8 livros para o amigo secreto online

Há quem duvide de que 2020 vá realmente terminar no próximo dia 31. Neste ano interminável de Covid-19, isolamento e negacionismo, aprendemos a nos relacionar com o mundo pelas telas. Isso não quer dizer que a vida mediada pela radiação das telinhas era uma novidade. Mas, muitos de nós, de certa forma privilegiados, passamos a ficar 100% do tempo cativos de aplicativos de reuniões, nas inevitáveis lives do quase infinito 2020. Um ano ímpar.

Tudo indica que a vacina vem aí para um 2021 melhor. Mas as festas de fim de ano que se avizinham precisam ser online. E os indefectíveis amigos secretos, também. A dupla que escreve o Lombada Quadrada tem a sorte de não participar de trocas de presentes familiares ou profissionais, mas, solidária com quem precisa se integrar a essa socialização dezembrina lança seu pacote de maldades anual com a lista de sugestões de livros para o amigo secreto. Neste ano, a ideia é indicar autores que lemos recentemente, contemporâneos ou não. E olha que a pandemia teve um efeito colateral perverso, pois os números de leitura em 2020, que em breve vamos divulgar, ficaram aquém do desejado, como se o sinistro da saúde tivesse cuidado da nossa logística de leitura.

Vamos aos livros?

  • O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

Uma das grandes descobertas do ano, ganhou nova edição da Editora 34. O clássico de Bulgákov é um primor de fantasia, nonsense e ironia com o regime soviético. Proscrito por décadas, acabou ganhando o mundo nos anos 1960, influenciando um bocado de gente boa do mundo da cultura. Leitura agradável e a certeza de sucesso ao presentear. Quer saber mais? Clique aqui para ler nossa resenha.

  • A mulher submersa, de Mar Becker

E se a pessoa sorteada gosta de poesia, a dica é outra leitura incrível do ano. Nos versos da poeta gaúcha Mar Becker estão presentes o amor e morte, e a relação trágica entre ambos é apresentada desde o primeiro poema: a mulher que ama com um corpo estéril, fim de uma linhagem. Por outro lado, um amor libertado pela impossibilidade de reprodução, capaz de fruir o sexo com alguma liberdade – ainda, que sob os movimentos contidos de quem se move debaixo d’água. Uma poesia sem lirismos fáceis, que carrega uma profundidade ao mesmo tempo em que transborda simplicidade na escolha das palavras. A edição é da Uratau e a resenha do Lombada está aqui.

  • E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas, de Emicida

Multiartista, dono de uma grife que transborda compromisso com o combate ao racismo, Emicida também fez sua incursão no mundo da literatura infantil com uma história espelhada linda de ler. Uma menina tem medo da escuridão. E, em outro plano, uma menina vampira tem medo da claridade. Mexendo com um dos pânicos mais recorrentes da humanidade, Emicida provoca na criança leitora a reflexão sobre aceitação das diferenças. Se tem criança no amigo secreto da família, tá aí a dica de leitura para os pequenos e pequenas. A edição é da Companhia das Letrinhas em parceria com o Lab Fantasma, projeto do próprio autor, e a nossa resenha está publicada aqui.

  • Memórias da plantação, de Grada Kilomba

O racismo foi um dos grandes temas em debate no ano de 2020. A violência policial contra negros e negras, parte triste do cotidiano em muitos países, veio ao centro da tela com os protestos nos Estados Unidos e na França e com o brutal assassinato de Beto Freitas no Carrefour de Porto Alegre escancaram o que todos os negros e negras já sabem: como funciona o racismo estrutural. E o racismo está entranhado de tal forma, que faz parte da linguagem. E é nesse ponto que a portuguesa Grada Kilomba, pesquisadora e artista visual de grande talento toca em seu ensaio Memórias da plantação, publicado pela Cobogó e que os autores do Lombada consideram leitura fundamental para entender como preconceito, ódio e separação entre pessoas estão presentes no cotidiano e devem ser combatidos também no cotidiano. A resenha está neste link e o presente será um tanto útil para disseminar a mensagem antirracista.

  • A bailarina da morte: a gripe espanhola no Brasil, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling

No ano da Covid-19 não poderia faltar como dica o ensaio das historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, que recuperam os registros históricos da passagem da Gripe Espanhola pelo Brasil entre os meses de outubro de 1918 e fevereiro de 1919. Milhares de vidas foram ceifadas, a imprensa e as autoridades negavam os reais perigos da gripe e queriam salvar a economia e o pânico se instalou, até que um dia o vírus foi perdendo força e a situação foi se normalizando com um custo social e econômico devastador. Algo em comum com os nossos dias, não? Presente para quem não quer fugir da realidade e nem deixar o amigo secreto escapar do mundo como ele é. A publicação é da Companhia das Letras e a resenha está publicada aqui.

  • Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso

Uma viagem desastrada, duas mulheres sem rumo. Patroa, a babá e uma criança entrelaçadas por uma trama que a resenha do Lombada afirma que parece ser de suspense, quase um thriller, com elementos bastante convidativos para uma adaptação cinematográfica. Mas é essencialmente um romance sobre duas mulheres em suspensão, encurraladas em um momento de inadequação à vida. Tudo isso com uma linguagem ágil, capítulos que se alternam em camadas narrativas, mudando o foco da mãe, desesperada com o desaparecimento da filha para a babá, que empreende uma viagem fadada ao fracasso. Mundos distantes de pessoas que habitavam a mesma casa. Uma história muito bem contada, leitura daquelas que você faz em uma sentada só e que a cada capítulo ganha intensidade e faz com que o leitor ou leitura fique mais e mais curioso pelo desfecho. A edição é da Todavia.

  • Pequeno mundo antigo, de Antonio Fogazzaro

Se você vai presentear uma pessoa amante dos novelões do século XIX e quer fugir dos óbvios Goethe, Victor Hugo e outros mais manjados, tem a oportunidade de surpreender com essa joia de narrativa que ganhou uma edição belíssima da Carambaia. Publicado originalmente no fim do século XIX, Pequeno mundo antigo, de Fogazzaro é um clássico da narrativa romântica que vai ganhando alguns elementos que já prenunciam o século XX. A vida passa lentamente nas cercanias das pequena cidades de Valsolda, Oria, Albogasio e San Mamete, à beira do imenso lago de Lugano, no norte da Itália. Paisagens marcadas por grandes montanhas, florestas, neve e uma natureza exuberante nas margens lacustres.  É um período de agitação política e a região está sob o domínio do império Austro Húngaro. É nesse pequeno mundo que o nostálgico autor ambienta a história de Franco Maironi, neto e único herdeiro de uma poderosa e rica marquesa, dona de lugares e mentes naquele condado. Mas o jovem fidalgo tem o seu quê de rebeldia. Enfrenta a família e se casa com a jovem Luisa. E entra para o movimento que busca a unificação da Itália. Tragédias, jardins bem cuidados, longas caminhadas pela montanha. Todos os elementos de um novelão que vai prender a pessoa presenteada à rede ou poltrona por longas horas e está resenhada aqui.

  • As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez

Para os aficionados por suspense e terror, os contos da argentina Mariana Enriquez caem como uma luva. Foi uma das leituras mais impactantes que tive nos últimos tempos e percebo nas timelines um povo bacana ligado em literatura que a autora é uma crush literária de um bocado de gente. Essencialmente, Buenos Aires, ruas, bairros afastados ou casas abandonadas são os cenários para contos impactantes, escritos com uma precisão, cujas tramas se encaixam, redondas, revelando o intenso trabalho de Mariana para lapidar a linguagem. Li a edição em espanhol e descobri que a Intrínseca tinha feito a tradução para o português. A resenha está publicada aqui e, com certeza, em 2021 vou ler mais trabalhos da jornalista e escritora portenha.

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