As difíceis decisões de um capitão

Opa! O título promete o que entrega. Mas talvez não entregue o que procuras. Não estamos falando de nenhum capitão atual, talkei? O assunto aqui é literatura.

Falamos de um barco pesqueiro, no século XVII, comandado por um bravo capitão que se encontra diante de difíceis dilemas morais, escolhas, julgamentos, sabendo-se soberano de uma situação sobre a qual não há outra lei que não a dos mares. Falamos de uma obra de Herman Melville. Mas esqueça Ahab e Ismael. Esqueça o Pecquod e não pense em baleias. Trata-se de Benito Cereno uma novela do autor de Moby Dick, que traz ao leitor uma série de questionamentos acerca da natureza humana, do nosso conceito de Justiça e das questões raciais que permeiam a história da humanidade até os nossos dias.

20190415_130233Para começar, preciso falar do livro e da edição brasileira feita pela Grua Livros, em coleção chamada “A arte da novela”, organizada internacionalmente pela Melville House Publishing, dos EUA, com projeto gráfico de primeira e ótima tradução de Bruno Gambarotto. O volume saltou aos meus olhos na Festa do Livro da USP e fez parte das inúmeras compras que eu e Renata fizemos naquela louca tarde de sábado.

Benito Cereno teve sua primeira publicação em 1855, quatro anos depois, portanto, da obra prima de Melville. A história é baseada nos relatos reais de Amasa Delano, capitão americano que no ano de 1799 socorreu um galeão espanhol que estava à deriva nas águas do Sul do Chile, muito próximo do temido Cabo Horn. Nesse ponto, a leitura me remeteu ao romance pouco conhecido de Jules Verne, O farol do fim do mundo, que já resenhei aqui. As duas sagas guardam algumas semelhanças entre si. Marinheiros perdidos, às voltas com piratas e criminosos, a necessidade de decisões morais e julgamentos que não podem esperar pela polícia ou pela Justiça. São livros que poderiam compor a lista que Renata publicou recentemente neste post destinado ao ex-juiz Moro. 

Se em Verne a distinção entre mocinhos e bandidos é bem clara e a questão mais forte, como ressaltei na resenha, é de ética e solidariedade, a obra de Melville é bem mais complexa, embora muito mais curta. Em 148 páginas, o autor americano coloca o leitor diante de diversos temas delicados, evitando julgamentos do narrador, que conduz a história mostrando os dilemas intensos vividos pelo capitão Delano em um espaço de poucas horas.

Tudo começa quando seu navio caça-focas está fundeado em uma pequena baía do Sul do Chile. É um dia de calmaria e de aproveitar para descanso da tripulação e abastecimento de água. Eis que em meio a uma paisagem cinza chumbo, surge a figura de um navio sem bandeira, com mastros e velas avariados, denotando dificuldades.

Justo e solidário, Delano reúne seus melhores homens e, de bote, vai em direção ao galeão, pedindo autorização para subir a bordo. É recebido por Benito Cereno, capitão, um marujo espanhol de pouca experiência, aparentemente guindado ao comando por indicações políticas, que conta a estranha história do navio. Segundo ele, há semanas navegam à deriva, depois de sair de Buenos Aires em direção a Lima, no Peru, com rico carregamento de especiarias e escravos.

A história é nebulosa, como o dia. Tomado de compaixão, Delano ordena a seus ajudantes que retornem ao caça-focas para recolher víveres e água potável. No galeão, homens, mulheres e crianças passam por necessidades visíveis, estão fracos, desnutridos, muitos enfrentam doenças, embora reine uma aparente calma e algumas atividades são executadas mecanicamente, como o trabalho de passar alcatrão em cordas que estão sem uso. O bote se vai e começam as longas e intermináveis horas da presença de Delano no convés do barco espanhol.

Daqui por diante é impossível falar mais sem cair em spoilers. Vou me conter, porque há muito a comentar sem entrar nos detalhes da história.

Melville faz um vai e vem emocional em torno da figura do capitão Delano, cujos pensamentos oscilam violentamente, como se estivessem nas altas vagas de uma tempestade em alto mar. Há momentos em que Cereno e seu estranho ajudante – um homem negro, escravo, inexplicavelmente guindado ao posto de ajudante de ordens, e que jamais desgruda de seu chefe – são alvos de muita simpatia. Amasa sente em suas expressões todas as dificuldades pelas quais passaram nas semanas de deriva. Mas uma certa altivez do capitão espanhol, um orgulho que não se deixa abater, e movimentos estranhos na combalida tripulação e no grupo de escravos fazem com que ondas de desconfiança e temor tomem conta do americano.

Melville maneja com maestria a tensão nessas poucas horas de espera. O bote que não retorna. A história cada vez mais difícil de engolir dos acidentes com o galeão. Tudo vai se misturando na cabeça do capitão norte-americano. E em seus pensamentos, afloram preconceitos raciais, justificativas morais para a escravidão e uma certeza que ele nutre de que os espanhóis, ou os latinos, mais amplamente, são seres inferiores aos anglo-saxões. Tudo isso em uma cabeça que pende ora para a empatia ora para a aversão. Delano não é uma figura fácil. É preciso um bocado de estômago para não enjoar com essas ideias que aparecem, a meu ver, mais como uma denúncia de um espírito de época do que uma real posição do autor. É essa convicção que me fez ir ao desfecho.

E que final! Uma sucessão de plot twists que começam ainda a bordo do galeão e seguem no momento em que finalmente o bote carregado de suprimentos chega para ajudar o navio em apuros e resgatar o capitação do caça-focas. É de tirar o fôlego.

Melville voltou ao mar, um habitat que adorava, para contar uma história repleta de suspense psicológico, em que a linguagem, aparentemente simples e linear, é  manuseada para estender o tempo, gerar tensões, envolver o leitor em uma trama nervosa e cinzenta. Uma tempestade verbal em meio a um cenário de calmaria, neblina e de um mar absolutamente parado, como que criando um palco para o desenrolar da trama.

Benito Cereno, leio nas redes, teve adaptações para a Broadway e para uma recente peça no circuito off-Broadway. E merece, muito, uma adaptação engenhosa para o cinema. Quem sabe…

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