7 motivos para ler ‘A montanha mágica’

O escritor alemão Thomas Mann é autor de alguns dos clássicos mais importantes da literatura do século XX, dentre eles A montanha mágica – um tijolão que em Português conta 848 páginas na última edição, publicada em 2016 pela Companhia das Letras. Eu sei, porque já aconteceu comigo, que a palavra “clássico” afasta muitos leitores. Talvez seja apenas receio de não estar à altura de uma leitura tida como difícil ou, ainda, uma consequência do jeito torto como o sistema educacional brasileiro nos aproxima do nosso próprio cânone – odiei Memórias póstumas de Brás Cubas quando me obrigaram a lê-lo aos 14 anos; reli aos 18 e a impressão foi completamente diferente.

Tudo a seu tempo. A montanha mágica me chegou em boa hora, quando eu já tinha maturidade suficiente para me dedicar a uma leitura extensa e desafiadora. De Thomas Mann, eu só conhecia Os Buddenbrook, que li depois de visitar o museu casa em homenagem a ele em Lübeck, na Alemanha. Seja como for, Mann é um escritor incontornável, se seu trajeto de leituras leva você a temas como artes, humanismo ou simplesmente boa literatura. O fato de que ele vinha sendo citado em várias outras leituras me convenceu de que era a hora de voltar a seus domínios. Hoje, compartilho com vocês alguns motivos para fazer o mesmo.

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1. O rei dos romances de formação 
Bildungsroman, ou romance de formação, é o termo em alemão que se refere às obras literárias dedicadas a explorar o desenvolvimento completo de um personagem, em geral desde a infância ou adolescência até a idade adulta. A montanha mágica acompanha um momento crucial na vida do jovem burguês Hans Castorp, que começa a história indo visitar um primo em um sanatório para tuberculosos nos alpes suíços, na vila de Davos. Hans está prestes a iniciar sua carreira como engenheiro naval, mas estende sua permanência no sanatório ao ser diagnosticado com sintomas da doença. Curiosamente, neste que é considerado um dos mais icônicos romances de formação, o personagem principal, chamado pelo autor de “nosso herói” passa maior parte do tempo fazendo… nada. A aventura dele é bem outra: uma jornada que é ao mesmo tempo para dentro de si e para a compreensão dos pensamentos que fermentavam e se contrapunham na Europa do começo do século XX. No fundo, ele é um Ulisses às avessas – e como diz outro personagem, do qual falaremos adiante, preso eternamente numa ilha de Circe.

2. Ah, a burguesia.
O sanatório de Davos não era um lugar qualquer. Estava mais para um hotel de cinco estrelas, onde os pensionistas (e não pacientes) gozavam de todos os luxos possíveis, incluindo banquetes diários e acesso aos melhores vinhos e cigarros produzidos na Europa; em contrapartida, cumpriam uma rotina quase militar de repouso e medição de temperaturas. Assim, Thomas Mann faz uma crítica sarcástica aos ricos europeus, que gastavam os tubos em tratamentos de eficácia duvidosa, capitaneados por médicos beirando o charlatanismo, num estado de coisas que evidenciava o valor do ócio como marca de classe. Grande parte dos pensamentos de Hans Castorp se volta, por exemplo, a tentar encontrar uma certa honradez inerente à doença, talvez para justificar a sua própria inação, os seus próprios gastos estratosféricos nesse império kitsch. Aquilo era o melhor que o dinheiro de um rico tuberculoso podia comprar: a companhia de outros ricos tuberculosos e a possibilidade de se dedicar a nada útil por meses a fio, isolado nos alpes justamente quando a Europa fervilhava à beira da primeira guerra mundial. É uma coincidência maravilhosa que Davos hoje sedie o Fórum Econômico Mundial.

3. Tempo, tempo, tempo, tempo…
As internações duravam meses, e muito frequentemente vários anos, como foi o caso do jovem Hans Castorp e de seu primo. Isso explica em parte a extensão do romance mas, primeiro, é preciso ressaltar novamente que nada acontece de fato n’A montanha mágica. Assim, a extensão do livro é uma construção quase metalinguística: enquanto nosso herói e o próprio narrador se dedicam a elucubrações metafísicas sobre a passagem do tempo, e sobre como isso se dava de maneira diferente “lá em cima”, o leitor também tem uma experiência diferenciada com o tempo que é necessário dedicar à leitura. Os alpes são para Hans o que o próprio livro acaba sendo para o leitor – um ambiente em que horas, os dias e os meses têm outro funcionamento. Eu mesma levei vários meses para concluir a leitura que, além de tudo, precisa de momentos de respiro.

4. A grande treta universal
Hans Castorp não está sozinho em sua viagem interior. Ele conta com dois tutores antagônicos: o literato humanista Lodovico Settembrini e o jesuíta Leo Naphta, que disputam aguerridamente a simpatia do jovem engenheiro para suas correntes de pensamento. A princípio, Castorp debate apenas com Settembrini, que também morava no sanatório. Quando este é desenganado e se muda para a vila de Davos, dividindo uma casa com Naphta, começa o melhor MMA ideológico de todos os tempos. Settembrini é quase um iluminista, enquanto Naphta não esconde a nostalgia pela Idade Média e por certo obscurantismo. Assim, ele representa o pensamento conservador que estava escalando na Europa desde antes da primeira guerra e que culminaria no nazismo alemão.

O mais interessante, contudo, é que tanto Settembrini quanto Naptha são contraditórios em muitas ocasiões e se aferram mais ao que os separa do que àquilo que poderia uni-los. Seja como for, estamos aqui quase cem anos depois discutindo coisas muito semelhantes: liberalismo x conservadorismo, individualismo x moralidade,  religião x laicidade. Sobre esse assunto, encontrei este interessante artigo acadêmico de Kaio Felipe Mendes de Oliveira Santos no site da UNB.

5. É a coisa mais elegante que você lerá – por toda a vida  
Elegante e ao mesmo tempo sarcástico, irônico, divertido, instigante e extremamente erudito. Não sei o quê botam na água da Alemanha, mas Thomas Mann segue a tradição de Goethe só que sem tanto drama, assim como depois dele o fez Elias Canetti, outro de meus autores favoritos.

6. Tem uma menção sutil ao Brasil
Em um dado momento, Leo Naphta lembra da presença de “sul-americanos portugueses” no seminário jesuíta em que estudou. A referência não deve ser acaso: a mãe de Thomas Mann era brasileira, nascida em Paraty, de pai alemão e mãe brasileira descendente de indígena. Ela foi enviada de volta à Alemanha com apenas seis anos e morou na casa de Lübeck que inspirou Os Buddenbrook. Julia Maria-Bruhn até escreveu um livro de memórias sobre a infância no Brasil. Diz-se que algumas personagens de Mann são inspiradas em Julia e há livros que exploram a presença brasileira na obra do escritor.

7. Isto:

Pois a literatura não era outra coisa senão isto: a associação de humanismo e política, associação que se realizava com a maior naturalidade, visto o próprio humanismo ser política, e a política, humanismo… 

Essa frase está no meu trecho preferido d’A montanha mágica e não por acaso trata do lugar da literatura no mundo, posição defendida aguerridamente por Settembrini e rechaçada por Naphta. Bom, vocês já sabem de que lado estamos.

***

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