Joicy e o jornalismo humanizado

“Os olhos da gente também não são uma objetiva fotográfica?”
IMG_4651A frase de Guilherme de Almeida no prefácio de Cosmópolis (já resenhado aqui) me remeteu imediatamente a O Nascimento de Joicy, de Fabiana Moraes. O livro publicado pela Arquipélago Editorial parte da série de reportagens publicadas pelo Jornal do Commercio (Recife) em abril de 2011, que acompanhou a saga do agricultor João na sua transição para o corpo de Joicy, de quem já vestia a alma. A reportagem em si já era impactante – na primeira matéria, Joicy aparecia nua na sala de sua paupérrima casa em Alagoinha, interior de Pernambuco, numa pose que lembrava a Vênus de Botticelli. Cabelos curtos, meio calva, rosto envelhecido e masculinizado, em nada ela lembrava o estereótipo de transexual cristalizado na imagem de Roberta Close.

A série foi publicada pouco antes de me mudar para São Paulo. Meses depois, continuei acompanhando as agruras de Joicy pelo Facebook de Fabiana, que seguia compartilhando suas dificuldades e banalidades. Perto do que soubemos pela rede social, a brevidade da série, apenas três matérias, ficava ainda mais estridente frente ao mundo que ainda havia para contar. O nascimento de Joicy – Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem é a história dessa relação que não acabou com a publicação da matéria. É também uma preciosa defesa de um jornalismo mais humano, sensível, profundo e menos hipócrita quanto a sua pretensa objetividade.

No livro, a reportagem vem acompanhada de uma instigante análise sobre a subjetividade no jornalismo e sobre uma escrita que se reconhece imperfeita de saída. Mas não imperfeita porque distante; imperfeita justamente porque muito próxima. Durante a apuração para a reportagem, Fabiana conviveu com Joicy numa intimidade que o cânone jornalístico consideraria “errado”. Comprou comida quando sua geladeira estava vazia, deu-lhe roupas, reformou o banheiro, enviava dinheiro quando a personagem estava nas últimas, o que ocorria com grande frequência. A proximidade era um caminho para realmente enxergar o outro, as necessidades do outro – as reais necessidades do outro e não as previamente concebidas no ar-condicionado da redação.

O jornalismo contemporâneo é alienado quanto ao que acontece fora dessa peça de ficção que a gente chama de pauta. No cotidiano das redações, os profissionais se acomodaram a procurar o personagem que se enquadra em sua tese pré-estabelecida. Em geral, meia hora de entrevista em um encontro apressado fornece as aspas e a foto necessária para fechar a matéria, seja o assunto qual for. Não há espaço para a descoberta – um paradoxo para uma indústria que vive de notícias. 

[As redes sociais potencializaram esse jornalismo falsamente objetivo de uma maneira assustadora: há comunidades no Facebook notórias pelo mercado de personagens. Jornalistas postam que estão fazendo determinada pauta e assessores de todo o País indicam seus clientes como potenciais entrevistados. Não há investigação, não há construção do relacionamento com a fonte. Apenas um check-list a cumprir no desenvolvimento da matéria: apresentar a questão, mostrar o personagem que exemplifica a questão, entrevistar o especialista que avalizará a questão. Se houver contraditório, ouvir “o outro lado”, que é procurado apenas como mais um item do check list e será fatalmente apresentado na posição defensiva. Pouco importa se a questão em si é verdadeira ou não. Parafraseando Churchill – se as pessoas soubessem como são feitas as matérias e as salsichas…]

O que O nascimento de Joicy preoconiza é o questionamento basilar como condição sine qua non do jornalismo: por que as coisas são como elas são? O conjunto Joicy – a matéria, as reações à matéria, os posts no Facebook e, finalmente, o livro – são sobretudo uma discussão profunda sobre um jornalismo contemporâneo que estigmatiza, que não enxerga as diferenças e tampouco seu papel como mediador social. Um jornalismo que, na verdade, não vê sua própria responsabilidade na perpetuação das coisas como elas são – portanto, faz mesmo sentido que não as questione. A carreira de Fabiana, que tenho o privilégio de acompanhar de perto, é um grito contra isso.

Mais do que uma fotografia tirada com os olhos, como sugere Guilherme de Almeida, o que ela oferece é um filme em super 8, intimista e político. Por isso, seu livro deveria estar na bibliografia de todos os cursos de Comunicação que prezem por uma prática imbuída de conteúdo social.

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2 comentários sobre “Joicy e o jornalismo humanizado

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