámesh – não se trata apenas de uma incrível história de amor e aventura, mas uma permeada de cabo a rabo por grande questões existenciais e da vida em sociedade. 

O rei Gilgámesh podia ser forte e imponente na batalha, mas tinha um mundo de caraminholas em movimento debaixo dos caracóis de seus cabelos. Apesar de dois terços deus, o um terço restante era demasiadamente humano. Não lembro de ter ficado com essa sensação com relação às narrativas gregas consolidadas por Homero, por exemplo. Ulisses é tão perfeitinho que dá vontade de bater. Já Gilgámesh a gente quer pegar no colo, dar um abraço amigo, chamar pro bar  e dizer “cara, tamo junto”.

Por que consumidas te estão, as têmporas, cavada tua face,
   Desafortunado teu coração, aniquilada tua figura?
Há luto em tuas entranhas (...)

Além disso, a Epopeia retrata o embate entre dois modos de vida: o urbano e o rural, ou selvagem. Sendo o herói o rei, a balança pende ligeiramente para o lado citadino. Mas é interessante ver que a ambiguidade com relação à natureza (ou ao campo) já se faziam tão presentes nas urbes do século XXVII a.c. quanto na São Paulo de 2020.

Um musical da Idade Antiga

Gilgámesh é uma delícia de ler. A história está escrita em versos e tem um ritmo que me lembrou o tempo inteiro os musicais de hoje: as repetições são usadas habilmente pelo escriba para imprimir ritmo e estilo à narrativa. Alguns trechos são usados como verdadeiros refrões que, repetidos por diferentes personagens com pequenas variações, lembram muito as óperas ou musicais contemporâneos.

A obra não é um espanto apenas por sua antiguidade ou pela forma como foi redescoberta: é também uma criação estética maravilhosa. Há vários trechos suprimidos por causa de falhas nas tabuinhas, e até isso é lindo de ver: a história que chegou até nós também é um pouco obra do acaso. De tempos em tempos, descobertas de novas tabuinhas e outras versões vão sanando as lacunas, mas talvez jamais conheçamos, de fato, a obra completa.

A tradução brasileira

Meu exemplar da Epopeia de Gilgámesh é o da editora Autêntica, publicado em 2018, com tradução para o português direto do acádio por Jacyntho Lins Brandão. Comprei o meu na minha ex-vizinha livraria Combo Café e Cultura, que mantinha aqui em Pinheiros um minúsculo espaço dentro de um contêiner dividido com uma máquina de espresso, mas com uma densidade de boa literatura difícil de equiparar, mesmo em São Paulo.

A edição tem uma introdução curta e excelente do próprio tradutor, em que traça um panorama cronológico da descoberta dos vários trechos de Gilgámesh de que se tem notícia até agora, desde a descoberta das primeiras tabuinhas em meados do século XIX aos fragmentos encontrados em 2014. Brandão também faz uma avaliação muito interessante sobre a invenção da escrita, um momento crucial da história humana que muito provavelmente veio não numa evolução suave, mas num salto repentino, para mudar os rumos da civilização.    

Trata-se, é claro, de uma tradução comentada – dois terços do volume são compostos por notas. Numa sábia decisão de tradutor e editora, o poema vem limpo, sem referências de qualquer tipo; o leitor que sentir a necessidade deve procurá-las ao revés, no fim do livro, a partir dos comentários. Recorri a alguns pontualmente ao longo da leitura, mas em uns quatro ou cinco capítulos senti a necessidade de lê-los inteiros. É onde Brandão se estende em referências históricas, revê as traduções existentes até então e justifica algumas de suas escolhas.

Sobretudo, adorei perceber que o tradutor compartilha com a gente o deslubramento por seu objeto de estudo: 

Que seu nome [Gilgámesh] tenha desaparecido e não tenha ficado em “nossa” literatura e cultura nenhuma lembrança dele até que as placas de argila enterradas sob as areias do deserto iraquiano no-lo apresentaram dá-nos a dimensão do quão profunda pode ser nossa ignorância, de quanto mais vasta do que supõem nossas certezas são a história e a cultura humana e de quão pouco a matéria de Gilgámesh pode ser dita “nossa” num sentido comum.

A Epopeia de Gilgámesh está, obviamente, em domínio público, e há cópias gratuitas ou baratas por toda a internet, em todas as línguas que se possa imaginar. Mas se você puder investir uns golpinhos, procure uma edição comentada como essa da Autêntica. Num caso como esse, o cuidado com a tradução e a preocupação com a história do texto são fundamentais pra experiência da leitura.  

3 comentários sobre “Por que ler a ‘Epopeia de Gilgámesh’

  1. O cuidado com o registro de fatos e narrativas creio que houve sempre, mas o que se perdeu em incêndios é incalculável, citando a célebre Biblioteca de Alexandria. Gostei muito do texto. É um alento saber do interesse e admiração por algo tão significativo.

    Curtido por 1 pessoa

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