Os abismos de Vila-Matas

Exploradores2Pego carona no post anterior, em que Renata define com precisão o escritor catalão Enrique Vila-Matas como um pândego. E peço licença para continuar nesse autor.

Em nossa biblioteca ele se tornou um desses casos em que você lê o primeiro livro, que lhe chega sem querer, e vai empilhando um atrás do outro, até ter colecionado parte significativa de sua obra. Vila-Matas nos veio pelas referências que antecediam sua vinda à Flip. E, depois de uma conferência absurdamente sarcástica sobre a ironia, que assistimos em Paraty, ficou de vez entre nossos preferidos.

Por isso não tive dúvida, em março de 2015, de levar um Vila-Matas para ler durante nossa viagem a sua Barcelona natal. Escolhi Exploradores do abismo, um livro de contos, lançado em 2007 e publicado em 2013 no Brasil pela Cosac Naify, com o capricho que é costumeiro à editora.

Foi interessante estar no bairro de Gracía, personagem de um dos contos, e em Barcelona, cidade onipresente em quase todo o livro. Claro que compramos mais Vila-Matas em uma pequena livraria próxima ao Carrer de Gracía.

Livro de contos? Difícil explicar se os textos reunidos em Exploradores são mesmo contos. Tem de tudo ali, inclusive contos. E Vila-Matas brinca com isso em um desses textos, Das tripas coração, que começa assim:

“Há um ano, voltei a escrever contos, mas sem perceber que na verdade continuava com os hábitos do romancista. Continuava utilizando um tempo moroso, nem um pouco adequado para a narrativa breve.”

O conto traz a angústia do narrador, um velho escritor de sucesso às voltas com uma seca criativa, que briga com seus detratores e busca as causas de sua dificuldade para retomar a escrita. Tudo, carregado de ironia e sarcasmo. Senão, não seria Vila-Matas.

Em quase todos os textos de Exploradores do abismo os narradores estão às voltas com o período de convalescença de um grave problema de saúde. Talvez seja o único elo mais visível entre contos tão diversos e possivelmente, ligado a alguma experiência do próprio autor.

Ah, sim, como não poderia deixar de fazer, Vila-Matas faz troça do leitor, como em Por que ela pediu isso, texto mais longo e envolvente de todo o livro, quase um mini-romance. Nele, é o próprio Vila-Matas que nos relata uma tortuosa conversa com Sophia Calle, escritora, fotógrafa e artista plástica, que aparece do nada em sua vida e lhe encomenda um texto que relate a vida de uma mulher francesa obcecada por ser… Sophia Calle.

Vila-Matas vai enredando os leitores em um novelo narrativo que mistura referências absolutamente verossímeis com alta dose de ironia, o que nos deixa justamente onde ele parece querer nos levar: à beira de um abismo, cujo fundo é povoado de ficção e verdade, misturadas de tal forma que você não as distingue e chega até mesmo a duvidar da existência real de Sophia Calle, a ponto de ir ao Google para ter certeza de que n

Exploradores3

Para ler Exploradores é preciso se deixar levar pelo guia que é Vila-Matas nessa aventura de explorar abismos. Por que em todos os contos, você duvida, estranha, sente um incômodo, precisa voltar e reler trechos, às vezes, voltar ao começo, seguindo, talvez, o conselho da epígrafe ao lado, que deve ser tomada com um manual para tentar entender Vila-Matas.

Como diz Daniel Pellizzari na resenha da orelha do livro, “Boa sorte”.



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2 comentários sobre “Os abismos de Vila-Matas

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