O inferno do eu

“Pelo menos vão restar de mim algumas palavras”, ele ri, embaraçado. “Como serragem, depois de cortar madeira…”

Já estamos quase no final do romance O inferno dos outros, do israelense David Grossman, quando essa frase surge no discurso de um dos dois personagens principais de um livro em que você só embarca plenamente na reta final. E restam muitas palavras fortes do comediante Dovale, perdido em um palco obscuro na pequena Netanya, cidade do norte israelense. Restam palavras que o leitor vai mastigando, aos poucos, em uma obra escrita no alucinante ritmo com o qual os humoristas de stand up vomitam piadas para plateias abobalhadas, conduzindo-as ao riso fácil das anedotas carregadas de sexismo, homofobia e os mais variados clichês e preconceitos.

A grande sacada de Grossman em O inferno dos outros é construir uma narrativa que se baseia em dois ritmos distintos. Quando estamos acompanhando o show de Dovale em um clube de terceira categoria do subúrbio de Netanya, a prosa se desenrola em uma velocidade alucinante. Você é capaz de se sentir ali, em uma das mesas do clube, tomando uísque barato e mastigando castanhas enquanto o humorista dispara sua metralhadora verbal.

O outro ritmo é dado pelo personagem do juiz aposentado Avishai Lazar, que ocupa uma das mesas. E tenta entender o porquê de ter recebido um telefonema de Dovale, amigo de infância a quem não via há mais de 40 anos, que o convida insistentemente para ir a Netanya. E ele então pega uma estrada, cruza metade do território israelense e vai assistir àquele espetáculo que ele, juiz de gosto refinado, consideraria grotesco em qualquer situação. Lazar, recém enviuvado, começa a acompanhar o show com grande arrependimento. Em meio a devaneios provocados pelas lembranças da mulher, começa a prestar atenção à performance que se desenvolve no palco.

E como este leitor, vai mergulhando aos poucos na história que Dovale começa a contar, entre uma piada e outra. Esta história surpreende o público, irrita a maioria que ali foi atrás de riso fácil. E começa a envolver o leitor, ávido por entender qual é o alvo de Dovale. Fiquem calmos, que não vou contar nada essencial. Mas é preciso dizer que Dovale começa a desenterrar um episódio de sua adolescência. Conta de sua relação com os pais, ambos sobreviventes do holocausto, da vida reclusa e medíocre que levavam na Jerusalém do começo dos anos 1960, e de sua estranha habilidade de fazer longas caminhadas plantando bananeiras. Isso mesmo, como na ilustração da excelente capa do livro, Dovale foi um menino hábil em escapar do mundo andando sobre as mãos, embaraçando as pessoas à sua volta.

E então Dovale chega ao verão em que vai com a escola para um acampamento militar. Israel, um estado em guerra permanente, militariza seus jovens desde cedo. E o garoto tímido não escapa dessa sina.

As pessoas que estão no clube não sabem. Mas o leitor sim. O juiz Lazar foi amigo de infância de Dovale. E também estava nesse acampamento. A partir desse ponto, um acontecimento inesperado faz com que a narrativa ganhe uma velocidade ainda mais espantosa. E uma densidade dramática que vai provocando um misto de sufocamento e ansiedade para que o comediante enfim conte tudo que aconteceu naquele dia distante e que viria a marcar toda sua vida.

É claro que a plateia se divide. Vaias, xingamentos, pessoas que abandonam o espetáculo. Tudo vai acontecendo, até que o desfecho da história se dá para um punhado de pessoas, algumas hipnotizadas pela história do menino, outras furiosas, mas também curiosas para saber o que afinal aconteceu. Outras, por compaixão, porque Dovale vai se desmilinguindo em cena. Se autoflagela, cai, ri, chora, faz pausas, volta às piadas, buscando atenção para o veio principal de seu propósito daquela noite. Colocar as entranhas de sua vida para fora, em uma espécie de despedida.

E nós, privilegiados leitores, ainda temos de brinde o fluxo de pensamentos do juiz, que vive seu luto intensamente, enquanto tenta entender o que enfim seu amigo de infância quer dele. Um julgamento? Absolvição? Ou simplesmente um testemunho de seu ocaso?

Ao chamar o livro de O inferno dos outros, Grossman brinca com a célebre frase de Jean-Paul Sartre, quando afirmou que “o inferno são os outros”. Aqui, ao se derramar diante de uma plateia ávida por sangue, mostrando seu inferno particular, Dovale parece ser uma alegoria de tempos em que o espetáculo do mundo se desenrola nas redes sociais, esse grande tribunal onde a humanidade tem praticado a arte de assistir à vida privada de outrem, para analisar, compartilhar e julgar ideias, opiniões e comportamentos.

E quanto ao juízo de valor a respeito da stand up comedy feito no começo do texto, embora pareça exagerado, a narrativa de Grossman está recheada de piadas grotescas, inseridas nos momentos mais absurdos da história de Dovale, como um alerta para o risco do humor fácil que tem como alvo as minorias e temas espinhosos como o antissemitismo, por exemplo, que é discutido o tempo todo neste livro. Grossman também entra nos macetes da comédia para desnudar a facilidade com que comediantes conseguem levar plateias ao riso alucinado e acrítico. Não por um acaso, em uma das mesas do canto, quase escondida, está uma outra amiga de infância de Dovale, que tem nanismo, e a quem ele chama de Pitz (pequenina ou anã em Ídiche), tentando, sem sucesso, fazer piada em cima de sua condição.

Ou, como diz Antonio Prata, em sua coluna do dia 11 de setembro de 2016, na Folha de S.Paulo, “assista a meia hora de comédia stand-up nacional no YouTube, assista às propagandas de cerveja na televisão ou ouça quase qualquer propaganda de rádio (a mulher é uma idiota com um problema, o homem aparece com a solução) e fica claro que quem está em risco aqui não é a liberdade de expressão, mas as minorias. No entanto, em 20 anos conversando com jornalistas e leitores, nunca me perguntaram: “O que você acha das piadas racistas ou machistas ainda terem tanto espaço no humor brasileiro?”.

Embora David Grossman tenha outros livros já traduzidos para o português, foi este lançamento que nos chegou pela parceria do Lombada Quadrada com a Companhia das Letras. E deu um gosto danado de querer ler mais. A edição está impecável. E a tradução, direta do hebraico, é de Paulo Geiger, que brinda o leitor com um glossário de expressões em ídiche, hebraico e árabe, que acertadamente optou por deixá-las no texto quando fazem parte do contexto da narrativa.

2016-09-13-14-47-20

P.S.: a imagem em destaque no post é uma tela de Salvador Dalí, fotografada no Museu Teatro Salvador Dalí, na cidade catalã de Figuerés, terra natal do artista.

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3 comentários sobre “O inferno do eu

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