Qual a cor de Otelo?

IMG_0141Sei que a escolha geral recai sobre Hamlet, mas elejo Otelo como minha peça preferida de William Shakespeare. Obviamente, é uma escolha incompleta – ainda nem li MacBeth, por exemplo – mas, por algum motivo, minha predileção pela tragédia do mouro de Veneza se reforça a cada leitura. Não foi diferente nas últimas semanas, com a nova tradução lançada pela Companhia das Letras, em edição de bolso do selo Penguin Companhia.

Para além do que se poderia esperar de uma edição de baixo custo, o livro agrega ao texto de Shakespeare um ensaio de W. H Alden, uma excelente introdução do tradutor Lawrence Flores Pereira e mais de 50 páginas de notas sobre a tradução e contexto cultural reunidas no final do volume. A introdução de Pereira vale a leitura por si. Mais do que um comentário sobre a tradução, ele faz um resumo do percurso histórico da peça e das questões humanas e sociais levantadas por Shakespeare em Otelo – o que inclui, vejam só, uma alusão feminista avant la lettre.

Otelo, vamos lembrar, trata da história de um general mouro contratado pela cidade de Veneza para protegê-la. Apreciado pela aristocracia local por sua competência, apesar de sua origem, a sorte de Otelo começa a mudar quando ele promove um dos seus ajudantes e pretere o outro – Iago, que se tornará seu algoz. Ardiloso, Iago manipulará Otelo em seu maior ponto fraco – a insegurança a respeito de sua posição social. Otelo sente que é tolerado, mais do que bem-quisto. Casado com Desdêmona, filha de um conceituado comerciante veneziano, ele volta essa insegurança contra sua esposa na forma de um ciúme doentio, que terminará em assassinato.

O primeiro feito da introdução é repor em seu lugar a grande questão de Otelo: não o ciúme, como se consagrou de forma simplista, mas até que ponto pode ir a imaginação de uma mente insegura. Assim, Lawrence Pereira recupera a história das críticas a Otelo. Sua leitura foi marcada pelo foco na relação passional e no potencial de Desdêmona como adúltera (tema que Machado de Assis refere diretamente em Dom Casmurro, com os seus Capitu e Bentinho). Em ambos os livros, os protagonistas são tragados por seus próprios fantasmas, não pelo comportamento de suas esposas.

Como diz o tradutor, as críticas acabam revelando mais sobre os críticos do que sobre a peça. Os leitores simplesmente escolhem se alinhar com Otelo e Bentinho – se eles acham que Desdêmona e Capitu podem lhes ter traído, todas as atenções se voltam ao comportamento das duas e nada mais conta, não importa quão descaradamente desequilibrados sejam seus consortes. Certa época, não faz muito tempo, virou moda fazer julgamentos simulados de Capitu – todo o teatrinho de um tribunal para discutir a sério se ela traiu ou não Bentinho. Percebam o absurdo: uma mulher fictícia indo a julgamento, com juiz, júri, acusação e defesa, em pleno século 20, pela desconfiança de que possa ter corneado o marido doido – cujo testemunho é o único que existe.

[Aliás, essa questão continua absolutamente contemporânea: quantos e quantos casos de feminicídio são tratados como crime passional? Em quantos deles os holofotes se voltam às vítimas – o que elas fizeram, o que elas vestiram, o que elas disseram para merecer a morte?]

Mas vamos ao segundo ponto interessante da introdução de Otelo: a história de sua representação ao longo do tempo. Não esqueçamos, trata-se de um texto criado para teatro. No começo do século 17, quando foi escrito, a presença de negros na Europa era exótica, mais uma curiosidade do que uma questão social, o que só emergiria com a escravização em massa das populações africanas. Se até então Otelo era representado como um negro, sem maiores dramas (tome blackface), no começo do 19, com as tensões da diáspora no auge, Otelo passa a ser interpretado por atores brancos de cara limpa.

Convenientemente, diretores passam a ler o adjetivo mouro como um indicativo de origem árabe, apesar de vários personagens lançarem injúrias contra a cor de Otelo ao longo do texto. O preconceito racial ficou escamoteado e findou transfigurado numa diferença de religião – o que não deixa de ser contraditório, pois o protagonista se declara convertido ao cristianismo. Na prática, Shakespeare deixou uma pegadinha com efeito retardado. Como, em meio ao sistema escravocrata, apresentar um personagem tão forte e tão altivo como um negro, considerado um ser inferior?

Só com fim do tráfico de africanos no Ocidente a questão começa a ser recolocada nos eixos, lenta e cuidadosamente. Entre o primeiro e segundo atores negros a representar Otelo, foram-se mais de 100 anos (o americano Ira Aldridge, entre 1820-30, e Paul Leroy Robeson, em 1957). Pode parecer absurdo, mas lembremos que o lançamento do filme Otelo tendo Laurence Olivier como protagonista foi uma comoção internacional, pois era a primeira vez na história do cinema que o mouro de Veneza seria encarnado por um ator negro – e estamos falando de 1995.

Como aponta Lawrence Flores Pereira, “a própria história da representação e montagens de Otelo em parte replica as discussões sobre raça ao longo dos séculos”. Aqui, é importante lembrar que Shakespeare não operava fora de um sistema racista. Pode-se questionar: o que foi intencional na composição da peça? Mas, principamente: isso importa? A arte capta as questões cruciais do seu tempo e, quando excepcional, também as do futuro – afinal, mudam os modos, mas não o ser humano. Shakespeare​, como bem sabemos, vem sendo discutido nos últimos 400 anos justamente por sua capacidade de apreensão da humanidade em toda sua profundidade – o que nos leva ao terceiro ponto interessante desta edição Otelo.

Em várias de suas obras, Shakespeare lança mão dos chavões válidos até hoje sobre o comportamento feminino, e Otelo repete isso em parte. Porém, a personagem da aia Emília é muito intrigante: dama de companhia de Desdêmona e mulher de Iago, cabe a ela levantar, possivelmente pela primeira vez na história, a ideia da igualdade entre homens e mulheres:

Mas eu acho que a culpa é toda dos maridos
Se as mulheres traem. Eles faltam aos deveres
Quando derramam nosso ouro em colo alheio,
Ou interrompem em ciúmes, cheios de rancor,
Pondo-nos restrições. Ou ainda nos batem,
E abatem nossa renda prévia por despeito, 
Sim, temos fel: e se temos certa doçura,
Temos também vingança. Que os homens percebam
Que as esposas também têm sensações. Elas veem,
Cheiram, sabem saborear o que é amargo ou doce
Tal como seus maridos. O que eles estão fazendo
Quando nos trocam por outras? É diversão? 
Acho que sim. E é afeição que nutre isso? 
Creio que sim. E é por fraqueza que erram assim? 
Sim, também sim. Mas não temos afeições, gana
De nos divertir, fraquezas como os homens têm? 
Pois que nos tratem bem, senão usem de tino:
As faltas que fazemos vêm do seu ensino. 

Era Shakespeare feminista? Evidentemente, não. Várias de suas peças exibem situações absolutamente misóginas. Porém, não deixa de ser assombroso que tenha captado esse desejo de igualdade nos 1600, ainda que inconsciente na sociedade. Talvez o reinado de Elizabeth e sua recusa em se casar tenham atiçado as antenas do velho Will a respeito das potencialidades femininas. Ou talvez ele tenha ouvido uma conversa entre lavadeiras – vá saber. Fato é, o bardo nos deixou um trabalho extremamente complexo, que não por acaso vem sendo discutido até hoje.

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2 comentários sobre “Qual a cor de Otelo?

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