Futuro andrógino

A ficção científica é comumente associada a ideias de futurismo e invenções tecnológicas mirabolantes. O apelo dessa combinação é óbvio: incontáveis vezes na história, traquitanas imaginadas por ficcionistas acabaram se tornando realidade – o telefone celular e a internet, pra citar dois exemplos atuais. Grande parte dos fãs do gênero está mesmo interessada só nas fantasias tecnológicas (e, paradoxalmente, quem o odeia costuma alegar o mesmo), mas a ficção científica tem outros encantos.

O mais interessante deles é como ela projeta as consequências da evolução científica sobre as relações sociais e afetivas, fazendo do presente o seu verdadeiro objeto de análise. Lembram de O homem bicentenário, de Isaac Asimov? O conto virou filme com Robin Williams no papel principal, o de um androide que, por uma falha de programação, cria sentimentos e a vontade de virar humano. O robô Andrew usa sua inteligência artificial para desenvolver partes do seu próprio corpo que o aproximem da humanidade, inclusive no envelhecimento – e a sociedade tem então que decidir sobre a aceitação de um robô como um dos seus. A grande questão do livro e do filme é atual, e não futurística: o que nos faz verdadeiramente humanos?

UrusulaÉ por este caminho que segue a escritora americana Ursula K. Le Guin em seu romance A mão esquerda da escuridão, publicado no Brasil pela Editora Aleph. Só o prefácio da autora valeria o livro inteiro: ela analisa longamente o papel dos escritores na crítica da atualidade, especificamente da ficção científica. Que, segundo ela, “não prevê, descreve”. Ainda que pelas chaves da idealização e do contraponto, é o binarismo da relações de gênero que ela aborda em seu (incrível) livro.

Em um futuro não pontuado no tempo, um terráqueo está em missão solitária em um planeta localizado na borda do território que a humanidade já consegue alcançar com suas naves espaciais. De tão frio e coberto de neve, ele é conhecido como Inverno. O trabalho do terráqueo é tentar convencer os habitantes de Inverno a fazer parte do Mundo Ekumênico, uma congregação de planetas que promove a comunicação, a troca científica e o comércio entre seus participantes. Sem nenhum sinal anterior de vida alienígena, os habitantes de Inverno o recebem com credulidade.

Se esperava resistência e choque cultural, o terráqueo não esperava outro importante complicador: os seres humanos que povoam Inverno parecem ter seguido uma linha evolutiva diferente – são todos andróginos, sem gênero definido. Cada um deles passa por ciclos sexuais periódicos em que alternam fases de latência e de potência. Neste, desenvolvem as características do gênero feminino ou masculino de acordo com a interação com seu parceiro, que então assume o gênero contrário. No período de latência, eles simplesmente não têm gênero algum.

As relações sociais em Inverno são construídas em torno desse arranjo biológico não binário, em que não há as dualidades forte/fraco, bruto/sensível, doméstico/caçador ou qualquer outra que orienta todo o planeta Terra até o dia de hoje. Em Inverno, não há estupro, e qualquer ser humano pode engravidar, tornando-se responsável temporário por outra vida iniciante – porém, sem as amarras terráqueas que definem o papel das mulheres como mães, eternamente responsáveis por sua cria.

Ursula Le Guin acredita que deveríamos ser andróginos hoje. Obviamente, ela não se refere ao arranjo biológico de seu planeta imaginado, mas a um maior equilíbrio nas relações sociais pautadas inevitavelmente pelo gênero e que são, via de regra, prejudiciais às mulheres.

No contato com as autoridades do planeta inverno, o personagem terráqueo não consegue desapegar da dualidade e se vê raciocinando em termos masculinos e femininos: “Era impossível pensar nele como uma mulher, aquela presença escura, irônica, poderosa ali ao meu lado”. Em outro trecho, descreve negativamente outro personagem como indiscreto, bisbilhoteiro, ignóbil, ganancioso – e, portanto, afeminado.

O terráqueo supera esse pensamento binário após a convivência intensa com um dirigente de Inverno que tenta ajudá-lo, nos capítulos mais emocionantes do livro, tanto pela narrativa de aventura que Le Guin imprime neste ponto, quanto pela tensão sexual que se cria entre eles. O terráqueo finalmente se toca de “como a sexualidade ininterrupta de minha raça influenciava as instituições sociais”.

A mão esquerda da escuridão coloca ao menos duas outras discussões interessantes. O planeta Inverno tem quatro ou cinco países independentes entre si, sendo que dois mais importantes se tratam como rivais. Um deles, uma monarquia primitiva e belicosa, na qual o terráqueo faz suas primeiras tentativas de contato. A outra, uma protodemocracia coordenada por um conselho de notáveis, aparentemente mais evoluída e refinada – mas que, como ele vem a descobrir, profundamente sinistra em suas práticas.

O outro ponto, também político, é o questionamento permanente sobre o patriotismo. A disputa entre estas duas nações, observada de fora por um alienígena que tende a enxergar um planeta uno, é tratada sem concessões por Le Guin. Para ela, patriotismo nada mais é do que o medo do outro, e “suas expressões são políticas, não poéticas: ódio, rivalidade, agressão”.

Obviamente, o romance traz sim todo um arcabouço de imaginação tecnológica que ampara a narrativa ambientada em outro planeta e em outro tempo, o que deve satisfazer aos leitores que curtem esse aspecto da ficção científica. Mas isso não é nem de longe o principal. A mão esquerda da escuridão é um livro sobre nós, hoje, exatamente como sua autora defende no prefácio. Escrito anos atrás, ele parece falar para este ano de 2016, em que nos horrorizamos com uma sucessão de estupros coletivos, ataques homofóbicos, crises migratórias e xenofobia.

Aquilo que a realidade nos entrega hoje vem sendo discutido pela literatura e pelas artes há muito tempo. E – o Brasil que o diga – ao preço da criminalização da cultura como algo inútil, desnecessário e até nocivo. Mas, como diz Le Guin: “Há mesmo algo de surpreendente no fato de nenhuma sociedade respeitável jamais ter confiado em seus artistas?”

PS: A imagem de destaque nesse post é de uma instalação do artista Cildo Meireles, visitada na galeria Luisa Strina.

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3 comentários sobre “Futuro andrógino

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